HISTÓRIA DE UMA ADOÇÃO DIABÓLICA — The day I wasn’t born (2011)

— ALICIA BEATRIZ DORADO DE LISONDO —
Uma menina de 3 anos, é roubada durante a ditadura argentina (1976-1983). A família adotante de origem alemã faz pensar na força da história transgeracional (11): o governo militar tinha como modelo as atrocidades do nazismo, albergando muitos dos algozes.

Maria, já adulta, numa viagem para participar de uma competição de natação, precisa fazer uma conexão no aeroporto de Buenos Aires, onde escuta uma mãe cantando uma canção de ninar para acalmar o seu bebê. Essa jovem “alemã” começa a cantar em espanhol, sofre uma comoção emocional e chora copiosamente. Perde a conexão e o passaporte.

Buenos Aires surge estranha e familiar. Encanta-se com um boneco Topo Gigio que cheira, toca e embala.

Recebe seu pai no hotel e quer saber se teve um boneco como esse, como poderia ter cantarolado aquela canção em espanhol. O pai adotivo, Anton, conta que ela é adotada. Os pais tinham sido sequestrados, torturados e mortos. Ninguém teria ido buscá-la à escolinha da empresa e, assim, Estela, sua professora e mulher de Anton, a teria levado para a sua nova casa.

A BUSCA

Maria, ajudada por um policial, encontra seus familiares. É recebida com muita surpresa e alegria pela família, que ainda esperava sua filha desaparecida.

Seu pai, Luís, trabalhava na empresa de Anton. Após o desaparecimento do casal, a madrinha foi à procura de sua afilhada. Anton teria mentido, dizendo nada saber sobre a menina.

O filme oferece uma rêverie cultural, tentando dar forma e criar um continente para o horror, para que o espectador tome consciência e deixe de ser uma testemunha passiva, para que “NUNCA MAIS” (Comisión Nacional sobre la Desaparición de Personas) essa história aconteça.

A violência ultrassubjetiva pode ser convertível: as “mães e avós da Praça de Maio”, resgataram 130 dos bebês desaparecidos, hoje homens que podem apropriar-se da verdadeira história.

A “ADOÇÃO”

Entre as atrocidades da ditadura, o roubo de bebês e crianças dos pais biológicos, prisioneiros do Estado, consta como um dos crimes mais hediondos.

No filme, Anton tinha como empregado o pai de Maria, um líder sindical. A reivindicação de direitos trabalhistas era suficiente para sentenciar o sindicalista como pernicioso opositor do governo militar. Sua mãe era assistente universitária. Cargos suficientes para que fossem estigmatizados como comunistas, inimigos da pátria, sem nenhuma evidência e/ou prova real.

Anton revela sua versão, o algoz omite que sua madrinha teria ido à sua procura. Maria foi arrancada de sua família e de suas raízes. Viveu traumas cumulativos, psíquicos e pré-psíquicos. Foi privada da oportunidade de dar sentido aos registros no seu inconsciente, ante funções parentais tóxicas e perversas.

Será que, ao mergulhar nas piscinas, não reencontrava vivências primordiais, análogas às registradas no útero de sua mãe? Que amálgama de fatores levou Maria a ser uma nadadora?

A TROCA DO NOME

O nome é o berço da identidade. Plasma os desejos, as expectativas, os projetos identificatórios, os sonhos parentais. Legitima o laço social simbólico, marca como no palimpsesto a história de várias gerações.

Marca o lugar do infans numa árvore genealógica, na passagem geracional, onde circula a transmissão com os ancestrais (10).

Os pais, ao nomear o filho, num ato criativo e poético, vão além da biologia, constroem a subjetividade. A receptividade, a alegria no encontro de Maria com a família de origem, testemunham a qualidade amorosa dessas relações.

O nome é como uma pele psíquica, a sua troca provoca um buraco, um dilaceramento nessa pele.

