O ENIGMA DA MORTE — Brincadeiras Proibidas (1957)

— Ana Belchior Melícias

“A antítese de brincar não é o que é sério, mas o que é real.” (Freud, 1908)

O filme Brincadeiras Proibidas (1957) em Portugal, Brinquedo Proibido no Brasil, “…consegue ser incrivelmente profundo e emocionalmente complexo, mas tem uma uma aparente (e enganadora) simplicidade… Aqui, menos é mais.”(3) Inspirado no romance Les jeux inconnus (1947) de François Boyer, parece ilustrar a realidade da morte e simultaneamente o mistério da vida e do amor que ela encerra, como prenuncia o mote no poster da ponte: Maîtres do Mystére.

Apresentando os créditos e introduzindo a narrativa, um livro é folheado. E a história que se seguirá é a da guerra e suas consequências. Em contraste, e como prelúdio a esse cenário, somos embalados por uma das mais doces e humanas músicas. Controvérsias de autoria à parte, a bela interpretação de Narciso Yepes resgatou-a do anonimato e tornou-a, património emocional da humanidade, passando com o filme a ser conhecida como Brincadeiras Proibidas. 

Mas, o que é afinal interdits ou inconnus? A pulsão de morte dos homens nos seus jogos letais/legitimados sobrepondo a morte à vida? Ou as brincadeiras infantis inocentes-secretas-proibidas desafiando os limites da lei – Igreja e pai? 

A morte é aqui tingida pela des-humanização da guerra entre os países (espelhado na vulgar guerrilha entre vizinhos: Dollé e Gouard) obrigando sempre a êxodos, crianças órfãs e milhões de refugiados no mundo. O filme constitui um manifesto anti-guerra, evocando as consequências traumáticas do terror sem nome e a impossibilidade de se cumprirem os rituais de despedida necessários ao trabalho do luto. Freud alertou para a insidiosa instalação da melancolia quando “a sombra do objeto recai sobre o ego”… A alternativa, seria o poder criativo e transforma-dor do pensamento bem ilustrado em Boris Cyrulnik, cujo trauma de ter escapado aos nazis perdendo com 6 anos os pais, originou o conceito de resiliência.

Qual o destino a dar ao trauma, à morte, externa e internamente? Desafiaríamos assim a esfinge: qual animal no seu desamparo essencial, depende do(s) outro(s) para se des-envolver; mais tarde, passará com autonomia a encontrar na criatividade e na cultura uma forma de elaborar os mistérios da vida; e, por fim, terá de enfrentar o derradeiro enigma – a morte.

O filme enfeitiça-nos com a força da cumplicidade do segredo e o poder da empatia entre Paulette de 5 anos e Michel de 10 anos, para a cortar abrupta e dolorosamente no final. Consola-nos a vitalidade da criatividade no cemitério-obra-de-arte, entrelaçando estética e ética num último ato humaniza-dor, forcluído pela guerra.

Paulette testemunha a morte dos pais na tentativa vã de salvar o seu cachorrinho Jock, cravando-se nela a culpabilidade. Toca o rosto da mãe morta e o seu próprio. Toca o focinho enrijecido do cachorrinho e de novo o seu rosto. Tustin, considera o quente e o frio, a resposta e a ausência, a primeira diferenciação animado-inanimado.

Vagueia com Jock-sua-parte-morta nos braços, pairando numa não-realidade, absurda e brutal. Será possível o luto do que não pode ser representado? Diz Ferenczi a respeito do mecanismo da traumatogênese: “em primeiro lugar, a paralisia completa de toda a espontaneidade, logo de todo o trabalho de pensamento, inclusive em estados semelhantes aos estados de choque, ou mesmo de coma, no domínio físico, e, depois, a instauração de uma situação nova – deslocada – de equilíbrio.”(1) O  traumático, sem representação, torna-se “sísifico”, retornando incessantemente. Pensamos nas histórias encobridoras, com o retorno do recalcado e nas histórias recobridoras, advindas da clivagem e sustentadas pelo mecanismo de recusa.(2) Há que encontrar um sentido, uma forma (Rorschach) que contenha a difusão emocional, o trauma, o irrepresentável.

