SONHADOS PELAS TREMENDAS IMAGENS – Mulholland Drive (2001)

CATARINA BRAY PINHEIRO — 

O cinema de David Lynch produz um ambiente singular, de sensações oníricas, numa poesia das imagens em movimento.

A matéria-prima de Mulholland Drive (MD) é o sonho. Deparamos com a representação de um mundo feito de camadas intricadas onde o dentro e o fora se interpenetram, e onde o tempo colapsa. Reduzida a separação entre o espectador e o ecrã, experimentamos uma sensação de desconforto. Mergulhamos, como as suas personagens, numa querela identitária.

Capaz de comunicar o implícito, Lynch apresenta uma estética da inquietante estranheza (1), quando o dentro vem de fora, gerando uma experiência sensorial marcada por uma atmosfera de incerteza, num convívio entre o insólito e o banal.

Sobre o estranho, Freud referia-se àquilo que o sujeito desconhece de si mesmo tornando-se aterrorizador, sendo acompanhado por fenómenos como o duplo e a repetição, “o efeito inquietante é facilmente atingido quando a fronteira entre a fantasia e a realidade é apagada” (2). Dimensões que o cinema de Lynch explora, como uma máquina de emaranhar sonhos. 

O filme deixa-nos numa tensão difusa, convocando experiências que vão do erotismo ao terror, da vida à morte. Estética feita de contrastes: de melancólicas melodias à disrupção de uma electricidade em curto-circuito, de becos vazios ao esplendor de imagens cheias, de elegantes edifícios a pensões decadentes. Está tudo lá.

MD começa com uma aparente narrativa lógica: o acidente, amnésia de Rita, e a chegada da luminosa Betty à cidade dos sonhos. Juntas iniciam uma investigação sobre a identidade de Rita. Hollywood aparece como máquina de fantasias repleta de complots e segredos (8).

Inicialmente percorremos o lado radiante da fantasia. Porém aparece uma terceira parte, sem que tivesse sido anunciada uma primeira ou segunda, informando-nos como tudo obedece a outra lógica. Dá-se a revelação do pesadelo latente, reverso dantesco que nos desconcerta. À inocência das personagens de Betty e Rita, sucede o universo corrompido onde estas aparecem com outro nome e configuração, Diane e Camila. A ambiguidade é o substrato de MD.

O filme mergulha na lógica simétrica do inconsciente de Matte Blanco, caracterizada pela atemporalidade e falta de espaço (4). Este modo indivisível de ser, onde tudo é igual a tudo mais, é inerente ao instinto de morte.

MD funciona como o anel de Moebius, circularidade infinita num caminho sem início nem fim. Percorremos a superfície do anel que aparenta ter dois lados, sendo impossível determinar qual é a parte de dentro e de fora. Como o pintor Escher, Lynch mostra que subir para baixo ou sair para dentro não é impossível. Neste filme-película-anel de Moebius, o espectador passa de um estado de espírito a outro, sem marcos a sinalizarem qual o início e fim da história.

Serão os dois primeiros terços do filme, um sonho? Estará a realidade na terceira parte onde Betty aparece como Diane, desesperada e suicida, e Rita passa a ser Camila, sua amante infiel?

Segundo McGowan (5), os dois primeiros terços do filme mostram como a fantasia desempenha a função de tornar a nossa experiência coerente, desenvolvendo um enredo que resolve o enigma quanto à identidade de Rita. A segunda parte vive na incessante insatisfação do desejo, as luzes escurecem, a narrativa anda em círculos à volta do objecto impossível, na compulsão à repetição. A realidade é apresentada segundo a lógica de um sonho / pesadelo / terror. Se Betty é perfeita, Diane vive uma agonia fragmentária. Naomi Watts, que representa ambas, muda drasticamente, perde luz, aparece destruída. Para a expressão psicológica das personagens, Lynch explora a ideia do duplo, abstração da síndrome Jekyll e Hyde (1).

