CRÔNICA DE UM FRACASSO — Transtorno Explosivo (2019)


— Maria Thereza de Barros França —

System Sprenger, ou System Crasher (inglês), significa “destruidor de sistema”. Termo utilizado no sistema de cuidados alemão para descrever crianças e jovens para os quais existe dificuldade em se obter ajuda adequada para seus problemas comportamentais, dificilmente integrados em instituições sociais de apoio, experimentando sucessivos rompimentos.

O termo é controverso, pois o problema é extremamente complexo e esbarra no desamparo das instituições sociais.

Menno Baumann (1) aceita seu uso desde que não relacionado a um traço de personalidade e sim a questões dos sistemas sociais: “São clientes de alto risco que se encontram em uma espiral negativa de interação com o sistema de ajuda, instituições educacionais e sociedade, caracterizada por rupturas, que contribuem ativamente a moldar comportamentos percebidos como difíceis.”

Ao referir-se a clientes (e não doentes) retira o peso da responsabilidade destas crianças e jovens, em cujos antecedentes encontram-se relatos de privações, hospitalismo ou mesmo violência.

Winnicott aprofundou-se no estudo das privações ambientais como porta de entrada para a delinquência.

Spitz relata a morte de bebês adequadamente cuidados, mas que careciam da mãe ou substituto para cuidar dos seus impulsos destrutivos.

Joshua Durban dedica-se à prevenção do abuso infantil e destaca que muitas vezes pais abusadores foram crianças abusadas.

Ou seja, a psicanálise preocupa-se em estudar, cuidar e prevenir este tipo de sofrimento.

A palavra sprenger pode ser traduzida por sprinkler, um sistema hidráulico automaticamente ativado por sensor para apagar incêndios.

No caso de Benni (“nome que parece de menino”), 9 anos e 9 meses, o impacto de sucessivas frustrações automaticamente aciona sua raiva, descarregada de forma violenta sobre adultos, crianças e objetos próximos, ou em si mesma. As descargas são representadas pelo pink-neon que tinge a tela, seguido de azul claro, cor dos olhos da mãe, que contrasta com o branco com que ela – mãe – (re)veste suas dificuldades emocionais.

As relações que estabelece são voláteis: além da dificuldade com empregos, os filhos acabam por não conviver com os pais.

Antonino Ferro sugere que quando ouvimos um relato ou um sonho de um paciente, é interessante o exercício de transformá-lo em outro tipo de narrativa, como por exemplo num filme.

Aqui estamos às voltas com um filme e a tentação é transformar a protagonista num caso clínico. Pretendo apresentar meu olhar atento à garota que conheci no filme e que ganhou a força de uma pessoa real!

No trabalho analítico, a observação do impacto emocional que o paciente provoca em nós é fundamental. Pensei então em relatar como o filme foi me afetando.

Nas várias vezes a que assisti ao filme, percebi o quanto minha capacidade de observação sofreu influência das minhas “fantasias de salvação” (nos dizeres de Micha) de Benni na primeira vez em que o vi. A tensão constante, ao mesclar esperança e desalento tomou conta de mim. Posteriormente muitos detalhes geradores de significados me saltaram aos olhos:
— máquina de lavar roupa quebrada e o processo de retirada de sujeiras inativo
— cesto de roupa utilizado por Benni como berço
— a moldura com foto de família totalmente embaçada
— álbuns capazes de conter registros de experiências, ao passo que o registro interno de boas experiências era falho
— as cores fortes dos casacos de Benni, destacando o predomínio da sensorialidade sobre a capacidade simbólica
— o cachorro do leiteiro que não é bravo “só está fazendo seu serviço”, tal como Benni é menos destruidora e mais destruída
— a irmãzinha assobiando feliz no carrinho rumo à lanchonete
— as corujas da torre (estampada na camiseta de Benni, pendurada na parede de seu quarto) que buscam abrigo em igrejas, ou no forro da cabana de Micha, quando Benni pergunta a ele se “elas não se sentem presas?”


Impossível não empatizar com Benni, acompanhá-la na montanha russa de emoções que a pequena atriz tão bem expressa.