A brincadeira constituirá para estas duas crianças, o espaço potencial de re-ligação à vida. Brincar é a área intermediária (Winnicott) de oscilação contínua entre a fantasia e a realidade, entre o eu e o outro, entre o exterior e o interno, na tentativa de recuperar, elaborar ou transformar o fio de ligação. Bion mostra-nos que a terceirização do compasso binário Love  (brincadeiras) vs Hate (guerra e traição) é o Knowledge, encarnado na coruja, símbolo de sabedoria e memória, cabendo-lhe guardar por 100 anos a história e a possibilidade de pensar.

Paulette, a angelical e perfumada órfã parisiense, é acolhida numa família rural (Dollé). Denunciando a assimetria dos recursos campo/cidade e em paralelo psíquico, verificamos que não basta acolher e alimentar, há que transformar o beta em alfa, em elementos capazes de serem integrados/transformados. Michel estuda, vai ao catecismo, demonstrando competências simbólicas-emocionais, mas espelha todavia a vivência de concretude, que impede a família de re-conhecer a morte. Reza a fingir, até que a morte do irmão ganhe corpo. Então, brincar à morte passa não a ser proibido, mas a ser impossível de brincar…

Desafia os limites da Igreja e do pai, para se entregar em preocupação materna primária, a cuidar de Paulette, este pequeno e encantador tesouro, não medindo esforços para lhe poupar qualquer frustração ou dor. Bebé-sábio ferencziano protege-a, protegendo-se do seu próprio desamparo.

Unidos pela cumplicidade e ternura, engendram um mundo ilusório para dar conta da tragédia, passando do passivamente vivido ao ativamente brincado (fort-da): a construção de um cemitério secreto para abrigar o cachorrinho. Espaço potencial de simbolização e elaboração perseguem, infatigáveis, o sentido da morte e seus rituais. Os mortos não devem ficar sem companhia, diz Michel e Paulette pergunta: são enterrados para não apanharem chuva?

Uma série de peripécias proibidas e coloridas tanto pela força do segredo, como pela crueldade e sadismo infantil, dão corpo à construção-elaboração-transformação de um microcosmo: imaginam num crescendo de complexidade evolutiva (filogênese), os animais que enterrariam – minhocas, cobras, lagartos, gatos, cães, vacas, cavalos, pessoas – enquanto vão enterrando pequenos animais. Roubam o símbolo religioso por excelência, profanando o cemitério, e catorze cruzes (estações da Paixão de Cristo), são distribuídas de acordo com o tamanho dos animais, amplificando a morte coletiva que é uma guerra. 

“Que Deus te receba no paraíso”, é a frase mimetizada a cada enterro ritualizando a esperança. Personalizam os túmulos – pedras, flores, caracóis, cruzes e letreiros com os nomes – do mundo mineral ao vegetal, ao animal e finalmente ao simbólico-palavra, estabelecem um verdadeiro ritual de despedida e elaboração. O cemitério está concluído e a mítica maçã sinalizando a saída do paraíso da infância é, aqui, oferecida por Michel e recusada por Paulette…

A ternura e a paixão, transversais à narrativa, não geram a habitual “confusão de línguas”… À ternura das orações-matrizes Ave Maria e Pai Nosso, ensinadas por Michel, contrapõe-se a paixão no namoro à Romeu e Julieta entre os irmãos maiores. Paulette questiona-se sobre o significado de “ventre” (curiosidade sobre o interior do corpo materno) e a irmã de Michel pede absolvição pela vida sexual.