Podemos conjecturar que Maria sentisse um estranhamento ante o novo nome, a nova função da antiga professora, a convivência com Anton, numa outra cultura e língua.

Quando os “adotantes” falsificam o nome, inscrevem-na numa constelação diabólica de relações perversas. Os delitos revelam um sistema bárbaro, que pretendia sepultar os primeiros anos de Maria – denegar os crimes cometidos.

Há uma violência primária constituinte da subjetividade quando os pais antecipam os projetos do filho e escolhem um nome.

Nas adoções ilegítimas, a violência pré-formada é diabólica, cruel, mentirosa e perversa, atingindo os alicerces fundamentais da subjetividade.

Há um planejamento bárbaro, permitido pelo Estado, para exterminar supostos inimigos e se apropriar da criança como se fosse um objeto fetiche para atender desejos e ocultar fragilidades (2).

Perder o passaporte seria um lapso, querendo se libertar de sua falsa identidade? Essa jovem guardou os registros sensoriais inconscientes como “objetos tesourizados” de sua história (5).

Ante o desespero e o assombro da filha, Anton confessa o nome dos verdadeiros pais, fio de Ariadne que permite que ela busque e encontre as raízes de sua eclipsada subjetividade.

O EXÍLIO

Enquanto o monstruoso casal voltava à sua terra natal, a protagonista fazia uma migração forçada, um exílio. Ambos tinham a exigência de reconstruir sua identidade. As feridas sediadas na sua alma cindida aparecem no aeroporto.

A narrativa das histórias de família, plena de sentido e as imagens nos álbuns de família permitem dar figurabilidade ao exílio e cerzir o tecido mental desgarrado pelo trauma, iniciar o trabalho de simbolização; construir uma membrana de contato e, portanto, ser capaz de memória; estar inserida na cultura através da linguagem.

A trágica adoção diabólica não permite buscar sua verdade histórica, desenvolver e expandir seu universo mental, mediante o pensamento. Viveu como uma estranha estrangeira e uma estrangeira de si mesma (3), num ambiente tóxico e asfixiante.

Na cidade natal, Maria conquistou a oportunidade de um encontro consigo, para poder ressignificar sua história. No momento em que tomou a decisão de ficar na Argentina, será ainda estrangeira dentro de si mesma, e não mais a estrangeira na Alemanha.

IMPUNIDADE, JUSTIÇA, PERDÃO? GRATIDÃO?

A família de Maria, tinha vivenciado a incerteza, a escuridão, o horror ante a dor impensável.

A madrinha é a porta-voz do desejo de justiça e da intenção de denunciar o verdugo, Maria se opõe. Impera a ambivalência entre o ódio ao homem malvado e, talvez, o amor esgarçado e a compaixão ante esse “pai”.

A tia foi capaz de respeitar a alteridade, o desejo da sobrinha. Num profundo gesto amoroso de generosidade, renuncia à sede de vingança e justiça.

Talvez Maria tenha tido uma experiência suficientemente boa, como um seio estético, pensante, inspirador e transformador, num vínculo apaixonado que teria lhe permitido ser grata a esse homem.

A MENTE PRIMORDIAL E A SENSORIALIDADE

A concepção da mente multidimensional e da personalidade total contempla a vigência da mente primordial.

As relações primeiras, marcadas pela sensorialidade, são o berço do sofrimento psíquico nos traumas precoces, antes da aquisição da linguagem. Esses traumas ficam congelados no psiquismo e se repetem à procura de compreensão.

Esses estados mentais primitivos resistem à violência das mentiras e dos segredos, cercados por uma couraça autista, como um tesouro a ser protegido, uma tentativa defensiva de preservação.

O PODER EVOCATIVO DA CANÇÃO DE NINAR

A canção – conhecida e estranha – provoca em Maria uma profunda turbulência emocional: registros de sensações que não alcançaram a representação verbal, são reavivadas. “Esse embrião pulsional psíquico-pré-psíquico” (9) foi soterrado. Esse núcleo cristalizado constitui um “outro inconsciente” (8) que pode se expressar na repetição como destino.

