ACONTECE ÀS MÃES E PROFESSORAS — Juno (2007)

— ELSA COUCHINHO —

Outono – Inverno – Primavera – Verão sucedem-se trazendo mudanças e transformações independentemente da vontade e dos desejos, marcando a passagem do tempo.

Também as mudanças e transformações da puberdade se impõem umas vezes aquém outras vezes além da vontade e do desejo, marcando o fim da “estação infância”, abrindo caminho para a construção de uma nova representação de si e dos outros e uma nova visão do mundo.

Com a saída da infância, as ilusões/ idealizações dão lugar a progressivas desilusões/ desidealizações. As figuras parentais omniscientes, detentoras de todo o saber sobretudo “saber fazer bebés”, dão lugar a figuras parentais mais humanizadas e realistas, que não detêm todas as respostas nem provêm toda a protecção.

Meltzer (2) refere a desilusão da puberdade: “os pais não sabem fazer bebés, apenas têm relações sexuais”, que ilustra o desmoronamento das teorias sexuais infantis, mas que não implicam necessariamente uma psicosexualidade adulta, uma passagem imediata para uma sexualidade genital. É com a gradual integração e elaboração de aspectos pré-genitais e genitais que essa construção se efectiva.

Talvez esta transição, marcada pela mescla de elementos pré-genitais e genitais, permita compreender melhor a incredulidade de Juno, da sua amiga e de Bleeker, perante a gravidez de uma adolescente, a gravidez “é algo que acontece às mães e às professoras”.

Aos adolescentes acontece a emergência das forças pulsionais, a curiosidade e a experimentação, ocupando parte significativa da sua vida  emocional: “o sexo foi premeditado, a gravidez não”.

A gravidez é algo que acontece “às mães e às professoras”, ou seja, às mulheres. Este é um princípio que sustenta a negação, daí que a realidade tenha que ser repetidamente testada, na esperança que esta se molde à crença e ao desejo, ou tratada como um “quadro mágico” onde os elementos se apagam e refazem.

Quantas vezes é necessário testar a realidade até que algo não desejado ou impensável possa ter existência? Quantos testes de gravidez são necessários para que a gravidez possa ser considerada?

Um elemento da realidade só poderá ter lugar na mente, quando no mundo interno se cria a possibilidade de o representar e na melhor das hipóteses prosseguir para a sua integração e elaboração, criando vínculos com a história, os seus objectos internos e criando narrativas que lhe possam dar sentido.

Ao longo das estações do ano observamos como Juno se vai organizando perante o enorme desafio psíquico que uma gravidez na adolescência traz.

Inicialmente, a solução parece ser apagar/anular esse elemento da realidade através de uma interrupção voluntária da gravidez (IVG), com a ilusão de que uma vez eliminada, não mais terá de ser pensada.

Na clínica, onde Juno pretende levar a cabo a IVG, a ideia de uma gravidez significar um potencial bebé parece começar a ganhar forma, talvez através de uma linha associativa desencadeada pela informação de que o feto já possui unhas (unhas do bebé – unhas cuidadas pela madrasta manicure – unhas/garras/picos/cactos enviados pela mãe). Linha associativa que parece estabelecer o contacto com a representação do bebé interno e dos seus vínculos a diversas representações do materno. Um bebé-Juno abandonado pela mãe e a sua ambivalência na relação com a madrasta.

Um bebé que poderá ser uma oportunidade de reparação dessa criança abandonada, na busca e escolha de um bom casal parental.

Também para a família a gravidez era uma hipótese que não se colocava. Poder-se-ia imaginar a suspensão da escola ou uma multa de condução, qualquer uma das transgressões habituais da adolescência mas não uma gravidez.

O trabalho de luto pelo lugar da infância junto da família de que nos fala Aberastury (3) processa-se do lado do adolescente e do lado da família, ao mesmo tempo que a nova representação desta pessoa, agora adolescente, se encontra ainda em construção.

A criança idealizada, “Juno a mulher de Zeus”, não resiste: “pensei que fosses o tipo de rapariga que sabia dizer quando” ao que Juno responde “não sei o tipo de rapariga que sou”, é ainda um tempo de construção e descoberta da sua identidade, do seu corpo e dos seus desejos.

É junto do pai e da madrasta que se gera um espaço de contenção e a possibilidade de pensamento, abrandando o ciclo de negação e de agir. A dupla parental cria espaço para pensar a possibilidade de dor que dar um bebé para adopção pode implicar, cria espaço para cuidar do bebé e de Juno (cuidados médicos) e acompanha-a no processo de adopção, estabelece-se como função egóica auxiliar, acompanhando-a nesse processo.

