EXISTIRIA UM MESMO SOL PARA TODOS? — A Sun (2009)

— CELIA BLINI DE LIMA —

Escolhi esse título por representar a experiência emocional que vivi ao assistir ao filme A SUN. Vivi um impacto estético. Remeteu-me ao paradoxo de O SOL É PARA TODOS, pois faltava para alguns dessa família e tinha SOL demais para outros. O Sol pode ser a metáfora do olhar da mãe ou do pai para seus filhos, do acolhimento amoroso, pois é o que ilumina o ser e o espelha, auxiliando na construção de sua auto-estima e na apreensão do mundo. O título do filme, já expressa a profundidade de leitura do diretor para esta família taiwanesa, que embora traga vários aspectos da sua cultura, encerra a universalidade do campo relacional e dos perigos que podem ocorrer na vivência cotidiana de uma família, se não se pode pensar sobre ela.

A família vai tocando a vida, segue as demandas externas de trabalho dentro e fora de casa; os filhos vão crescendo, em tamanho e idade, sem que os pais voltem a conhecê-los em seu interior: seus sentimentos, pensamentos, fantasias, faltas. O mais comum é observá-los do lado de fora, seus resultados e atitudes. E que os olhem com os seus próprios olhos e não como eles são.

As experiências internas e externas começam em casa, permitem a identificação e a discriminação do que pode ser bom ou mau para um indivíduo e instrumenta-o para suas escolhas posteriores.

A família, portanto, é um campo para projeções de todos os integrantes do grupo, o lugar onde acontecem diversas experiências emocionais e onde os filhos podem tornar-se um prolongamento do desejo dos pais. É o que podemos observar nessa família, principalmente no caso do filho mais velho A-hao, para quem o pai (A-wen) volta seu olhar, chegando ao extremo de responder quando lhe perguntam – quantos filhos você tem, ele dizer UM. Não deve ter sido ao acaso que o diretor deu o título de “A sun”, ao invés de “The sun”. E de tão brilhantemente colocar em A-hao esse personagem sobrecarregado e aprisionado no lugar do “bom filho, do que vai ser o orgulho da família, do bem sucedido”, o representante do desejo do pai.

Se os holofotes (o sol) estão sobre A-hao, onde está o A-ho, o filho mais novo? Parece, também como algo que se repete numa família, as fraquezas, dificuldades, ansiedades, agitação, ficaram para ele, o foco do que não vai bem e que pode derivar, por exemplo, para a delinquência, como podemos ver no filme. Um filho mais visto por inteiro pela mãe, que se mostra amorosa em vários momentos de sua vida, descobrindo como acalmá-lo: ao levá-lo na infância a um longo passeio de bicicleta; ao visitá-lo quando é preso, ao acolhê-lo de volta para casa. Seu pai, só o via como um sintoma, recheado de aspectos negativos e indesejáveis, o ignorava como filho. Esse é um modelo de equilíbrio, equilíbrio que toda família busca, onde o arranjo compensa as deficiências de cada um, ainda que sobrecarregando um ou outro ou vários do grupo.

Observa-se desde a cena inicial, brusca e chocante da mão cortada que cai na sopa, que o diretor cria um clima um tanto dramático, mas permeado de algum sentido de humor e de um jogo de luzes e sombras, enfatizando o quanto podemos iluminar mais uma cena que outra, ou dar mais importância a um fato que a outro, mesmo não sendo eles os mais relevantes para o ser que habita o interior dos personagens.

Observa-se um fechamento em todos os integrantes do grupo familiar, sentimentos reprimidos, principalmente na mãe (Qin), que revela sua sensibilidade através de sua conduta afetiva e amorosa com os filhos, com a ‘nora’ e até mesmo com o marido, que parece não a perceber como pessoa, sua dor e sofrimento. Incluo também o filho mais velho, mais introvertido, que pode ser percebido por uma colega de classe, ao se manifestar em sua individualidade em meio à multidão de alunos, quando é pego em seus devaneios e responde ao professor. Estabelecem uma relação mais por interesse dela, uma relação tímida, bastante contida, mas sensível a ponto de estabelecer um vínculo entre eles. A-ho vai conversando e contando para ela uma história, uma lenda de Sima: as crianças brincam de esconde-esconde e uma não é encontrada, diz Sima. Caminham e encontram um jarro grande sob uma árvore e ao quebrá-lo, imaginando que tinha água, o que aparece é uma criança sentada olhando para fora – aparece a imagem do próprio Sima A-Iang. Um esconderijo, mas também pode representar um lugar de proteção, de sombra, de sossego, ou como diria Freud, a volta ao estado de nirvana. Revela aqui o peso de ficar sempre exposto ao sol como figurante do bom filho, e deixa entrever sua falta de liberdade pessoal, sua solidão, desânimo e talvez o cansaço da vida. Ele diz a ela que o que é mais justo no mundo é o sol. Ela não entende muito bem o que ele quer dizer. A colega procura a mãe no velório de A-hao, conta essas experiências que teve com ele e diz que desde esse dia ele não foi à escola, que nunca mais o viu desde então e que teria gostado de ser sua namorada. A mãe se surpreende, dizendo que ele saía todos os dias para as aulas.

O pai, um instrutor de auto-escola, mostra-se um homem simples, preso à concretude da vida e pouco sensível ao que se passa com as pessoas. Segue suas metas e deixa claras suas expectativas com relação aos filhos. Liga-se a jargões, entre eles ‘aproveite o dia, escolha o seu destino’. A partir do dia em que seu filho mais novo é preso e condenado, o primeiro impacto que a família sofre, o pai não se esforça por ajudá-lo, ao contrário defende que ele seja punido sem se aprofundar nos fatos. E passa a dizer que só tem um filho, referindo-se a A-hao. Nunca vai visitá-lo, mas comparece ao seu casamento na prisão, demonstrando uma atitude de total descaso e desinteresse.

