A GRAVIDADE DA FALTA DE GRAVIDADE — Gravidade (2013)

— Ana Belchior Melícias

É de intensa gravidade emocional o clima de suspense que pesa sobre nós durante todo o filme, passado num universo estranho e francamente hostil à espécie humana, justamente e paradoxalmente pela falta da gravidade física que rege a vida no nosso planeta. A gravidade da falta de gravidade. A insustentável leveza do ser… Estamos imersos no universo. “A 600 kilómetros da Terra, sem nada que transporte o som, sem pressão do ar, sem oxigénio.” Pairamos na imensidão espacial, ouvimos o silêncio ensurdecedor, movimentamo-nos ora nadando, ora voando, ora flutuando, ora rodopiando, desarticulados em coreografias primordiais.

Profundamente desamparados.
Aterrorizadoramente sozinhos.

E como uma espécie de meta-cenário, lá longe e sempre presente, a Terra. Aquela de que Caetano Veloso viu pela primeira vez uma fotografia quando se encontrava preso na cela de uma cadeia e, para a homenagear, gravou em 1978 um hino: “Terra! Terra! / Por mais distante / O errante navegante / Quem jamais te esqueceria?”

É esta a paisagem do cosmo retratado no filme Gravidade de Alfonso Cuarón que tem agradado, como raras vezes acontece, simultaneamente ao público e aos críticos. Espanta pela belíssima fotografia de Emmanuel Lubezki (A Árvore da Vida) e pela atuação espantosa de Sandra Bullock e George Clooney. E tem despertado estimulantes debates com a comunidade científica sobre exatidão/realidade e imprecisão/ficção.

Sabemos que qualquer produção cultural do homem foi e, incontornavelmente passou a ser depois de Freud, uma metáfora, uma mitologia, um sonho, uma ficção, como aliás reconhece Alfonso Cuáron: “Tentámos ser tão precisos quanto podíamos, no âmbito da nossa ficção. No final, é ficção e uma viagem emocional mais do que qualquer outra coisa.” Metáfora precisa da aventura do Homem e da própria psicanálise. Viagem da existência, retratando a nossa angústia mais profunda – o desamparo. Viagem emocional ao mundo interior, com as suas leis e geografia próprias.

Gravidade é uma celebração da vida. Tanto mais vida, quanto mais a morte por ali anda, lado a lado, pairando sofregamente à espreita. Uma homenagem à nossa fragilidade e à nossa dependência. Uma homenagem às fronteiras atuais: as profundezas do oceano e o espaço galático. Espaço esse de um significado espiritual e filosófico arquetípico e de uma beleza estonteante, que se transforma num angustiante pesadelo.

Dois astronautas, Ryan Stone (Bullock), na sua primeira missão espacial, e Matt Kowalsky (Clooney), veterano na sua última missão, ficam à deriva, isolados na aterrorizante vastidão do espaço do infinito universo-multiverso-pluriverso, quando a nave espacial é atingida por uma sucessiva chuva de destroços e lixo espacial. Ligados um ao outro apenas por um cabo, com reserva limitada de oxigénio e sem comunicação com a Terra, encontram-se entregues a si próprios, à sua capacidade de pensar e de encontrar uma eventual solução de retorno, uma vez que não há qualquer chance de resgate.

Segundo Alexandre Cherman (astrônomo, Rio de Janeiro), “ficar em órbita é estar em queda-livre perpétua.”(3) Quando Ryan se solta no espaço, “entra literalmente em órbita”… e Matt pede-lhe: “Dê-me um ponto de referência, o Explorer, a estação espacial, a posição do sol, a Terra… Preciso de coordenadas.” Ela: “Não há nada, não vejo nada, não consigo respirar.” O suspense é capaz de tirar o fôlego aos mais musculados cinéfilos, e mesmo sendo pouco sensível a filmes de ação, fiquei aprisionada pela intensidade do impacto emocional. E gradualmente, vários fios se entrecruzaram entre a viagem lá fora no espaço sideral e a viagem cá dentro, no mundo inconsciente, tão infinito como o espacial, tão enigmaticamente belo e por vezes tão pesadélico também.

