O ENIGMA DAS ORIGENS — Incêndios (2010)


— Pedro Salem —

A morte nunca é o fim de uma história.
Sempre ficam traços.

Notário Lebel (personagem do filme)

Incêndios, dirigido por Denis Villeneuve e adaptado de uma peça do libanês Wajdi Mouawad, retrata uma história passada entre o Canadá e um país do Oriente Médio, não definido no filme. Referências indicam que se trataria do Líbano, em meio às consequências de uma guerra civil transcorrida entre 1975 e 1990. Contudo, a construção de cidades e locais fictícios, bem como a ocultação de nomes ou fatos históricos reconhecíveis procuram desvincular o filme de indícios factuais. Villeneuve (6) procurou “inscrever o filme num território imaginário”, despojando-o “de toda tomada de posição política”. Leva em conta, portanto, a complexidade do tema evitando pôr os pés em um “campo histórico minado” ao orientar o olhar do público em outra direção, buscando preservar a liberdade de suas cadeias associativas.

O filme retrata os esforços despendidos por um casal de gêmeos para responder aos desejos testamentários de sua mãe. Por intermédio de um notário para quem a mãe, Nawal Marwan, trabalhara, os gêmeos Jeanne e Simon recebem uma curiosa incumbência: entregar uma carta ao pai que acreditavam morto e outra a um irmão cuja existência até então desconheciam. Descobrem, nesse momento post-mortem, o quão rarefeitas eram as informações que detinham sobre a história de sua mãe e, consequentemente, sobre a deles mesmos. O enigma e a convocação para seu desvelamento, conforme o próprio desejo materno, se tornam a condição para que ela tenha acesso a um enterro comum, com direito a um caixão, lápide e orações correspondentes. Caso a missão conferida aos filhos não se realizasse, Nawal pedia para ser enterrada nua, face voltada para o solo, sem seu nome gravado em lugar algum. “Sem epitáfio para aqueles que não cumprem suas promessas”, ditara ela. Contudo, executada a missão, “o silêncio será quebrado, uma promessa será cumprida”.

Sua realização configura, portanto, o requisito para que Nawal tenha sua humanidade restaurada, para que seja merecedora dos rituais que permitem aos mortos terem sua lembrança preservada junto aos vivos e para que tenham, enfim, seu pressuposto merecido descanso. “Jeanne e Simon”, a mãe ainda alerta no testamento, “a infância é uma faca enterrada na garganta. Não pode ser removida facilmente.” Nawal anuncia, desse modo, o esforço subjetivo implicado na busca que foram convocados a empreender.

Parte do filme transcorre em um cenário de guerra civil. Cristãos e muçulmanos atacando-se mutuamente e perpetrando um cenário de ressentimento e ódio que atravessa o filme e confere sentidos deletérios aos acontecimentos individuais dos personagens.

No auge de sua juventude, Nawal, oriunda de família cristã, engravida de um refugiado muçulmano por quem se apaixonara. Ciente da incompatibilidade de sua escolha amorosa com a permanência no seio familiar, pretende fugir com o amante quando este é brutalmente assassinado pelos irmãos dela. Poupada da morte e acolhida pela avó, Nawal mancha a própria honra e das gerações subsequentes de sua família, tornando-se um pária, a quem não resta senão a opção de exilar-se na casa distante de um tio, para onde vai estudar após o nascimento de seu filho. O recém-nascido, marcado com uma tatuagem no calcanhar, para que possa ser futuramente reconhecido pela mãe, é afastado dela e encaminhado para um orfanato no Sul do país. Obrigada a deixar seu vilarejo natal, Nawal parte enunciando a promessa de reencontrá-lo um dia, sem qualquer condição de antecipar as graves circunstâncias em que o reconhecimento de seu filho se daria.

