AUTOBIOGRAFIA ENTRE O DIVINO E O PROFANO — The Hand of God (2021)

— ANNE LISE DI MOISÈ SCAPPATICCI —

Escolhi esse filme autobiográfico – tema, que como sabem, estudo há muito tempo, a psicanálise como uma atividade autobiográfica para a dupla – porque também diz respeito a minha própria autobiografia. A Itália constitui uma parte importante de minha vida e intrinsecamente, na minha formação como psicanalista.

O filme traz através da cidade de Napoli, a conjunção entre sacro e profano, esoterismo e mistério. Dario Fo, prêmio Nobel da literatura, em seu Mistero Buffo (1997) diz que Mistério é o termo utilizado nos séculos II e III depois de Cristo para indicar um espetáculo, uma representação sagrada. Desde os primeiros séculos depois de Cristo o teatro era o jornal falado e dramatizado pelo povo. O bufão, uma espécie de demiurgo, fazia a ponte entre o divino e o profano.

Assim, o filme através do deslumbrante cenário Napolitano se aproxima do espectador propondo o encontro com algo misterioso em si mesmo. Neapolis, nova polis, foi a última cidade grega a entrar no continente, e, depois, fez parte do Reino das duas Sicílias. Em 1861, a unificação da Itália, trouxe em sua torre de Babel, a influência de várias culturas para a humanidade.

Quero fazer meu comentário a partir do tema da Ide (Ide 73) que é “Ode ao divino em ti. A trajetória do herói, do infante, entre crença e fé”. Afinal, todos nós carregamos, dentro de nós mesmos, nosso próprio mistério, o divino, algo que nunca será completamente conhecido, e, ao mesmo tempo, o profano, o senso comum, o grupo. Ou ainda, como na frase-prefácio do filme, frase de Maradona: “ho fato quello che ho potuto. Non credo di esse andato così male” (fiz o que pude. Não acho que fui tão mal). Essa frase coloca em pauta, como um augúrio de vida ao espectador no ‘portal’ da exibição, a trajetória rumo ao crescimento, quando é possível sair da indiferenciação do grupo que está à espera de um líder ou do messias, no pressuposto básico de dependência, algo fora do próprio sujeito, ou ainda, das regras ou da busca da perfeição, e encontrar-se consigo mesmo dentro daquilo que é possível, com suas próprias referências. Nietzsche (2001) denominou isso de “amor fati”, ou seja, aceitação lúcida do destino humano mesmo em seus aspectos mais cruéis e dolorosos.

O aspecto autobiográfico do filme trazido por Sorrentino é um transportar-se como num sonho, num clima onírico, às cenas de sua infância, algo original em si mesmo, aos olhos concomitantes de um adulto, ou ainda, como dizia Fellini, “na vida nada se conta, tudo se cria”, a autobiografia é autopoiese, é autocriação pela arte que pode ser cinematográfica ou ainda, psicanálise verdadeira.

Na cripta da catedral de Napoli, todo o primeiro sábado de Maio, os Napolitanos estão à espera de um milagre, a liquidificação do sangue. Coisa que realmente acontece. Mas, já existe para isso uma complicada explicação científica.

Assim, o autor chega pelo mar, Thalassa. Vinda do mar, numa epifania, um helicóptero que se aproxima mostrando a beleza da costa napolitana, cercado pelo rumor peculiar do motor das lanchas que mergulham nas ondas, tuf, tuf, tuf. A câmara faz um zoom e um carro antigo se aproxima à beira mar. O barulho do carro é depois obscurecido pelo rumor da turba, fogos, epifania, em meio a buzinas. De repente, silêncio. O carro se aproxima em câmera lenta e vemos uma linda mulher numa fila de ônibus trajada como uma Virgo vestalis. Vestais eram as sacerdotisas incumbidas de dedicar parte de suas vidas à adoração da deusa Vesta, que era a personificação do fogo sagrado (protetor de Roma), VII a.c.
“— Ciao Patrizia, sono San Gennaro” (o patrono da cidade). É o encontro de Patrizia com sua divindade, com seu feminino. A sexualidade, parece um relato bíblico (Anjo São Gabriel), mas aqui o impacto da experiência, não parece ser suportado por Patrizia que enlouquece?

Ela segue San Gennaro que faz um investimento em sua sexualidade (o trauma) apresentando-lhe il monaciello ou munaciello, – pequeno monaco, figura lendária de Napoli – e dando-lhe um tapa no bumbum, como num passe de mágica, unindo o sagrado ao profano.

