DES-ENCANTAMENTOS — Labirinto do Fauno (2006)

— Elsa Couchinho —

De onde emana o poder encantatório dos contos de fadas?

Diego Klautan (1) elabora sobre as ligações entre a filosofia e o ensaio de Tolkien sobre o tema, localizando estes contos num mundo intermediário entre o mundo dos sentidos e o das ideias. Um lugar que corresponderia à dimensão intangível do Real (Platão) que não é acessível nem pelos sentidos nem pelas ideias.

Tolkien encontra um fio de continuidade entre os contos de fadas e a filosofia pagã que provém dos mitos: produzem assombro e maravilhamento, encaminhando-nos para um exercício de contemplação que responde ao nosso desejo de explorar os confins do tempo e do espaço, para além do mundo comum. Através da imaginação produzem a magia que toca os desejos do corpo e do coração dos homens.

É com essa magia que Guillermo del Toro nos conduz ao longo do Labirinto do Fauno, criando um espaço intermediário com ligações permanentes entre a realidade e a fantasia, entrelaçando consciente e inconsciente, o mundo de Ofélia e o mundo à sua volta. Labirinto dos enigmas da vida e da morte, confrontando-nos diversas vezes com experiências de estranheza/”uncanny”, de crueldade, de destrutividade e do potencial criativo dos homens.

Parece muito distante esse “mundo sem mentira e sem dor”, a infância idealizada de Ofélia (Ivana Baquero), o reino do bebé no espaço de ilusão (Winnicott) ou do lugar de princesa do pai (Édipo). Um espaço de ilusão e fantasia a ser desbastado paulatinamente ao longo do desenvolvimento infantil e que, também progressivamente, trará as desidealizações das figuras parentais. 

O reino de Ofélia parece ter colapsado com a morte do pai, a fragmentação da família, a indisponibilidade materna e a intrusão de um estranho (padrasto). Um colapso abrupto, qual luz que cega a princesa na saída do reino encantador, porém a esperança do regresso prevalece na procura  dos portais deixados pelo pai que a aguarda ou confiando que existe um caminho através da montanha rodeada de espinhos até à rosa azul/ mãe.

Também a Espanha republicana que sonhava com progresso social e político, colapsa abruptamente, fracturando-se no fratricídio da Guerra Civil seguida da ascensão do fascismo de Franco. O sonho de progresso (rosa azul) parece agora inacessível, embora alguns (a resistência) teimem em fazer o percurso da espinhosa montanha.

Ofélia encontra o olho em falta na estátua de pedra do caminho. Terá de olhar a realidade da saída da relação exclusiva com a mãe, a existência de uma nova família que inclui um padastro, um novo bebé e uma nova casa. Guiada por um gafanhoto-fada, encontrará refúgio na construção de um “Romance Familiar” (2) que lhe permite manter um vínculo aos pais idealizados e um lugar de princesa para si própria.

O Fauno (Doug Jones) é o senhor do Labirinto, essa figura da mitologia romana, detentora de poderes oraculares, duplamente humana e selvagem, a quem cabe a intermediação entre os instintos e os deuses. 

O Labirinto do Fauno aparece-nos como uma síntese da busca de sentido/saber: poder estar perdido (capacidade negativa), passar provas (tolerância à dor mental) e mediação da vida pulsional (conhecimento – K). O caminho é absolutamente subjectivo, um livro em branco preenchido quando se está só, através da imaginação.

A primeira prova de Ofélia (reconhecimento dos ataques inconscientes e movimento de reparação) é devolver vida a uma árvore dentro da qual habita um monstruoso sapo. O interior do corpo materno e seus bebés (flores) destruído pelos ataques invejosos da pequena Ofélia? Metáfora de uma Espanha devorada por criaturas repulsivas (fascistas)?

Ofélia devolve vida à árvore, na rádio ouvem-se notícias do desembarque na distante Normandia… tão distante. As acções dos homens fazem correr por toda a Europa um novo tempo de liberdade e esperança. 

Esse tempo não corre ali. Prisioneiro do relógio/herança do pai, parado na exacta hora da sua morte numa das campanhas colonialistas, ao capitão (Sergi López) resta-lhe ser um prolongamento narcísico da figura paterna, não um sujeito com identidade própria.