Juno investiga a casa da família adoptiva, escapando-se das discussões sobre o processo burocrático de adopção, começa pelo quarto de casal, como as meninas que experimentam andar nos sapatos das mães e nos seus vestidos, ela experimenta os cremes e o perfume de Vanessa, experimenta a pele e o cheiro de uma mulher/mãe.

Uma mãe plena de desejo de um bebé, contrastando com a representação da mãe de Juno cujo abandono pode ter dado lugar à fantasia de não ter sido um bebé desejado.

Descobre em Mark uma figura com quem se pode identificar através da música e dos filmes de terror. Observamos nele como uma adolescência que parece não ter sido plenamente vivida, se pode manter como um enclave sob a aparência de um funcionamento psíquico adulto à superfície, aguardando o momento propício para se revelar e voltar a tomar conta das suas escolhas.

O bebé vai ganhando forma e a gravidez toma conta do corpo de Juno. Um corpo que parece vivido de forma clivada, “um recipiente sagrado” que alberga o precioso bebé de Vanessa e “uma baleia mitológica”/ “planeta”,  corpo “deformado”, não desejado e que transporta aos olhos de todos a “prova” de que a fronteira com o mundo interdito da sexualidade adulta foi transposta.

Essa transposição parece operar também uma clivagem na mente dos adultos, representando Juno como “sexualmente activa” por oposição à representação de Juno como criança, do outro lado da fronteira, ainda num mundo “sem sexualidade”, como se entre uma e outra não houvesse outras possibilidades.

Entre os seus pares, Juno depara-se com a realidade dos adolescentes: os namoros e os seus dramas; as provas académicas; as festas e os rituais de transição (baile). Todo um processo da qual Juno está excluída, com uma parte significativa da sua adolescência em pausa.

Nesta etapa, em que a infância ficou para trás, Juno precisa da ajuda da madrasta para descobrir os limites e para se proteger, pois os seus movimentos edipianos com Mark não são lidos pelos adultos como tal e o risco de “confusão de línguas” é real.

Juno acaricia o bebé após o abandono de Mark, que remete para o abandono materno e talvez para o abandono sentido com a separação dos seus próprios pais, uma dor que coloca em causa a sua “fé na humanidade” e que busca no pai a contenção, o consolo, mas também, a manutenção da esperança no amor. É com a esperança devolvida pelo pai que Juno reencontra e repara o seu laço amoroso com Bleek.

“Um dia voltarás aqui à tua maneira”, serão possíveis outros bebés que trarão certamente o lastro deste primeiro, em condições que só o luto deste podem determinar. Ficamos com a esperança que Juno possa guardar dentro de si uma representação de Hera (nome grego de Juno), a deusa protectora do casamento, da família e das mulheres que vão “dar à luz”.

Por enquanto ficamos com Juno e Bleek, namorados adolescentes, na descoberta dos diversos “bebés”-músicas, produções criativas que os laços amorosos podem gerar.

AUTORA
Elsa Couchinho
Psicanalista Associada da Sociedade Portuguesa de Psicanálise e da International Psychoanalytic Association \ Psicanalista de Crianças e Adolescentes \ Docente do Instituto de Psicanálise
E-mail — elcouchinho@gmail.com

REFERÊNCIAS
1) Filme discutido no dia 07.02.2022 no Grupo Reflexão Adolescência & Cinema da Sociedade Portuguesa de Psicanálise, coordenado por Ana Belchior Melícias e Elsa Couchinho.
2) Meltzer, D. (2011). Adolescent psychoanalytical theory. In: D. Meltzer and M. Harris, ed.,  Adolescence: Talks and Papers.
3) Aberastury, A. & Knobel, M. (1970). Adolescência Normal – Um enfoque psicanalítico. Artes Médicas: Porto Alegre.

TRAILER

FICHA TÉCNICA
Título original — Juno
Ano — 2007
País — Hungria, Canadá, E.U.A.
Duração — 96′
Realizador — Jason Reitman
Argumento — Diablo Cody
Produção — John Malkovich, Lianne Halfon, Mason Novick, Russell Smith
Música — Danielle Bond
Produção — Steve Saklad
Figurino — Monique Prudhomme
Elenco — Elliot Page – Michael Cera – Jennifer Garner – Jason Bateman, – Olivia Thirlby – J. K. Simmons – Allison Janney – Rainn Wilson – Eillen Pedde – Daniel Clark – Darla Vandenbossche – Aman Johal – Valerie Tian

SINOPSE
Juno é uma adolescente dotada de um excepcional sentido de humor que engravida na sua primeira experiência sexual. Os desafios de uma gravidez na adolescência vão-se apresentando com o decorrer da passagem das estações do ano. As transformações corporais, uma solução para o bebé, as relações familiares e com os pares, ilustram a turbulência emocional que este acontecimento evoca e as soluções encontradas com o suporte emocional da sua família.