IMPLODIR, COLIDIR: ALGUNS DESTINOS DA CIVILIZAÇÃO — Melancolia (2011)

— Jaime Milheiro —
A partir de entrevista concedida a Cláudia Azevedo (1)

Gostou do filme “Melancholia” de Lars von Trier?

Cinema como raramente se vê, é uma obra-prima absoluta. Traz-nos o tema da vida e da morte em sensibilidades de baixa temperatura. 

A forma como os instintos de vida e os instintos de morte constantemente se entrelaçam no comportamento de cada um, a forma como as zonas mais primitivas dos seres humanos se insinuam nas suas zonas mais racionais e civilizadas, são os  condimentos fundamentais. 

Que melancolia é esta?

Nas pessoas e nas culturas, melancolia será o espaço onde as contradições se fecham sobre si mesmas. Onde os planetas destrutivos assumem protagonismo e nos encaminham para antevistos desmoronamentos.

É esse o mundo do filme. Um mundo de ricaços e de narcísicos castelos, a quem o realizador concede uma benesse particular: todos sabem inundar-se de aparências. Não há arrogâncias, não há desconsiderações, não há voracidades. Os conflitos escondem-se, as agressividades recalcam-se, as socializações recomendam-se. Ninguém verdadeiramente partilha nem censura. 

Até os cavalos parecem bem-educados. Cada pessoa é um ilhéu perfeitamente limpo e depurado, com os vulcões desligados mas com notórias faltas de esperança. 

A civilização retira-lhes as expressões narcísicas mais doentias, mas desloca-as para zonas submersas. Torna-as manifestas nas dificuldades afectivas e nos comportamentos relacionais. Estrutura-as como ausências, na falta de calor e na falta de erotismo, vincando-lhe as imensas contradições entre o obtido e o desejado. 

Há sempre um “não dito” no filme. Mesmo na melancolia efectiva de Justine, após um casamento mascarado, isso se nota. 

Haverá caminho para saudavelmente conciliar os interiores narcísicos com as satisfações afectivas e relacionais? 

Essa será a questão primordial, na resposta de cada um. 

Lars von Trier afirma-o impossível: “A Terra é má… não vale a pena chorar por ela… estamos sozinhos… tudo irá explodir, mesmo que os cientistas o neguem”. 

É nessa impraticabilidade que ele discorre sobre a Melancolia e a morte melancólica.

Será o fim das sociedades e das pessoas. Em imagens lindíssimas, num fogo-de-artifício que nada compensa, será esse o seu ponto de vista. 

Em minha opinião…  outras soluções funcionam.

Tinha de ser um filme de Trier?

Só alguém como ele conseguiria proporcionar clima e imagem a tão fortes subjectividades, embora tal particularidade também lhe retire quaisquer hipóteses de bilheteira. Expressa talento e virtude para compulsivamente nos colocar a pensar. 

Gosta de “Melancholia” ou gosta de Lars von Trier?

Gosto dos dois, em grau variável. No tom polémico cultivado, acho que vi todos os seus filmes que por cá passaram, apreciando particularmente “Ondas de paixão” e “Dogville”. O “Anti-Cristo” incomodou-me e rapidamente o retirei do pensamento. 

Na “Melancholia”, Trier tempera-se no seu habitual tropismo para negativismos gelados. Cuida com inegável sabedoria da forma como na vida se entra ou sai, para isso utilizando cidadãos bem definidos nas suas construções e destinos.

Pela densidade dramática, pela qualidade da narrativa, pela reflexão desencadeada, Melancholia foi um encanto para mim. Tive a garantia da não exclusividade desse encanto quando a Academia Europeia de Cinema, que só pode ser constituída por gente culta e de bom gosto (risos), lhe atribuiu o prémio de melhor filme do ano. 

Em certas sequências a beleza do planeta melancólico recupera-me Visconti e Kubrick, dois dos meus heróis.

Qual é a grande mensagem?

Trier fala-nos do ambiente em que vivemos, da impossibilidade de ultrapassarmos alguns dos aterradores aspectos em que a civilização nos mergulha, da incapacidade de entrarmos no espaço mental dos outros

Nada denuncia. 

Apenas anota e descreve, sem ridículos moralismos.

Em sua opinião, as personagens estão bem caracterizadas?

Acho-as excelentes, excepto o noivo na sequência do fracasso. Mesmo sendo o pobre diabo da confraria, mereceria saída mais nobilitante. 

Imaginei-o a correr palácio fora, nas sandálias vermelhas e nas cuecas com que Justine o deixou, propondo-se acabar a noite numa casa de alterne de Copenhaga, apoiado pelos familiares que chorosamente entoavam o hino dos escuteiros dinamarqueses. 

