NEGAÇÃO… EU POSSO ENCARAR A VERDADE? — Denial (2016)

— SELMA T. O. FERNANDES JORGE —

Pela primeira vez, então, nos damos conta de que a nossa língua não tem palavras para expressar esta ofensa, a aniquilação de um homem. Num instante, por intuição quase profética, a realidade nos foi revelada: chegamos ao fundo. Mais para baixo não é possível. Condição humana mais miserável não existe, não dá para imaginar. Nada mais é nosso: tiraram-nos as roupas, os sapatos, até os cabelos; se falarmos, não nos escutarão – e, se nos escutarem, não nos compreenderão. Roubaram também o nosso nome, e, se quisermos mantê-lo, deveremos encontrar dentro de nós a força para tanto, para que, além do nome, sobre alguma coisa de nós, do que éramos. Primo Levi (2)

Será o cinema uma forma intrigante de pensar? Se partirmos dessa ideia, o que torna possível pensarmos por imagens? Um estudioso da semiótica, Deleuze (3) considera que no cinema, as relações entre as imagens tornam possível o surgimento de novas ideias e, então, de novos conceitos. Mas o que imaginamos está posto tal qual cinema mudo?

A imagem, ao gerar tempo e movimento, conquista sua narrativa e introduz o personagem na sístole e diástole do cinema. Dos respiros profundos dos personagens, aos sonhos e imagens vis, as emoções se personificam e constroem outras formas narrativas. Esse diálogo entre imagem, tempo e movimento, e o que podemos indagar em nós, é o que torna possível expandir nosso olhar para o tema do Holocausto, exposto no filme “A Negação”. No pulsar contraído e dilatado do tempo cinematográfico, pergunto-me: Primo Levi, qual é o meu nome?

Lá vem cinema:

Mick Jackson dirige a cena com delicadeza, sem grandes reviravoltas. David Hare, ao oferecer um roteiro polifônico, torna o espectador um investigador da psique humana. Quem espera assistir ao sofrimento ou aos depoimentos das vítimas do Holocausto, não os verá. No entanto, não distante do clima de crueldade, poderá se emocionar com a dimensão da dor silenciada, do grito interrompido.

A Verdade da questão é… eu posso encarar a verdade?

Deborah E. Lipstadt (Rachel Weisz), uma respeitada pesquisadora dos enredos nazistas, propõe uma desconstrução das ideias defendidas pelo historiador David Irving (Timothy Spall), que afirma que tudo o que se diz sobre o holocausto não passa de uma invenção. Como resposta a Deborah, David entra com uma ação de difamação, na justiça britânica, que a posiciona como ré. Como na Inglaterra o processo de acusação toma como tese a culpa, o que resta à pesquisadora é a defesa.

O que se segue não é exatamente uma mudança na trama, mas uma sequência de diálogos entre a ré e seu advogado. Curiosamente, o que entra em cena não é a morte, nem mesmo o testemunho dos órfãos do genocídio. O que se vê são as contradições e a necessidade de fabricar novas versões para a crueldade do holocausto.

A protagonista torna-se representante de todos aqueles que têm tatuado em sua memória um número, em substituição ao nome. Resgatar a história será expor, em parte, a dimensão histórica da verdade, mas também a complexidade de seu significado. Estamos diante de um enredo que nos absorve ao nos transportar para os labirintos da desrazão.

Enquanto Deborah se alimenta dos fatos históricos para debater sua defesa, seu advogado alimenta-se das contradições de David Irving, do consumo de informações manipuladas, e do discurso de ódio que protege sua visão especular e as aspirações panfletárias e nacionalistas.

Suponho que, para entrarmos em contato com o que desumaniza o homem, ou fazemos pacto com Deus ou com o Diabo. Ambos, se considerados espelhados, redundam em um caminho para aquém da consciência.

Negar passa a ser um esforço para manter oculto o que não pode ser aceito. As evidências da verdade, outrora sepultadas junto às vítimas, passam a ser resgatadas, e com elas o escorregadio piso da arrogância, da superioridade e da “negação” começa a sofrer rachaduras.

Essa será a luta entre Eros – que investiga a qualidade de uma afirmação por um lado – e Tanatos – que, ao negar, expõe sua diretriz: liberto-me de meu próprio julgamento para tornar-me senhor de mim. Não há, nessa diretriz, realidade externa a partir do outro. Há um outro que, ao fazer parte da realidade, precisa se manter a serviço desse senhor. Nega-se, portanto, como consequência, que exista um representante externo diferente de si mesmo.

A discriminação entre o que é verdadeiro e falso permanecerá sendo objeto de investigação sempre que caminharmos na esteira do desejo. Podemos assistir à criação de personagens contemplados por uma visão especular, plagiadores para uma existência oblíqua.