É Hollywood que estilhaça o narcisismo do sujeito, deixando-o num colapso identitário? Ou é o sujeito aniquilado que recorre a esta indústria, prótese do Eu em falência?

No início, Diane sonha Betty, tentando assim resolver o trauma em que se misturam sucesso e fracasso, eros e tânatos. Sonho enquanto tentativa de elaboração do trauma, de figurar o irrepresentável.

As personagens de MD não dormem nem acordam. Para Ogden, a psicanálise visa aumentar a capacidade do paciente de sonhar a própria experiência (6), e Lynch leva-nos a sonhar os terrores colectivos, dando forma à agonia contemporânea.

O realizador capta as bizarrias misturadas na espuma dos dias. Deixa-nos imagens que resultam do seu trabalho de figurabilidade. Ligar estas imagens implica um trabalho de luto, perda da ilusão que forra o estômago. Na fantasia, bálsamo para os dias, negamos a dor. A terceira parte do filme não dá tréguas, penetrando na crueza de uma noite negra. 

A certa altura, em MD, aparece um misterioso cowboy que diz ter chegado a hora de acordar. Mas quando é que começou o sonho? O que pertence a que mundo? Esta concepção onírica do cinema traduz o funcionamento do nosso psiquismo. Who is the dreamer who dreams the dream (3)?

Ao retirar a oposição entre o sonho e a realidade, Lynch situa-nos na fenda que os separa. Tornamo-nos o espectador espantado, tal como na sala de espelhos da feira popular das nossas infâncias, que nos distorcia para melhor nos imaginarmos. As personagens olham a nossa perplexidade, brincando na ilusão desta sétima arte. As estradas de Lynch – MD, Estrada Perdida – são interceções entre o sonho e a realidade, captadas com um olhar laser que trespassa barreiras, e alcança o fundo alojado na superfície. 

Lynch prefere mostrar as imagens, recusando analisar o seu cinema. Com um radar sensível, o realizador capta os pensamentos que procuram o pensador. Nesta posição de recetividade, poderemos acolher os seus filmes, tal como os sonhos de um paciente em sessão.

Explicar MD seria empobrecedor, como as interpretações saturadas esterilizam o campo analítico. Se tolerarmos a frustração de não compreendermos, se conseguirmos estar em capacidade negativa, entraremos noutra dimensão, aquela dos sonhos e da criatividade. Encontramos na internet múltiplas interpretações do filme, reordenando a narrativa em processo secundário, temporalidade cronológica que nos descansa devolvendo o fio da nossa frágil coerência.

Lynch quer acordar a nossa intuição, solicitando a participação do espectador. Podemos sonhar as cenas de MD, aceitar o convite para esta co-criação. As imagens não chegam até nós saturadas, permanecem abertas e precárias. Cada um conta a sua história, (des)faz ligações, compondo um infinito número de outros filmes-sonhos. Se não sonharmos o filme, ficaremos confusos, perseguidos, ou abandonamos a sala. Cinema que nos sonha, mas que solicita que o continuemos a sonhar.

Sampaio (7) diz que cinema é uma potência capaz de nos sonhar. Entre a tela e o espectador gera-se um campo de reciprocidades, semelhante ao campo analítico, espaço onírico que transforma a subjetividade daqueles que participam. Se a nossa mente constrói o cinema, o oposto também é verdade, o cinema constrói o nosso psiquismo.

Só assim poderemos conferir a MD a matriz lógica que funcione para nós. Rodley (1) encontrou o fantasma de Marilyn Monroe, morta na sua cama em posição fetal (como Diane). Marilyn, instável e impulsiva, viveu o sonho de Hollywood. Acordar é entrar no pesadelo. Lynch deixa referências ao Crepúsculo dos Deuses, filme de Wilder, que põe a descoberto a falsidade deste sonho.  

Los Angeles é a força que controla MD (1), estrada sinuosa da pulsão/drive, de morte, de vida. Podíamos estar na Estrada de Fellini, um dos filmes preferidos de Lynch. Mas também pode ser a estrada dos tijolos amarelos que leva Dorothy até à cidade mágica de Oz, onde percebe que tudo é um logro, que o feiticeiro é um homem cruel. 