Mesmo admitindo que tal encenação não ficaria bem em gente tão civilizada, foi isso que pensei, na busca de antidepressivos de ocasião.

Citando a Wikipedia: “Trier’s initial inspiration for the film came from a depressive episode he suffered and the insight that depressed people remain calm in stressful situations”. Como comenta?

Não será obrigatório passar por determinados sofrimentos para poder analisá-los na criação e na Arte, menos ainda na Medicina. Curiosidade, talento, capacidade de análise, conferem genéricos suficientemente utilizáveis. Entre “falar” e “sentir” até deverá existir uma certa distância.

As pessoas do filme nunca estão deprimidas (salvo Justine, na segunda parte), mesmo quando falam de tristeza. 

Depressão e tristeza são estados muito diferentes. 

Na primeira parte, intitulada Justine, os noivos, aparentemente felizes, tentam chegar numa limusine ao local da festa, onde, pela primeira vez, a protagonista vê uma estrela diferente a brilhar o céu. O que significará essa “visão”?

Significa a visão utópica daquilo que lhe falta, dos vazios que ela julga preencher no acto de casar.

As “faltas” predominam na latência do filme, no espectador aliciando sentimentos de pesquisa, desde aquela desproporcionada limusine que subliminarmente nos informa do enorme erro de cálculo daquele casamento e daquelas relações.

A estrela anuncia, igualmente, a “solução” final: há um destino vindo do Universo a que ninguém pode fugir.  

Perante o azedume da mãe dominadora que prefere a outra  filha e o pai distante e ausente, a história familiar de Justine será determinante?

Será determinante, por certo, mas todas as personagens em idêntica nomenclatura funcionam. Justine não é estruturalmente diferente. Naquele registo e naquela encenação não há normais nem anormais. Em todos resplandecem teatros e afectividades socializadas, mesmo quando surgem zumbidos (Claire). 

As implosões interiores projectam-se nas explosões exteriores, através das ameaças que irão surgir. 

Sem implosão não haveria explosão. 

Nem haveria planetas a rondar a Terra com intenções destruidoras.

Justine ausenta-se várias vezes da festa (adormece ao deitar o sobrinho, toma banho de banheira como a mãe, conversa com o noivo mas desiste do acto sexual iniciado, conversa com o cunhado que lhe atira à cara o dinheiro gasto, fala com o patrão que lhe exige um slogan publicitário…) Parece tudo menos um casamento. Como interpreta?

Justine foge à sua interioridade sexuada e às aproximações sexuais. Tenta fugir aos medos e às ansiedades que já nem slogans substitutivos conseguem inventar. A sua necessidade de fuga  percebe-se nas entrelinhas. 

Dei comigo a pensar, curioso, como conseguiria Lars von Trier  descalçar-se de tais questões em festividades tão imponentes. Fá-lo de maneira brilhante, embora num formato tão “desconsiderante” que muitos detestam o filme por isso, em duas sequências: 

Empurra Justine para a frente e põe-na a fornicar com um estranho na noite do casamento, de forma completamente provocadora, num bunker de golfe e à vista de quem quiser, regressando-a ao palácio como se nada tivesse acontecido. 

Põe-na completamente nua a oferecer-se ao planeta medonho que estará para chegar, indiciando penetrações tão violentas que não ficará pedra sobre pedra nas geladas pedreiras que ela se habituara a percorrer, nem palha sobre palha nos aquecidos palheiros que desejaria frequentar. 

Bonito! 

Justine chora, troca a ordem dos livros e da mobília. Porquê? Depois, em conversa com a mãe, confessa que tem medo, mas a mãe diz-lhe: “Vacila daqui para fora. Vai-te embora?” Esta mãe má levará à melancolia?

Não me parece que ela seja particularmente má. Parece-me igual às outras, apenas mais evidente por mais “francesa”, como os nórdicos sempre presumem. 

Enquadro-as num dueto que às vezes descrevo e a que chamo: “as mães e as filhas das mães”.

Dependência/independência, autonomia/submissão, tolerância/rejeição, são binómios mal resolvidos em muitas mães que hoje avassalam a vida das filhas.

Uma substancial diferença existe, apesar de tudo, relativamente às “bruxas más” de antigamente. Tais mães fazem parte do mundo civilizado, talvez demasiado civilizado, embora potencialmente até possam ser mais prejudiciais. 

Na segunda parte Justine está doente banha-se no(a) Melancolia e não teme a colisão do Planeta por achar que “a vida na terra é má”?

Ali não há doenças nem terapêuticas. Há apenas factos e movimentos. Será um dos aspectos mais estranhos do filme, embora também constitua  enorme aliciante para quem observa. 