O grupo externo, marido e parentes, também não acredita no encontro místico de Patrizia e todos reagem com manifestação de ódio e zombarias.

A única pessoa que acredita é o pequeno Fabietto, futuro cineasta que já “via coisas”, ele pergunta: “Mas tio, e se ela realmente viu o monaciello?” Seria um convite a entrar em contato com o senso comum do outro, saindo de nosso narcisismo, de que só existe aquilo que acreditamos, de nossas regras e crenças, sair daquilo que já nos é conhecido? Um toque de fé…

Nesse desenlace podemos perceber o instante de tomada de decisão na encruzilhada da vida – o momento edípico do filme – e de porque nos tornamos psicanalistas, nós vemos coisas que o senso comum desvia, reluta. Fabio poderia ter enlouquecido, se tornado um scugnizzi (em dialeto napolitano, menino de rua) um contrabandista, ter feito a escolha de seu irmão, mas os olhos que foram proibidos de ver os pais mortos, conseguem enxergar pelo olhar interior da imaginação, vai ser cineasta, vai contar estórias.

E a propósito, o filme se desdobra em muitas histórias e personagens, como no mito familiar, onde o pai, Sevillo, um importante maestro, vai guiando a cena/espetáculo. Remonta um pouco a comédia napolitana com suas críticas aos costumes e nós, espectadores, embora intuindo a tragédia eminente, nos divertimos.

A Baronesa viúva de um ginecologista de renome que pensa que tudo seja cafona; a irmã que não sai do banheiro, a cena na ilha de Procida, encontro familiar onde é apresentado o namorado de uma das irmãs de seu pai Saverio, Aldo Cavallo e Luisella Schizza, a ridicularização da crença no amor eterno.

Somos inundados por uma atmosfera circense entre malabares de laranja para manter um casamento, assobios e comentários picantes de um lado e de outro, várias tomadas belíssimas de um corredor profundo que desagua numa abertura para o mar, Thalassa, o autor sonhando suas origens… Uma visão futuro/passado, passado reapresentado.

De novo o impacto estético diante da beleza da tia Patrizia nua no barco, como o encontro com a sexualidade e a vitalidade podem paralisar, se não tolerarmos a turbulência catastrófica e pudermos dar um primeiro passo em direção ao futuro – O comentário profano e sarcástico da tia diante do olhar fixo do garoto: “vedo come sei cresciuto Fabietto!”. O paradoxo contrastante da passagem dos contrabandistas de lancha sugerindo uma outra possibilidade.

Outra citação a Fellini na prova do teatro com vários tipos excêntricos e as frases de Fellini ditas por seu irmão, como um personagem interno: “o cinema não serve a nada, mas distrai.” “Distrai do que?” “Da realidade. A realidade é scadente”, pobre, precisa ser sonhada pela imaginação.

A citação do filme de Sergio Leone com música de Ennio Morricone, “Era uma vez na América” também retrata o esforço emocional de Paolo Sorrentino o retorno à sua origem. O Agora, piazza del Plebicito: diante dessa abertura, seu pai o orienta a respeito da primeira vez de um homem e relata a primeira vez que viu Maria, sua esposa. Passado e futuro unidos. Parece um encontro premonitório.

O título do filme é referência ao gol de mão de Maradona, o salvador de Napoli, a partida de futebol, o indivíduo e o grupo humano. Crença ou fé? Moral ou ética? Conhecido ou desconhecido?

Os pais morrem sufocados e a senhora Gentile, a pessoa que talvez menos esperávamos, aproxima-se citando Dante Alighieri (Canto III, Inferno — Porta do Inferno).

Per me si va ne la città dolente, / per me si va ne l’etterno dolore, /
per me si va tra la perduta gente. / Giustizia mosse il mio alto fattore; / fecemi la divina podestate, / la somma sapïenza e ‘l primo amore.
/ Dinanzi a me non fuor cose create / se non etterne, e io etterna duro. / Lasciate ogne speranza, voi ch’intrate.
Por mim se vai à cidade dolente, / por mim se vai à eterna dor, / por mim se vai entre a perdida gente. / Justiça moveu o meu alto feitor; / fez-me a divina potestade, / a suma sapiência e o primeiro amor. / Antes de mim não foram coisas criadas / senão eternas, e eu eterna duro. / Deixai toda esperança, vós que entrais.
(Tradução literal em português)

Remeto à Porta do Inferno (La Porte de l’Enfer, em francês), escultura de Auguste Rodin, iniciada em 1880 e finalizada apenas em 1917.