Tom Wilkinson como Richard Rampton, advogado do enredo, tal qual um bom investigador de almas, procura detectar um padrão na narratividade do perpetrador da verdade. Busca reunir os elementos díspares para alcançar o falso alicerce sobre o qual se estrutura a mentira. Enquanto uma parte da mente humana parece recorrer à eliminação dos conteúdos internos insuportáveis, outra parte parece tentar se livrar da mente ao substituir a realidade, considerada geradora de sofrimento, pelo mundo ficcional: a insustentável leveza da fábrica de fake news.

Retorno à comovente cena onde o advogado, Richard Rampton, visita o campo de concentração. Emocionada com as poucas imagens cinzas que sobraram, pensava no significado de sua ida a Auschwitz. Não, sua presença ali não se reduzia a colher prova: um pedaço de gente preso ao arame farpado! Era também recolher o fragmento de sanidade e dignidade e dar a eles, o resgate.

Em Auschwitz, matam a alma antes dela experimentar a morte como realização de uma vida cumprida, matam a morte da própria morte. Penso que o inquietante em Auschwitz está na estrutura gemelar dos campos de concentração, no desejo mimético, um horror que se dá além das questões político-jurídicas e do desespero da pessoa moral, está na morte do sujeito enquanto potência de ser.

Diante do inter-jogo peculiar que se vê aqui entre vítima e perpetrador, o triunfo do último não está em matar, matar não é um triunfo para ele, mas sim, aniquilar a identidade da vítima.

O triunfo do perpetrador Mefistofélico, fazendo uma alusão a Fausto (Goethe), está em submeter o outro à sua própria jurisdição, subordiná-lo a um estado de exceção onde o que reza é a destruição da sua individualidade. Neste cenário triunfal, entra em cena o Terceiro Reich, que embora republicano preserva em sua origem etimológica o culto ao desejo pelo Império. É ele, o imperador, que determinará quem não pagará as custas, quem não sofrerá a justiça, quem morrerá com a próxima pandemia, considerando que a Peste negra já se foi.

A força impactante desses acontecimentos no curso de décadas e suas terríveis consequências levaram o Terceiro Reich a ser o período mais investigado da história alemã. O sentimento de tristeza perdurará enquanto a história expuser a natureza selvagem de nossa humanidade? Não me seduz a ideia de reduzir a memória a uma função mantenedora. A memória marca o ser humano no que há de mais sensível e fluido, apenas a evolução do arrepio que funda a alma diante do horror e crueldade, que poderá revelar também sua generosidade e beleza.

Diante de suas ‘invenções’, o negacionista não nega a história apenas, mas a si mesmo.

Na prática jurídica, a revelação e a responsabilização pelos atos praticados podem produzir consequências jurídicas, assim como na prática psicanalítica: não basta reproduzir o passado, mas é preciso compreendê-lo no caminho da libertação identitária, ser e permitir que o outro seja diante da turbulência do encontro.

A história é convocada a representar o ser humano, a tocar em seus desejos miméticos para revelar a si e ao outro, que a solidão é de todos, cada um precisa ser um para comungar com todos a necessidade de estar junto, estarmos vivos e vigilantes.

Suponho ser útil nos fazer acompanhar de Shakespeare na lembrança de que somos feitos da mesma matéria do sonho, mas vale lembrar: cuidado para não nos deixar conduzir pelo sono profundo, de contrário seremos coniventes com a fórmula mefistofélica.

Encerro aqui – cuidando para não dar spoiler – com o convite para que todos possam ouvir a narrativa dessas imagens em um tempo que não me parece outrora…

AUTORA
Selma T. O. Fernandes Jorge
Médica e Psicanalista \ Membro Efetivo da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo (SBPSP) \ Docente do Instituto Durval Marcondes da SBPSP
E-mail — fejor3@hotmail.com

REFERÊNCIAS
1. Publicado no Observatório Psicanalítico FEBRAPSI — Ensaios sobre acontecimentos sociopolíticos, culturais e institucionais do Brasil e do Mundo — OP 293/2022.
2. Levi, P. (1988). Isto é um homem? Rio de Janeiro: Rocco, p.32 
3. Deleuze, G. (1996). Conversações. São Paulo: Editora 34

TRAILER

FICHA TÉCNICA
Título original — Denial
Título português — Negação
Ano — 2016
Duração — 109′
País — U.K. e E.U.A.
Direção — Mick Jackson
Baseado no livro de Deborah Lipstadt “History on Trial: my day in court with a Holocaust denier (2005)
Argumento — Davida Hare e Deborah Lipstadt
Produção — Russ Krasnoff, Gary Foster, Celia Duval
Música — Howard Shore
Elenco — Rachel Weisz – Tom Wilkinson – Timothy Spall – Andrew Scott – Jack Lowden – Caren Pistorius – Alex Jennings

SINOPSE
David Irving é um escritor simpatizante do nazismo que nega o Holocausto e Deborah E. Lipstadt é professora, historiadora e especialista americana no Holocausto, acusada por este de difamação, restando-lhe lutar no tribunal para provar uma verdade histórica.