Ninguém fala de médicos, medicamentos ou religiões. Todos se colocam longe de antidepressivos, tranquilizantes e beatices. Ninguém concebe psiquiatras a receitar “para toda a vida”, nem  garantias celestiais.

Apenas existem planetas e ameaças, pessoas e conflitos, pressentimentos e orgulhos. 

O Sapiens já nada procura nem nada resolve. Estará cada vez mais próximo do nada.

Enquanto Claire está cada vez mais assustada com a aproximação do Melancolia, o marido, cientista cheio de autoridade, afirma que não haverá colisão. Como analisa estas personagens sem ligação ao mundo para além da Net? O que simbolizam aqueles arames? 

O marido não era nenhum cientista nestas questões. A ciência nada sabe sobre a vida e a morte, diz-nos o filme. Os cientistas nada poderão acrescentar. 

Ele seria uma pessoa comum, naquele casamento entre todos e o Universo. Acreditaria no estudo e na reflexão mas era tão “normal” que, ao contrário dos outros, até se suicidou para não morrer.

É muito significativo este paradoxo. Tal como o paradoxo da ligação à Net, onde cada um está sem estar julgando que está. Mas o mundo virtual não será a causa da distância e da fragilidade daquelas pessoas,  presas por metálicos arames.

Claire procura fugir, mas não encontra saída e leva o filho para fora da realidade (ela está no buraco 19 do campo de golfe, quando este tinha apenas 18). É assim na doença mental?

A saída estará para além da realidade. Estará no buraco que não existe, como se a relação entre as pessoas já nem se supusesse existir. 

A Saúde Mental corrói-se no absurdo das aparências, na camuflagem dos problemas, no fabrico de esconderijos, mas todos também podemos passar por aquilo que no filme se omite: verdadeiras alegrias e verdadeiros sofrimentos, mesmo sem talentosos realizadores para realçar as contradições.

O que representam a “gruta mágica” e a colisão final do planeta Melancolia? Será uma gigantesca e chocante metáfora?

Certamente.

Todas as pessoas contemplam registos fantasmáticos, projectos insolúveis e magias inconsequentes. Todas sonham e todas inventam grutas mágicas onde possam esconder-se e salvar-se das colisões.

Só com essa capacidade se mantêm no jogo da vida e lutam até ao apito final. Retiradas da misteriosidade, restar-lhes-á morrer. 

Os sonhos são a nossa mais eficiente metáfora e a nossa mais profícua inerência. O cinema faz parte dessa magia e dessa maravilha.

Congratulations… Lars von Trier! 

AUTOR 
Jaime Milheiro 
Psiquiatra \ Psicanalista \ Ensaísta \ Membro Honorário e ex-Presidente da Sociedade Portuguesa de Psicanálise (SPP) \ Ex-Presidente do Conselho Nacional de Saúde Mental e do Colégio de Psiquiatria da Ordem dos Médicos \ 12 livros publicados.

REFERÊNCIAS
1. Milheiro, J. (2015). Sobre o filme “Melancholia” de Lars von Trier (Entrevista à jornalista Cláudia Azevedo, publicada no Notícias Médicas em 04/01/2012). In: Analista de Interiores… Misteriosidade. Lisboa: Âncora, pp. 232-242.
2. Web Oficial: http://www.melancholiathemovie.com

TRAILER

FICHA TÉCNICA
Título original — Melancholia
Título português — Melancolia
Ano — 2011
Duração — 130′
País — Dinamarca
Direção — Lars von Trier
Argumento — Lars von Trier
Produção — Louise Vesth, Meta Louise Foldager
Fotografia — Manuel Alberto Claro
Música — Jan Holzner, Kristian Eidnes Andersen
Edição — Molly Marlene Stensgård, Morten Højbjerg
Figurino — Anna Ågren Manon Rasmussen Mia Andersson
Maquiagem — Camilla Eriksson, Dennis Knudsen, Linda Boije af Gennäs
Elenco — Stellan Skarsgärd, Kirsten Dunst, John Hurt, Charlotte Rampling, Charlotte Gainsbourg, Kiefer Sutherland, Alexander Skarsgärd, Brady Corbet, Udo Kier, Jesper Christensen, Camerron Spurr, Deborah Fronko  

SINOPSE
O aparecimento do Melancholia, planeta de enormes proporções  escondido pelo Sol, entra em rota de colisão com a Terra e coloca-a numa ameaça de destruição total. Assistimos ao casamento de Michael e Justine, uma jovem frágil e depressiva, que contrasta com a irmã Claire, mais velha, casada com John e mãe de Leo. Essas personalidades tão diferentes, motores de relações marcadas por narcisismos arrefecidos, terão perante a colisão reacções contraditórias. Segundo o realizador, trata-se de um filme sobre a natureza humana num cenário catastrófico.