Irmão, um interlocutor interior pergunta: “o que fez Maradona chama-se perseverança!”

Perseverança, manter a esperança, Fabio confessa à tia, sua musa inspiradora, que quer ser cineasta e diz-lhe que acreditou quando ela viu o monaceillo. Novamente ele é visionário, urge nele ir além do impacto da estória repetida pelos olhos vivos de seu pai, é urgente ir em busca do futuro, o cinema, a psicanálise.

O morcego é uma aparição no salão e Fabio tem sua primeira noite de um homem como havia previsto seu pai. Esta cena termina com a fala sábia da baronesa: “nunca se sabe o que acontece na casa dos outros”. É preciso olhar o futuro.

A figura do enforcado pendurado em meio à Galeria Humberto I pré-anuncia uma mudança catastrófica.

Numa das últimas cenas, cena icônica do filme, estamos num lugar arqueológico, o qual leva de novo a uma abertura do mar, a Origem: esta cidade não tem nada para te contar? Não tem nada a contar? Quando sono morti non mi hano fato vedere! O cineasta exorta: “Não te desuna”, como um, não se perca de ti mesmo, use a imaginação, use o seu olhar interior, faça como sua mãe, Maria, que morreu fazendo scherzi, brincando com a realidade, a realidade é scadente.

Napoli vence o campeonato, Fabio agora protagonista passa pela multidão perfazendo seu próprio caminho, Daniella sai do banheiro, a baronesa na janela, sua tia o acompanha em seu olhar com ternura enquanto Fabio pega o trem e tem uma última visão, o monaciello. Ele adormece e Pino Danielle canta: NAPULI È…

AUTORA
Anne Lise Di Moisè Scappaticci
Psicanalista Membro Efetivo com funções didáticas da Sociedade Brasileira de São Paulo (SBPSP) e da International Psychoanalytical Association (IPA) \ Diretora Editora Ide – Revista de Psicanálise e Cultura da SBPSP \ Pós-doutora USP, Doutora Psiquiatria UNIFESP, Psicólogia Clinica Università degli Studi La Sapienza di Roma.
E-mail — annelisescappaticci@yahoo.it

REFERÊNCIAS
1. Bion, W. R. (1965). Transformações: do aprendizado ao crescimento. Imago.
2. Freud, S. (1976). O estranho: uma neurose infantil e outros trabalhos. In S. Freud, Edição standard brasileira das obras psicológicas completas de Sigmund Freud (Vol. 17, pp. 275-314). Imago. (Trabalho original publicado em 1919)
3. Fo, D. (1997). Mistero Buffo. A cura di Franca Rame. Einaudi.
4. Nietzsche, F. (2001). A gaia ciência (P. C. Souza, Trad.). São Paulo: Companhia das Letras.
5. Sandler, P. C. (1989). Fatos. A tragédia do conhecimento em psicanálise. Imago.
6. Sandler, P. C. (2021). A linguagem de Bion. Blucher.
7. Scappaticci, A. L. (2018). A autobiografia de Wilfred Bion: psicanálise, uma atividade autobiográfica. Jornal de Psicanálise, 51(95), 229-242.
8. Scappaticci, A. L. (2022). Bion: autobiografia e poética. (no prelo)

TRAILER

FICHA TÉCNICA
Título original — È stata la mano di Dio
Título em inglês — The Hand of God
Título em português — A Mão de Deus
Ano — 2021
Duração — 130 min.
País — Itália
Realização — Paolo Sorrentino
Argumento — Paolo Sorrentino
Produção — Lorenzo Mieli, Paolo Sorrentino
Fotografia — Daria D’Antonio
Edição — Cristiano Travaglioli
Música — Lele Marchitelli
Cenografia — Carmine Guarino
Figurino — Mariano Tufano
Elenco — Filippo Scotti – Toni Servillo – Teresa Saponangelo – Marlon Joubert – Luisa Ranieri – Renato Carpentieri – Massimiliano Gallo – Betti Pedrazzi – Enzo Decaro – Sofya Gershevich – Lino Musella – Biagio Manna – Ciro Capano – Monica Nappo

SINOPSE
Conta a história do adolescente Fabietto na tumultuada Nápoles dos anos 1980 onde mora com os pais e o irmão Marchino. Entre muitas peripécias familiares, uma tragédia deixa os dois irmãos à mercê dos próprios destinos e Fabietto desiste do sonho de estudar filosofia e decide estudar cinema.