Todo o crime terá um castigo? O fim da inocência, a ambivalência, não será vivida como o maior dos castigos? A passagem do princípio de prazer, para o princípio de realidade impõe-se e o tributo pelas brincadeiras proibidas é infligido pela traição: “Paulette é constantemente arrancada de suas figuras de apego, de seus marcos emocionais, que são absolutamente essenciais para seu crescimento. Ela é arrancada dos pais, depois do cachorro e, finalmente, da família adotiva.”(4)

O filme termina abruptamente, mas os inícios ligam-se aos fins… Um casal morre na ponte e outro reencontra-se na estação de comboio. Só então Paulette verbaliza a sua orfandade, chamando mamã e deixa-nos profundamente abalados tanto com a dor real do seu desamparo e orfandade, como com o desejo de permanecer na situação infantil de proteção e amparo.

No início Paulette chama: Michel… Michel… Michel…, tenho medo do escuro. No final, na estação de comboios, a caminho do orfanato, no escuro deste novo arrancamento, chama: Michel… Michel… Michel… Mas atribui-se o sobrenome Dollé. Deixa assim o anonimato, nomeando a esperança de um reencontro futuro e levando consigo um objeto vivo a procurar.

AUTORA 
Ana Belchior Melícias
Psicanalista. Membro Associado da Sociedade Portuguesa de Psicanálise (SPP) e da International Psychoanalytic Association (IPA). Psicanalista da Criança e do Adolescente.

REFERÊNCIAS
1. Ferenczi, S. (1992). Análise de crianças com adultos. In S. Ferenczi, Obras completas, Psicanálise 4 (pp. 69-83). São Paulo: Martins Fontes. (Trabalho original publicado em 1931),  p. 79. 
2. Inglez-MAZZARELA, T. in: Beatriz Mano (2016). O brincar impossível: luto e representação. Revista CPRJ Psicanálise e Cinema, v.4, n.4, 2016 Trauma e Luto na Criança e no Adolescente: uma visão psicanalítica, p.18.
3. Blog – http://eusoucinemapt.blogspot.com/2014/10/jeux-interdits.html
4. Avis-Gallu- Opinião sobre o filme Jeux interdits (1952) – A cada um sua própria cruz por gallu – SensCritique 02/01/2021, 18 (35).

TRAILER

FICHA TÉCNICA
Título Original — Jeux Interdits
Ano — 1957
Duração — 102′
País — França
Direção — René Clément
Argumento — Pierre Bost, Jean Aurenche e François Boyer
Produção — Robert Dorfmann
Música — Narciso Yepes
Fotografia — Robert Juillard
Edição — Roger Dwyre
Direção de Arte — Paul Bertrand
Figurino — Majo Brandley
Maquiagem — Paul Dean
Efeitos sonoros — Jacques Lebreton
Elenco — Georges Poujouly (Michel Dollé) – Brigitte Fossey (Paulette) -Amédée (Francis Gouard) – Laurence Badie (Berthe Dollé) – Suzanne Courtal (Madame Dollé) – Lucien Hubert (Dollé, o pai) – Jacques Marin (Georges Dollé) – Denise Péronne (Jeanne Gouard) – André Wasley (Gouard, o pai) – Pierre Merovée (Raymond Dollé) – Louis Saintève (Padre) – Bérnard Musson (Policial) – Madame Fossey (Mãe de Paulette) – Monsieur Fossey (Pai de Paulette)
Género — Drama / Guerra

SINOPSE
Durante a ocupação nazi, num êxodo de Paris para o campo, um comboio de pessoas é bombardeado numa ponte. Paulette (Brigitte Fossey), 5 anos, na vã tentativa de salvar o seu cachorrinho, acaba por testemunhar a morte dos seus pais e, órfã, passa a vaguear com o seu corpo nos braços. Encontra Michel (Georges Poujouly), 10 anos, e é acolhida pela sua família de camponeses. Na tentativa de restabelecer os rituais necessários ao processo de luto (não realizados com os pais de Paulette, mas devidamente cumpridos – orações, missa, funeral, enterro, flores – com o irmão de Michel que entretanto morre) e compreender o significado da morte, lançam-se ambos, em segredo, na construção de um cemitério num moinho abandonado para abrigar o cachorrinho Jock.