São explosões de alegria, de raiva, enxurradas de golpes, gritos, palavrões, arrotos, pasta de dentes. Mas também imersão em lençóis aconchegantes com o dragão/bichinho de pelúcia.

Encharcamo-nos de urina, de sangue e terror, chafurdamos na lama e estrume de vaca, mergulhamos na adoração ao fogo tranquilizante, dançamos freneticamente ao som de músicas ensurdecedoras. Debatemo-nos em desespero e derramamos lágrimas frente à resposta muda do eco ao clamar por “mamã, mamã!”. E culmina com o amargor que impregna nossas almas com o desfecho do filme.

É dessa forma que captamos a comunicação de vivências primitivas, expressas sem palavras, ao sentir em nossas peles o que o outro sente. O filme é magistral nesse sentido!

Há momentos em que ao ouvirmos: “Fora daqui!” somos capazes de escutar “Socorro!”

Gianna Williams (2) refere que criança privilegiada é aquela que tem abundância emocional – não a material – e que a “ausência da generosidade da presença” se observa nas privações.

Em vez da visita da mãe, em seu 10º aniversário, Benni recebe dela um celular. O risco atual de oferecer às crianças uma tela em lugar da nossa presença afetiva. Já o colarzinho, feito pela mãe e pela irmãzinha, tem uma qualidade afetiva de símbolo de presença.

Muitos circulam pela vida de Benni, há aqueles que se irritam com ela e recebem em troca uma poça de urina, há os que se compadecem, como Sylvia, uma possível mãe adotiva, que diz que Benni ganhou seu coração (mas em outro momento do filme terá seu coração partido por ela). A Sra. Bafané, incansável no investimento afetivo em Benni, na busca por um lar estável, para que pudesse receber “tratamento de trauma”.

O que dizer do carinho e firmeza de Micha (um ex-adolescente raivoso), abalado em seu papel profissional pelo profundo envolvimento emocional com Benni? Tomado por raiva, aperta suas mãos uma contra a outra, controlando seu impulso agressivo. Sensível, deixa-se tocar pelo desejo de Benni de que pudesse tornar-se seu pai.

Entretanto a presença do amor é frágil na vida de Benni para fazer frente aos poderosos impulsos destrutivos. Na batalha entre vida e morte, esta vence. Segundo Tustin reações intempestivas são um sinal de melhora em crianças com autismo em tratamento (3). A agressividade é fonte de força na luta pela vida quando integrada aos impulsos amorosos, através das relações iniciais mãe-bebê suficientemente boas.

Caso isso não ocorra, poderemos nos deparar com a violência. A violência do ódio: Benni agride os outros, ameaça com faca, se morde, bate a cabeça contra o vidro; a da alegria: que esparrama batatas fritas pelo chão da lanchonete; e a do amor: “se eu matar sua mulher e seu filho terei você só para mim”.

Sem continência interna os impulsos extravasam, muitas vezes a demandar a continência externa, do armário ou de fortes (a)braços. Noutras vezes poderia a bolsa roubada, presenteada à mãe, “dar-lhe” a continência necessária para o convívio em família? Porém há situações adequadas para extravasamentos: lutas de boxe ou derrubada de velhas construções ou de árvores mortas.

Benni não escancara para nós apenas a sua raiva, o corpo coberto de hematomas, tomado por eletrodos ou anestesiado. Escancara também seu lindo sorriso, o rosto alvo e rosado.

Suas fugas poderiam ser entendidas como tentativas de se libertar do círculo vicioso odiento ao qual estava aprisionada?

Na cabana com Micha, Benni examina sua face: cheira, toca, olha de perto, como um bebê faz com o rosto da mãe. No contato com o filhinho de Micha, observamos — com tensão — a ternura dele tocando carinhosamente seu rosto. Benni assim pode cuidar das próprias feridas: resgata simbolicamente a almejada experiência de (re)encontrar-se com a mãe, visão diáfana presente apenas em devaneios, ou alucinações quando desacordada na floresta.