A malignidade e omnipotência narcísicas são cruamente expostas desde o primeiro momento, no trato duro e frio para com Ofélia. Mas veremos ainda a indiferença ao desejo da mulher, mantendo-a incapaz e dependente, sendo tão só a portadora do seu filho, relativamente ao qual não tem dúvidas de que é um varão tal como o pai, e que poderá facilmente ser sacrificada em função deste. No sadismo com que executa sumariamente os camponeses e lhes come os coelhos no banquete. Nos seus requintes de torturador.

À volta da mesa do capitão reúnem-se as restantes figuras sinistras que sustentam o terror. A mesa é farta, à custa de um celeiro abastado vedado a todos os outros.

Ofélia entrará também num banquete, numa corrida contra o tempo. Será a segunda prova, a da capacidade egóica para resistir à voracidade? Não resistindo desperta o monstro destruidor, pesadelo do qual conseguirá escapar com o giz da omnipotência infantil.

A terceira prova de Ofélia será a do super-ego, a possibilidade de fazer uma escolha moral. Este é o fio condutor de todo o filme: as escolhas dos homens e as motivações que as forjam.

Os homens que resistem nas montanhas, os camponeses que partilham com eles os seus víveres e transportam de volta palavras de esperança, Mercedes que na sua “invisibilidade” esconde uma coragem determinada abrindo o celeiro e protegendo as crianças, o médico que faz chegar os medicamentos a quem deles precisa e se recusa a fazer parte da engrenagem da tortura: “obedecer por obedecer, só o fazem as pessoas como o capitão”.

Ofélia escolhe preservar o irmão desobedecendo ao Fauno, sacrifica o seu desejo idealizado em função de um bem maior e de um bem real: a vida frágil, indefesa e dependente do seu irmão. Cumpre o destino do seu nome (Ofélia, em Hamlet), a sua escolha traz finalmente a chegada ao reino encantador da reunião com os pais. “Dizem que a princesa reinou com justiça e que ficaram flores da sua passagem no mundo, visíveis para quem conseguir ver…”

Nascida das mudanças sociais e políticas do final da 1ª G.G.M., a Geração 27 é um marco na produção artística de vanguarda naquela época, a sua criatividade transportava as vozes de protesto social, desejo de liberdade e progresso, abafada pelo avanço do fascismo, desagregar-se-à após o assassinato de García Lorca (3) em 1936, mas ficaram marcos da sua passagem pelo mundo:

REPLICA

“Un pájaro tan solo
canta
El aire multiplica.
Oímos por espejos.”

AUTORA 
Elsa Couchinho
Psicanalista. Membro Associado da Sociedade Portuguesa de Psicanálise (SPP) e da International Psychoanalytic Association (IPA). Psicanalista da Criança e do Adolescente.

REFERÊNCIAS
(1) Diego Klautau (2021) https://estadodaarte.estadao.com.br/estorias-fadas-tolkien-klautau/?fbclid=IwAR0x6YltZJgMFpwzTiY3CoEs2kRd8g-ljKHW0CVEJXLhhFIGOKBepVu615M
(2) Freud, S. (1909). O Romance Familiar dos Neuróticos. Sigmund Freud Obras Completas. Vol. 8. Companhia das Letras. São Paulo. 2015. pp.419-423.
(3) Lorca, F.G. Poesia, 1 Libro. Akal. Madrid: 1989. pp. 396.

TRAILER

FICHA TÉCNICA
Título Original — El laberinto del fauno
Ano — 2006
Duração — 119′
País — Espanha, México e E.U.A
Direcção — Guillermo del Toro
Produção — Guillermo del Toro
Música — Javier Navarrete
Fotografia — Guillermo Navarro
Edição — Bernat Villaplana
Direcção de Arte — Eugenio Caballero, Pilar Revuelta
Figurino — Lala Huete
Maquilhagem — David Martí, Montse Ribé, José Quetglas, Blanca Sánchez
Efeitos Sonoros — Martin Hernández, Jaime Baksht, Miguel Ángel Polo
Elenco — Ivana Baquero, Doug Jones, Sergi López, Maribel Verdú, Ariadna Gil, Alex Angulo
Efeitos Especiais — David Martí, Montse Ribé, Reyes Abades, Everett Burrell, Edward Irastorza, Emilio Ruiz
Gênero — Fantasia, Drama

SINOPSE
Nas montanhas remotas um grupo de rebeldes persiste no combate ao franquismo, defrontando um tenebroso capitão que será também o padrasto de Ofélia. Num universo de encantamento e horror, a pequena Ofélia experiência as dores das perdas e do crescimento com a ajuda inestimável  da sua capacidade para continuar a fantasiar.