A VIOLÊNCIA DA PERSONALIDADE NARCÍSICA — The Good Boss (2021)

— ANA TERESA VALE — 

O filme apresenta-nos uma fábrica onde tudo tem que estar milimetricamente equilibrado. Blanco (Javier Bardém), o dono da fábrica, aparece como um pai protetor e preocupado com os seus empregados, sempre batendo na tecla da família: a empresa é uma família e os empregados são os seus filhos adorados. Aguarda ansiosamente a visita de um comité que deverá tomar a decisão de lhe atribuir ou não um prémio – e tudo tem que estar imaculadamente perfeito para essa visita.

Mas logo de início, uma nota dissonante. No momento da despedida de três estagiárias, há uma que solta um “amo-te” quando recebe a sua prenda de despedida da mão do patrão; e sai a correr, em lágrimas. A cena faz-nos rir mas ao mesmo tempo deixa-nos de sobreaviso – o que é que aquela declaração de amor quer de facto dizer?

Fernando León de Aranoa é exímio na maneira como nos leva progressivamente a descobrir a real natureza da personagem de Blanco. Todo o falso self construído para proteger os seus interesses – não só os seus interesses financeiros, mas também emocionais – vai sendo desconstruído à medida que testemunhamos a forma como Blanco lida com as frustrações e com aquilo que não consegue controlar.

A persona que Blanco apresenta ao mundo e a si próprio é a de um homem empático, preocupado, para quem as pessoas chegam em primeiro lugar. Desta forma, protege a sua própria auto-imagem, enganando-se a si mesmo (como tantas vezes encontramos na clínica das personalidades narcísicas), recusando-se a encarar o seu verdadeiro self – desleal, manipulador, destrutivo, desprezando os outros e as suas necessidades, explorando a fragilidade das pessoas que tem ao seu redor. A sua prioridade absoluta é proteger a sua reputação e a sua imagem, daí a necessidade de obter o prémio a todo o custo.

Cruza-se no seu caminho uma jovem, que de imediato seduz. Apesar de toda a encenação de preocupação e atenção, na verdade apercebemo-nos que ela é só mais uma numa fila interminável de meninas seduzidas. Representa-se aqui uma cena edipiana, em que a menina recém chegada à idade adulta seduz a figura paterna, mas também uma confusão de línguas, porque na verdade a menina procura uma coisa enquanto que o homem procura outra. Neste caso particular, percebemos mais tarde que a menina já o conhecia muito antes de entrar como estagiária na fábrica e, portanto, os contornos desta sedução têm as suas raízes nas fantasias infantis.

Mas também entendemos que, nesta confusão de línguas, a menina “sai a ganhar”, conseguindo obter um lugar profissional de chefia, que nunca seria o seu nesta fase da sua carreira. A menina sai então triunfante.

Se podemos ver este desfecho como uma negação por parte do realizador (e do mundo masculino) da destrutividade causada por este tipo de relação abusiva no local de trabalho, também podemos pensar esta cena como um triunfo maníaco. Ao sentir-se excluída da cena edipiana, a menina encontra uma forma de se vingar do pai. Se este é um cenário que raramente encontramos na realidade, do ponto de vista simbólico é como se o filme desenhasse uma saída possível para o conflito edipiano – se não podes casar com o pai, então procura ocupar o lugar dele.

Este é apenas um exemplo do lugar que o realizador confere à violência nas relações de Blanco com as pessoas que o rodeiam. Uma violência negada, abafada, não reconhecida, mas que Fernando Léon de Aranoa nos faz sentir subtil mas indubitavelmente.

Autora
Ana Teresa Vale
Membro Associado da Sociedade Portuguesa de Psicanálise (SPP), da Fédération Européenne de Psychanalyse (FEP) e da International Psychoanalytic Association (IPA) \ Formadora no Instituto de Psicanálise da SPP \ Membro da COWAP Europa (Committee on Women and Psychoanalysis)
E-mail — ana.t.vale@gmail.com

FICHA TÉCNICA
Título original —El Buen Patrón
Título inglês — The Good Boss
Título português — O Bom Patrão
Ano — 2021
Duração — 120′
País — Espanha
Direção — Fernando León de Aranoa
Argumento — Fernando Léon de Aranoa
Produção — Fernando Léon de Aranoa e Jaume Roures
Fotografia — Pau Esteve Birba
Música — Zeltia Montes
Edição — Vanessa Marimbert
Figurino — Fernando García
Maquiagem — Almudena Fonseca
Elenco — Javier Bardem – Almudena Amor – Manolo Solo – Óscar de la Fuente

Trailer

SINOPSE
Blanco (Javier Bardém), um carismático dono de uma empresa que fabrica balanças industriais numa cidade do interior de Espanha, espera a visita iminente de uma comissão a propósito de um prémio local de Excelência Empresarial, e tudo tem que estar perfeito para a visita.
No entanto, tudo parece conspirar contra ele. Trabalhando contra o relógio, Blanco tenta resolver os problemas dos seus funcionários, cruzando todos os limites imagináveis, dando origem a uma série de acontecimentos inesperados e explosivos com consequências imprevisíveis.