O sistema de assistência alemão, os abrigos, a escola, a clínica, a equipe multiprofissional — e as medicações — tentam dar conta do que não foi possível ao ambiente familiar. As falhas sucessivas vão se acumulando traumaticamente e as rejeições fecham o cerco em torno dela.

Em nenhum momento foi apresentada uma psicóloga, uma terapeuta, sequer uma analista como parte da equipe multiprofissional. E o trabalho com estas situações demanda suportar muita dor e impotência.

Benni não tem idade para ir para um reformatório e não encontra mais quem a queira. A vida numa fazenda é considerada terapêutica e apresentada de forma idílica. Mas não é o local que importa e sim os vínculos e, na experiência de Benni, eles são descartáveis.

E o projeto de ida para o Quênia, o “programa intensivo no exterior” para a África, continente distante, onde a violência de gênero é a segunda pandemia (4)?

Se, no início do filme, a porta e o vidro contra os quais Benni arremessa com violência os brinquedos são fortes o suficiente para suportar os ataques, ao final dele, a fragilidade da vida se estilhaça pelo impacto da força arrebatadora da morte.

Benni é símbolo da força de vida, que progressivamente sucumbe frente às frustrações e ao desamparo, na dialética entre vida e morte, amor e ódio, ternura e violência, continência e explosão que perpassa todo o filme.

E o que dizer da dialética saúde versus doença? Onde estaria a saúde? Onde a doença? Em Benni? Na mãe? No sistema assistencial alemão? Em nenhum deles? Onde estaria a cura?

A música de Nina Simone que ouvimos ao final do filme é belíssima — Ain’t got no, I got life — e fala sobre não ter nada, pai, mãe, amor, etc., mas ter a vida, ser livre e viver:
I’ve got life
I’ve got my freedom
Ohhh
I’ve got life!


E assim Benni, paradoxalmente, ao saltar para os braços da morte, se encontra com a liberdade…

AUTORA
Maria Thereza de Barros França
Psiquiatra \ Membro Efetivo da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo (SBPSP) \ Docente do Instituto de Psicanálise Durval Marcondes \ Psicanalista de Crianças e Adolescentes (IPA-International Pscychoanalytical Association) \ Ex-coordenadora do CINAPSIA (Curso Introdutório ao Atendimento Psicanalítico da Infância e Adolescência) \ Atual coordenadora da sétima turma do curso \ Membro do GPPA (Grupo Prisma de Psicanálise e Autismo)
E-mail — tfranca.tln@terra.com.br

REFERÊNCIAS
1. Baumann, M. (2014). Systemsprenger Wikipedia.
2. Williams, G. (2021). Debate sobre o filme “Becoming”, de Andy Spitz, Setembro/2021, Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo.
3. Tustin, F. (1990). Barreiras autísticas em pacientes neuróticos. Porto Alegre: Artes Médicas, p.74.
4. Spitz, A. (2021). Debate sobre o filme “Becoming”, de Andy Spitz, Setembro/2021, Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo.

TRAILER

FICHA TÉCNICA
Título original — Systemsprenger
Título inglês — System Crasher
Ano — 2019
Duração — 120′
País — Alemanha
Direção — Nora Fingscheidt
Argumento — Nora Fingscheidt
Produção — Peter Hartwig, Jonas Weydemann, Jakob D. Weydemann
Fotografia — Yunus Roy Imer
Música — John Gurtler
Edição — Stephan Bechinger – Julia Kovalenko
Elenco — Helena Zengel, Albrecht Schuch, Gabriela Maria Schmeide, Lisa Hagmeister, Melanie Straub, Victoria Trauttmansdorff

SINOPSE
Com apenas nove anos de idade, Benni é uma criança agressiva que a todos assusta quando tomada por raiva. Vários métodos de abordagem são experimentados na tentativa da sua integração, mas fracassam. A persistência de alguns adultos contrasta com a dificuldade de superar as dificuldades da menina. Sua grande frustação se deve aos obstáculos de ver atendido seu desejo de estar com a própria mãe, que a entregou ao sistema social estatal, por temê-la e não saber lidar com ela.