Sua segunda surpresa, é o suicídio de A-hao, totalmente inesperado pela família, longe de percebê-lo como desgastado e cansado da vida. Mas também impacta o espectador, ainda que possamos vislumbrar sinais de depressão em A-hao. Esse outro impacto trouxe grandes transformações à família. Uma delas é a possibilidade de ver a falta que esse filho faz ao pai, que começa a demonstrar seus sentimentos.

A-ho vai ao velório do irmão acorrentado vigiado pelos guardas e lhe faz reverência. Depois disso, no reformatório onde está preso, demonstra sua dor pela perda do irmão e revela que o odiava por ele ser boa pessoa, bom filho e inteligente, inveja quem sabe não só de suas qualidades, mas do amor do pai, que só tinha olhos para ele. Mas apesar de no início ter passado maus momentos no reformatório, vai-se aplicando e se torna querido pelos colegas. Quando chega seu momento de sair, 18 meses depois, os colegas cantam para ele – uma cena forte e emocionante, que enfatiza a música, uma trilha sonora muito sensível que termina assim:

A primavera vem e vai
As flores murcham e desabrocham
Se estiver disposto
Deixe os sonhos
Navegarem em seu coração

Uma mensagem de esperança e força.

Vem buscá-lo a mãe, a esposa e o filho. Ele tem dificuldade de arranjar emprego, mas consegue e passa a ser um bom empregado. Vai morar na casa dos pais, mas o pai sai de casa, não aceita a presença do filho.

Depois de um tempo A-ho, começa a sofrer ameaças de Radish, o colega que decepou a mão de outro colega, sai da prisão e o coloca de novo numa situação difícil. A-ho trabalha em dois lugares para dar conta de ajudar a família. Um dia seu pai entra na loja onde ele trabalha e A-ho fala com ele. Eles se falam um pouco e o pai conta que o A-hao veio visitá-lo, ao que A-ho diz, você deve ter sonhado. Depois desse dia se aproximaram um pouco. Seu pai, passou a observá-lo e percebendo a aproximação negativa de Radish com o filho, que o tem surpreendido por sua conduta, intervém cometendo o assassinato de Radish. Uma forma violenta e inesperada de defender um filho que parece ter nascido depois da morte do mais velho. Ele a partir de então, continua dizendo que tem um filho (A Son, outra aproximação metafórica do diretor).

Essa família sofre grandes transformações e o filme cresce no drama e na expressão emocional, que explode em todos os personagens, especialmente no casal Qin/A-wen. Eles saem para caminhar e no alto de uma montanha, A-wen faz a revelação do assassinato e Qin demonstra toda a raiva contida por suas atitudes com A-ho e com ela nesse tempo de convivência, para depois receber um abraço de acolhimento de toda a dor que carregou nesse tempo de perda de A-hao, da prisão de A-ho, da vinda da nora e do neto, da saída de A-wen de casa.

O filme termina na linda imagem do filho levando a mãe a um passeio num misto de sol e sombra, intervalos da demanda externa (a inter relação com o ouro ou com a vida) e a vivência da individualidade; os papéis se invertem – agora ele é quem conduz, cuida da tristeza da mãe. Um ato que revela a importância que os momentos da infância com a mãe tiveram dentro dele, pois mantiveram-se vivos. Podem ter um significado de esperança. Embora ele tenha tomado “emprestada’ uma bicicleta, mostrando suas práticas anteriores, não me pareceu ser esse o ponto central da cena.

AUTORA
Celia Blini de Lima
Psicanalista, Membro Efetivo e Docente da Sociedade Brasileira de São Paulo (SBPSP) \ Membro sócio-fundador da Associação Brasileira de Psicanálise de Casal e Família \ Mestre e Doutora em Psicologia pela Universidade de São Paulo (USP)
E-mail — celiablini@gmail.com

TRAILER

FICHA TÉCNICA
Título original — Yangguang puzhao
Título inglês — A Sun
Ano — 2009
Duração — 155′
País — China
Direção — Chung-Mong-hong
Argumento — Chung-Mong-hong e Chang-Yao-sheng
Produção — Yeh Ju-feng; Tseng Shao-chien
Cinematografia — Nagao Nakashima
Música — Lin Sheng-xiang
Edição — Lai Hsiu-hsiung
Elenco — Chen Yi-wen – Samantha Ko – Wu Chien-ho – Liu Kuan-ting – Greg Hsu – Apple Wu – Wen Chen-ling – Ivy Yin

SINOPSE
A trama acompanha uma família, composta pelo pai (A-Wen), homem rígido e instrutor de uma auto-escola, a mãe (Qin) que trabalha numa boate como cabeleireira, o filho mais velho (A-Hao), estudioso no caminho da medicina e o filho mais novo (A-ho), que apresenta-se como um rebelde e inconsequente, em torno do qual acontece todo o drama desta família. A Sun explora temas como egoísmo, angústia, empatia, perdão, depressão, um enredo profundo e emocionalmente intenso. Combina uma fotografia num equilíbrio perfeito entre o desaturado e o colorido vívido, contrasta brutalidade e ternura, acompanhado de uma trilha sonora minimalista, trazendo o impacto avassalador de um evento inicial na vida da família Chen.