Freud (3) em uma carta a Einstein datada de 1932, procurava responder a uma indagação do físico: Por que a guerra? Seria possível livrar os homens de tão terrível mal? Recordando ao leitor sua concepção do funcionamento psíquico como orientado para a satisfação pulsional – cujo excesso deveria poder ser domado pelo processo civilizador – Freud ressalta que a violência também parece se orientar por uma inclinação pulsional. Em um dos raros momentos em que Freud abandona o caráter abstrato da pulsão de morte, normalmente tratada como um conceito cuja tradução fenomenológica inspira seus maiores cuidados, nessa carta ele explicitamente a invoca para entender o recurso humano à violência, ao ódio e o apreço pela morte do inimigo: ainda que a humanidade tenha evoluído em sua capacidade de contornar o uso da violência como modo privilegiado para a resolução de conflitos, as guerras sempre existiram e não podem ser evitadas. Concordando com a intuição de Einstein, lembra que é fácil mover os homens para a guerra, pois existe “alguma coisa neles, um instinto de ódio e destruição que favorece aquele incitamento” (p.426). Em tempos de guerra, a tênue capacidade humana de desviar tendências agressivas para outros fins encontra-se, ainda segundo Freud, fortemente abalada.

Em outro texto em que trata da guerra, escrito aproximadamente duas décadas antes desta carta e com a qual bem dialoga, Freud (2) já afirmara que em tempos mais tranquilos, maior seria a capacidade humana de renunciar às suas inclinações pulsionais. Em tempos de guerra, contudo, “é como se todas as conquistas morais do indivíduo se apagassem (…) e restassem apenas as atitudes mais primitivas, mais antigas e cruas” (p.229). Quando da escrita deste artigo, em meio à Primeira Guerra Mundial e pouco antes da elaboração do seu dualismo pulsional (Eros x Thanatos), Freud se indaga sobre o enigmático motivo do ódio entre povos e indivíduos. Curiosamente, ele confessa: “não sei o que dizer sobre isso”.

Com efeito, Incêndios inevitavelmente nos conduz a essas reflexões. Por meio de cenas e relatos brutais, como a menção e a exibição de chacinas e assassinatos, Villeneuve habilmente nos impõe uma intimidade com a corrente de ódio cujos efeitos sombrios acompanhamos no decorrer do filme. Ele nos leva a refletir sobre a condição humana sem ilusões: somos, de fato, capazes de cunhar e disseminar o mal ao próximo com enorme crueldade. Freud (3) apesar do seu pessimismo, sugere que contra os efeitos da pulsão de destruição nos restaria tão somente o recurso ao seu antagonista: Eros. Em suas palavras, “tudo o que produz laços emocionais entre as pessoas tem efeito contrário à guerra” (p.430). Tudo aquilo que tende a conservar, ligar e unir, responde aos anseios eróticos da pulsão de vida, permitindo remediar parcialmente os desmandos da pulsão de morte.

Nawal, numa espécie de intuição sobre tais considerações, afirma em cartas reveladas ao final do filme que “nada é mais belo do que estar juntos”. Reconhecendo em sua própria história os danos inelutáveis causados pela violência e pelo ressentimento, Nawal sedimenta uma promessa cuja realização depende da entrega pessoal de seus filhos: romper a corrente de ódio que norteara o curso de sua vida.

Mas porque incitar os filhos a experiências tão dolorosas? Não poderia Nawal simplesmente ter-lhes contado a verdade a respeito de suas origens, descrito as vicissitudes de sua vida, fazendo-os assim reconhecer as motivações implicadas em suas escolhas? Sabemos, em psicanálise, que a distância entre o conhecimento racional de um fato e sua descoberta pela trilha da experiência é normalmente extensa. Suponho que o mesmo ocorrera a Nawal: contar-lhes sua experiência de vida em nada se equipararia a deixá-los descobri-la por si mesmos, com as alegrias e as dores inevitáveis do caminho à verdade pessoal. Somente desse modo seriam seus filhos capazes de integrar suas histórias silenciadas e, consequentemente, cumprir a promessa materna.

O recuo à descoberta da própria história foi tratado por Otto Rank (4) em O mito do nascimento do herói. Por sugestão de Freud, Rank, seguido por Campbell (1), exploraram narrativas transculturais que compõem uma espécie de jornada cíclica, como um itinerário simbólico transformador em direção ao conhecimento da própria origem. A jornada de Jeanne e Simon pode ser examinada à luz de elementos comuns ao mito do herói (5), composto pela aventura solitária em direção a um enigma que lhe é proposto.