O enredo é uma metáfora perfeita do nosso desejo insaciável de conhecimento de exploração e ampliação da nossa visão do mundo. Os astronautas têm como missão consertar o telescópio Hubble, justamente para ampliar a possibilidade de visão e de estudo do cosmo. Também uma psicanálise nada mais é do que expansão afetiva da visão do nosso cosmo interior. Pedido que nos é feito, manifestamente ou não, pelo analisando, para com ele nos aventurarmos e alargarmos a possibilidade de pensar, de encontrar soluções, de fazer prevalecer eros sobre thanatos, de nos ligarmos de forma criativa aos nossos bons objetos introjetados e, consequentemente, à vida. E essa visão só pode ser alcançada, se estivermos em contato com a nossa fragilidade e dependência. É esta que nos permite encontrar os caminhos para alcançar as profundezas oceânicas, os confins do cosmo ou a verdade e a beleza do inconsciente, suportando paralelamente os mistérios e os enigmas do universo e da vida.

“Você devia ver o sol no Ganges. É fantástico”, diz Matt a Ryan, de um lugar afastado no vazio a caminho da própria morte, evocando em poucas palavras a maravilha da vida na Terra. Rio das nossas origens indo-europeias, rio sagrado, rio da vida e rio da morte, onde os corpos navegam na sua última viagem.

Através de todas as peripécias dessa jornada, a do filme como a da psicanálise, estamos em contato com a vida e a morte, a terra e o espaço, a solidão e a companhia, o homem e a mulher, o passado e o presente, o tempo e o infinito, a ficção e a ciência, a fantasia e a realidade, mas acima de tudo, com a nossa dependência, da mãe–terra, das relações afetivas que nos sustentam, da estética da emocionalidade integrada ao pensamento.

Quando os dois astronautas se têm de soltar um do outro, Ryan ficando para lutar pela vida, Matt partindo à deriva para a morte, este último pergunta: “Onde é a sua casa, Dra. Stone?”, e ela: “Lake Zurich, Illinois”. “Existe alguém lá em baixo olhando para cima e pensando em você?” ao que Ryan responde: “Eu tive uma filha. Uma garotinha de cabelo castanho. Diga-lhe que não vou desistir.”

Mas, quando finalmente se encontra sozinha, terrorificamente sozinha, no desamparo mais primordial, decide desligar o oxigénio e morrer, reencontrando assim a sua filha, cujo luto ainda ecoa poderosamente no seu presente. Numa transmissão de rádio, embala-se com o canto de um inuit da Groenlândia a embalar o seu bebé e “sonha” que Matt lhe aparece, eroticamente, ou seja, cheio de vida e humor, ajudando-a a não desistir de lutar. O ritmo e a voz humana que nos liga afetivamente nos primórdios da vida e o mundo onírico, que é afinal essa viagem para dentro perpetuando a vida noite adentro, permitem que Ryan consiga resistir ao embalo da morte (luto da filha) e reabra o oxigénio, inspirando a vida e com ela, claro, a luta…

Há quase 20 anos atendi uma menina, Gaia de 7 anos, que conhecia “avant la lettre” e profundamente a experiência emocional do filme de Cuarón. Na primeira consulta, mergulhada no espaço onírico do seu inconsciente, ilustra com um desenho, o seu pesadelo de abandono e desamparo. Sozinha, solta no universo, sem limites, sem terra à vista, sem ser contida. A infinitude do espaço, o terror de “entrar em órbita” caso venha a ser cortado o “cordão umbilical” exterior sem ter ainda construído com segurança o interior.