MD é um filme cheio de filmes dentro, como aqueles sonhos com sonhos dentro. Teatro do Silêncio é o núcleo do sonho, espaço misterioso onde Betty e Rita chegam depois de uma noite de amor (8). Sonho que faz a transição entre as duas partes do filme. Abre-se a fenda entre a fantasia e a realidade. Uma luz azul gera um espaço vazio, palco onírico onde anunciam que tudo o que irá acontecer é uma ilusão. “No ya banda – and yet we hear a band”, “It´s all recorded”. Os corpos estão dissociados das vozes. Del Rio canta à capela Crying/ Llorando até cair desfalecida, e a música continua. Betty e Rita chegaram ao fim da fantasia. Uma caixa azul solta a escuridão. Caixa de Pandora que conduz à terceira parte que trará um cortejo de invejas e enganos. Enigma num teatro / espaço alternativo, como a sala de análise.

As protagonistas passam para o lado do espectador, ficando à mercê daquilo que acontece no palco. Lynch opera no paradoxo: o palco, lugar da ilusão, serve de espaço para a emergência da realidade. É na representação que a verdade se revela.

Num camarote do teatro emerge uma mulher enigmática com o cabelo azul que profere a última palavra: “Silêncio”. Como na última fala de Hamlet: tudo o resto é silêncio. Depois daquela torrente de palavras, com Shakespeare, e depois desta enchente de imagens, com Lynch, Silêncio.

AUTORA
Catarina Bray Pinheiro
Psicóloga \ Psicoterapeuta Psicanalítica \ Membro Efectivo da PsiRelacional
E-mail – catarinabraypinheiro@sapo.pt

REFERÊNCIAS
1. Chris Rodley, C., (1997/2004). David Lynch, Entretiens. Paris, Cahiers du Cinéma.
2. Freud, S. (1919/1989). O estranho. In As obras completas de Sigmund Freud, vol. 17. Rio de Janeiro, Imago, p.364.
3. Grotstein, J., (2000). Who is the dreamer who dreams the dream. A Study of Psychic Presences. London, The Analytic Press. 
4. Matte-Blanco, I., (1988). Thinking, feeling and being. London, Routledge.
5. McGowan, T., (2007). The Impossible David Lynch. New York, Columbia University Press. 
6. Ogden, T. (2005/2010). Esta Arte da Psicanálise: Sonhando Sonhos não Sonhados e Gritos Interrompidos. Porto Alegre, Artmed.
7. Sampaio . C.P., (2000). O Cinema e a potência do Imaginário. In Giovanna, B. (org), Psicanálise, cinema e estéticas de subjectivação (p.45-69). Rio de Janeiro, Imago. 
8. Jousse, T., (2007/ 2008). O Livro, David Lynch. Colecção Grandes Realizadores, Cahiers du Cinema. Lisboa, Público.

TRAILER

FICHA TÉCNICA
Título original — Mulholland Drive
Ano — 2001
País — E.U.A. / França
Direção — David Lynch
Argumento — David Lynch
Produção — Mary Sweeney, Alain Sarde, Neal Edelstein, Michael Polaire, Tony Krantz
Fotografia — Peter Deming
Música — Angelo Badalamenti 
Edição — Mary Sweeney
Elenco —  Naomi Watts, Laura Harring, Justin Theroux , Ann Miller, Robert Forster

SINOPSE
Rita sofre um acidente e perde a memória em Mulholland Drive, uma das estradas nos arredores de Hollywood. É ajudada por Betty, uma jovem aspirante a estrela que acabou de chegar a Los Angeles. Do outro lado da cidade, Adam, realizador de cinema, descobre que a Máfia controla o seu último trabalho. Um cowboy, uma vidente, um anão e alguns ilusionistas… Uma história de amor na cidade dos sonhos.