Como diz Nawal na carta destinada ao seu maior algoz, o torturador Abou Tarek (que guarda um importante mistério a ser revelado): “para todo mundo o silêncio vem antes da verdade”. Ou, como profetiza o professor/mentor de Jeanne quando ela hesita diante da “missão” legada por sua mãe: “Você precisa descobrir, ou seu espírito jamais ficará em paz”.

Caberia então aos filhos a dívida ou a dádiva da escolha: silenciar os fatos ou empreender uma jornada em busca da verdade; compreender sua própria história como oriunda de um ato de amor ou de ódio. Vale lembrar que Freud (2) recorre ao conceito de ambivalência afetiva para explicar a inclinação humana às guerras – afirmando que não se trata de amor ou de ódio, mas sim da simultaneidade desses sentimentos. Na carta final endereçada aos filhos, Nawal indaga: “Meus amores. Onde começa a sua história? Com seu nascimento? Se assim for, ela começa com horror. Com o nascimento de seu pai? Se for assim, ela começa com uma grande história de amor”. Nawal oferece aos filhos a oportunidade de empreender uma busca em direção às suas origens, legando-lhes a possibilidade de ressignificar seus traços identificatórios mais primitivos; as marcas de onde vieram e que, consequentemente, determinam para onde vão.

Sugiro aos leitores que assistam a Incêndios e se deixem levar pela envolvente descoberta desse enigma que permanece, aqui, ainda por ser revelado…

AUTOR
Pedro Salem
Membro em Formação na Sociedade Portuguesa de Psicanálise \ Membro do Círculo Psicanalítico do Rio de Janeiro
E-mail: salempedro@gmail.com

REFERÊNCIAS
1. Campbell, J. (1995). O Herói de mil faces. São Paulo: Pensamento.
2. Freud, S. (1915). Considerações atuais sobre a guerra e a morte. São Paulo: Companhia das Letras, 2013. (Obras Completas de Sigmund Freud, vol. 11).
3. Freud, S. (1932). Por que a guerra? (Carta a Einstein). São Paulo: Companhia das Letras, 2013. (Obras Completas de Sigmund Freud, vol. 18).
4. Rank, O. (1909). The Mith of the Birth of the Hero. Baltimore: John Hopkins University, 2004.
5. Salem, P. (2015). Sobre Incêndios. Revista de Psicanálise e Cinema: impasses e mutações na contemporaneidade. Vol.3, n.3, Círculo Psicanalítico do Rio de Janeiro – CPRJ, pp.105-114, 2015.
6. Entrevista com Denis Villeneuve. Dossier de presse (2010). https://medias.unifrance.org/medias/161/188/48289/presse/incendies-dossier-de-presse-francais.pdf

TRAILER

FICHA TÉCNICA
Título original — Incendies
Título inglês — Fires
Ano — 2010
Duração — 131′
País — Canadá
Direção — Denis Villeneuve
Argumento — Denis Villeneuve, Wajdi Mouawad, Valérie Beaugrand-Champagne
Produção — Luc Déry, Anthony Doncque
Fotografia — André Turpin
Música — Grégoire Hetzel
Edição — Monique Dartonne
Figurino — Sophie Lefebvre
Maquiagem — Kathryn Casault
Elenco — Mustafa Kamel, Hussein Sami, Rémy Girard, Melissa Désormeaux-Poulin, Maxim Gaudette, Lubna Azabal, Dominique Brian

SINOPSE
Canadá. Jeanne (Mélissa Désormeaux-Poulin) e Simon (Marwan Maxim) são irmãos gêmeos e acabaram de perder a mãe, Nawal Marwan (Lubna Azabal). Eles vão ao escritório do notário Jean Lebel (Rémy Girard) para saber do testamento deixado por ela. No documento, Nawal pede que seja enterrada sem caixão, nua e de costas, sem que haja qualquer lápide em seu túmulo. Ela deixa também dois envelopes, um a ser entregue ao pai dos gêmeos e outro para o irmão deles. Apenas após a entrega de ambos é que Jeanne e Simon receberão um envelope endereçado a eles e será possível colocar uma lápide. Só que Jeanne e Simon nada sabem sobre a existência de um irmão e acreditavam que seu pai estava morto. É o início de uma jornada em busca do passado da mãe, que os leva até ao Oriente Médio.