Através do seu desenho, claro que Gaia narra a sua história familiar, a que está minimamente ligada, mas onde sempre se sentiu a vaguear perdida e com pouca clareza do lugar que ocupa. Claro que conta do seu mundo de objetos internos, que pairam numa lógica pouco habitável, desejando e retirando-se, com a sua roupa astronáutica-protetora, de um contato relacional mais pele a pele. E claro que fala de uma nave-mãe-analista, que ela procura e à qual até já se sente ligada por um tubo-comunicação (sala-materiais-conversa-desenho), mas que ainda desconhece, contando: “É um astronauta. O tubo é para respirar. Está ligado à nave especial.” Especial, diz, em vez de espacial.

No astronauta de Gaia, há um sorriso com dentes, revelando sinais vitais de contato afetivo (amoroso-destrutivo). Há um fato que a protege e nos dá conta da sua capacidade de sobreviver num ambiente inóspito. Há um tubo-cordão-umbilical, como afirmação da consciência da dependência. E há uma nave “especial”, atestando que para sobreviver precisamos do nosso planeta-matriz-terra. Sobrevivemos psiquicamente, pela maneira como estamos ligados internamente à nossa estação “especial”, que será em termos planetários a mãe-terra e em termos psíquicos as matrizes-mãe-pai, a nossa origem, cujos mistérios gravitamos toda a vida.

No final do filme, no seu regresso ao planeta-casa, a cápsula de Ryan mergulha num lago – cena primitiva – do qual ela sai, nadando, arrastando-se pela lama, engatinhando, para finalmente se levantar e se encontrar com a Terra, numa bela representação da filogénese/ontogénese, tema tão caro a Freud. Bela representação da necessária atualização do re-nascimento e da reconciliação com a vida. Também Gaia, através do seu percurso analítico, conseguiu voltar do espaço e aterrar no seu mundo interior para então, usufruir melhor as relações com a sua família e com a escola, espaço de conhecimento e de expansão.

AUTORA 
Ana Belchior Melícias
Psicanalista. Membro Associado da Sociedade Portuguesa de Psicanálise (SPP) e da International Psychoanalytic Association (IPA). Psicanalista da Criança e do Adolescente. Formadora do Método Bick.
E-mail — ana.melicias@gmail.com

REFERÊNCIAS
1. Melícias, A. B. (2014). Recensão Filme Gravidade. Revista Portuguesa de Psicanálise, 34 (1), 74-76.
2. Melícias, A. B. (2017). A gravidade da falta de gravidade: reflexão clínica. JORNAL de PSICANÁLISE 50 (92), 223-0. 2017
3. Rosa, G. (2013). Gravidade: a ciência por trás do filme. https://veja.abril.com.br/ciencia/gravidade-a-ciencia-por-tras-do-filme/
4. Scott, A. O. (2013). Between Earth and Heaven. https://www.nytimes.com/2013/10/04/movies/gravity-stars-sandra-bullock-and-george-clooney.html

TRAILER

FICHA TÉCNICA
Título original — Gravity
Ano — 2013
Duração — 91 min
País — EUA, UK
Direção — Alfonso Cuarón
Argumento — Alfonso Cuarón e Jonás Cuarón
Produção — David Heyman e Alfonso Cuarón
Fotografia —Emmanuel Lubezki
Música — Steven Price
Edição — Alfonso Cuarón e Mark Sanger
Direção de arte — Andy Nicholson
Figurino — Jany Tamine
Elenco — Sandra Bullock (Ryan Stone) – George Clooney (Matt Kowalski) – Ed Harris (voz controle da missão)
Género — Ficção Científica – Aventura

SINOPSE
O astronauta veterano Matt Kowalski (George Clooney) no seu último vôo antes de se reformar, e a engenheira Dr. Ryan Stone (Sandra Bullock) na sua primeira missão, vão consertar o telescópio Hubble, quando a nave espacial em que viajavam é atingida por uma sucessiva chuva de destroços e lixo espacial. Acabam por ficar no espaço sideral à deriva, sem apoio terrestre e sem esperança de resgate. Enquanto tentam sobreviver, buscam soluções para retornar.