OS NÓS E OS LAÇOS: A FORÇA DA AUTENTICIDADE EMOCIONAL — Verão 1993 (2017)

Carla Simón (realizadora) e Laia Artigas (atriz)

— Elsa Couchinho & Ana Belchior Melícias

No Verão 1993 (2017, Espanha), primeira longa-metragem de Carla Simón (auto-biográfica, como as suas duas curtas anteriores), vagueamos com Frida, 6 anos, segurando (ou amparando-se?) uma boneca/bebé, numa casa em mudanças com adultos atarefados, sem distinguirmos os laços ou os nós que os unem.

Perguntam-lhe porque não chora enquanto lá fora, segue estourando o fogo-de-artifício. E dentro? Poderá a mente de uma criança fragmentar-se após um acontecimento traumático? Será justamente o acesso a essa dor e, finalmente, a sua explosão, o arco narrativo desta história: quando, como e com quem se pode chorar a perda mais catastrófica da infância. Que formas uma criança encontra para organizar o luto e expressar as emoções. 

“Fascinam-me as relações familiares(…) são relações que não eleges (..) também o tema da ausência(…) é algo que reorganiza as dinâmicas familiares de uma forma muito particular”. (1)

Fora de casa é tempo de festa coletiva, esse tempo organizado ancestralmente marcando etapas da existência humana e carregando consigo o potencial simbólico que impregna a cultura popular. Esse espaço que desde sempre organizou a comunicação entre o profano e o religioso, um continente para a manifestação da força das pulsões e da sua expressão simbólica, colocando em cena a vida, a morte, a sexualidade, a destrutividade, muitos dos mistérios com que o Homem se depara.

Longe da estimulação da cidade, o tempo de férias, o espaço rural e o regularidade dos rituais e festividades comunitárias, configuram o tempo-espaço potencial para o luto e para as inevitáveis re-configurações familiares, que assustam (como as galinhas) e podem ser frágeis (como os ovos). Testemunhamos com ternura o delicado processo de adoção já em movimento: uma tia, um tio e uma prima de 3 anos, terão de ser-aceites-e-tornar-se mãe, pai e irmã, num enovelado de fios a ser desembaraçado. Por enquanto o pente-matérnage da tia, é rejeitado…

Escolhida pela ambiguidade do olhar – “… podia parecer a criança mais cândida ou ser perversa”(1) – Laia (atriz) reflete tanto a inocência como o sadismo infantil. Será a morte fruto dos ataques fantasiados ao corpo materno? Terá a tia o mesmo destino? A vivência da culpa esculpirá, a seu tempo, os movimentos de reparação-ofertas (mãe e tia).

Por enquanto, Frida-em-ferida tenta conter as dores que transbordam na pele (eczema). Corajosa, deixa-se picar-testar ainda longe de perceber. Correrá no seu sangue a causa da morte (longínqua) do pai e (recente) da mãe? Na sociedade, corre o tabu do vírus ainda desconhecido – HIV – e a ostracização dos seus portadores. Internamente, conseguirá o processo de luto conter o risco de uma septicemia psíquica?

Não será o tentador lugar de vítima a conferir a Frida o seu lugar na família, entre as outras crianças, com os avós e tias, pois ela brinca, e os brinquedos, como Klein compreendeu, permitem a expressão privilegiada dos conflitos internos e das relações de objeto. 

Identificada à mãe Frida retira as bonecas-bebés de um saco apresentando-as a Anna, uma a uma: o nome, a origem, selando finalmente com um beijo a filiação e o amor recebido que não se dispõe a perder ou partilhar. Maquilha-se e veste-se, apresentando-nos o seu objeto-interno-mãe: glamorosa, dorida, cansada mas amorosa. À Anna será atribuído o papel de filha em frustração. Mas noutro momento, dançam em alegre cumplicidade fraterna, e noutro ainda toleram aguardar a vez para uma dança com o pai.

Refletido na constante e vã recomendação para atar os laços dos sapatos, os laços de adopção, atravessam um caminho pontuado pela ambivalência. O ciúme e a inveja pairam sobre Frida ao perceber-se excluída do lugar que Anna ocupa no mundo/cama dos pais. Restam-lhe as orações que a avó lhe ensinou e a Virgem com o menino lá no bosque, via para uma eventual comunicação com a mãe perdida. A raiva e a omnipotência levam Frida a fazer as malas e partir, mas a escuridão da noite e a dura realidade da impotência infantil, trazem-na de volta. Observa como os tios-pais a procuram, tal como anteriormente procuraram Anna. E a tia-mãe num gesto de verdadeira continência (rêverie), deita-se junto a ela, afaga-a e vela pelo seu sono, confirmando ter lugar para um novo “bebé”. 

A zanga, a frustração, as provocações e desafios, poderão ser acolhidos e transformados, se reconhecidos como expressão de dor psíquica. Sem intrusividade, respeitando o tempo de maturação próprio da infância, Frida vai se assegurando que encontrou-construiu um lugar nesta nova família e, sabendo-o, pode afinal perguntar e tentar compreender: qual era a qualidade do amor da mãe e qual o seu lugar dentro desta.

A ambivalente e prazeirosa “brincadeira-guerra” de almofadas na cama dos pais, revela o verdadeiro sentimento de pertença. Aconchegada e contida emocionalmente, o dique pode então rebentar, e Frida entra em contato profundo com a sua perda. E chora!

AUTORAS 
Elsa Couchinho & Ana Belchior Melícias
Psicanalistas. Membros Associados da Sociedade Portuguesa de Psicanálise (SPP) e da International Psychoanalytic Association (IPA). Psicanalistas da Criança e do Adolescente.
E-mail — elcouchinho@gmail.com \ E-mail — ana.melicias@gmail.com

REFERÊNCIAS
1. Carla Simón. https://www.eldiario.es/cultura/cine/carla-simon-cine_128_3310096.html
2. Claúdio Azevedo (2018) https://www.cinema7arte.com/summer-1993-por-um-cinema-ternura/

TRAILER

FICHA TÉCNICA
Título Original — Estiu 1993
Ano — 2017
Duração — 98′
País — Espanha
Direção — Carla Simón
Argumento — Carla Simón
Fotografia — Santiago Racaj
Montagem — Didac Palou e Ana Pfaff
Direção de Arte — Mireia Graell
Desenho de som — Roger Blasco
Produção — Valérie Delpierre
Elenco — Laia Artigas (Frida) – Paula Robles (Anna) – Bruna Cusí (Marga) – David Verdaguer (Esteve) – Fermí Reixach (Avô) – Montse Sanz (Lola) – Berta Pipó (Tia Àngela) – Isabel Rocatti (Avó)
Género — Drama / Família

SINOPSE
No Verão de 1993, tendo já perdido o seu pai, Frida, 6 anos, encontra-se perante uma das mais complexas tarefas da infância – a morte da mãe. É obrigada a sair de sua casa em Barcelona e mudar-se para o campo na Catalunha. É obrigada a reconstruir para si uma nova família. O comovente filme auto-biográfico de Carla Simón, conta-nos sobre a incompreensão e tensão da criança frente às turbulentas emoções do luto infantil a que acresce o geralmente inevitável processo de adopção. Os novos laços deverão ser tecidos intra e intersubjetivamente tanto pela espantosa Frida (Laia Artigas), como pelos tios e a sua encantadora filha Anna (Paula Robles), de 3 anos.