A melodia tem a força memorial do afeto e guarda o segredo da história na família de origem. Encontro de encantamentos que é na sua essência incognoscível e inominável.

Dá-se início a uma mudança catastrófica, portal para aterrissar numa triste realidade, pista libertadora para outros voos existenciais em companhia da verdade histórica possível.

Rememora, através dos sentimentos, o que Klein chama de “memory in feelings”, ou “ampliando sua ideia”, memória em sensações.

A FORÇA DO ENCONTRO COM TOPO GIGIO 

O encontro na vitrine do antiquário, revela a convulsão emocional que o boneco lhe provocava.

A formação das imagens surge graças à rêverie das funções parentais que criam uma alfabetização emocional, exercem uma função co-narrativa (6), ao significarem o mundo na polissemia das experiências compartilhadas.

O boneco podia representar: a hora de dormir; a despedida dos pais; o objeto transicional e infinitas outras possibilidades!

MENTIRAS E VERDADES

Em lógica, o falso é o contrário à verdade. É a falta de verdade, de autenticidade, a falta de relação entre as palavras, as ideias, as emoções e a realidade.

A verdade é sempre transitória. Permite que se aprenda da experiência. É possível conjecturar que Maria, quando sequestrada, já tinha os alicerces de sua subjetividade, permitindo enfrentar os traumas sem enlouquecer ou se retirar do mundo numa concha autística.

A mentira exige a presença do mentiroso. Mentir é induzir ao erro, falsificar, fingir, faltar ao prometido, quebrar um pacto (4). É um ato consciente. É preciso saber a verdade para desmenti-la. A falsidade seria a dobradiça entre a verdade e a mentira, transformação em veneno mental.

No fim do filme, o vínculo simbiótico entre o pensamento e a emoção, a verdade possível desmascarada, permite o crescimento de todos os personagens. Maria, ao sair da confusão enlouquecedora e alienante, decide ficar na sua terra natal, assim ela é autora, exercendo a liberdade que lhe foi arrancada.

A verdade temida testemunha a criminalidade e a perversidade do pai mentiroso: seu Super-Super-Eu sentenciava outrora máximas morais despojadas de princípios éticos, típicas das ditaduras. Quando ficou nu, Anton era o inimigo dos princípios civilizatórios.

Com essa inflexão ele perde a possessão da jovem como alucinado fetiche. Maria não mais precisou ser a testemunha da fertilidade do casal, pode iniciar um processo de historização e transformar o “destino”. As verdades são elos que alinhava com a narrativa afetiva da família, que permite reconstruir sua identidade (7).

Ao escutar a gravação de sua última festa de aniversário em Buenos Aires, ela também pôde acompanhar em espanhol a canção e, metaforicamente, renasce.

AUTORA
Alicia Beatriz Dorado de Lisondo
Analista Didata e Docente do SBPCamp e da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo (SBPSP) \ Filiada à Associação Psicanalítica Internacional (IPA) \ Co-fundadora do GEPCampinas \ Analista de crianças, adolescentes e adultos \ Vice Presidente da Associação Latino Americana de Observação de Bebés Método Esther Bick (ALOBB) e Formadora do Método de Observação Esther Bick \ Participante do GPPA Protocolo Prisma \ Coordenadora do Projeto S.O.S Brasil com respaldo da FEBRAPSI, FEPAL e IPA.
E-mail — alicia.beatriz.lisondo@gmail.com

REFERÊNCIAS
1.Filme comentado no Grupo de Estudos Psicanalíticos de Campinas (gepcampinas). Resumido a partir do artigo: Lisondo, A. B. D. O dia em que eu não nasci: história de uma adoção diabólica. Ide: Psicanálise e Cultura, São Paulo, v. 42, n. 69, p. 103-122, 2020.
2.Antonelli, C. (2015). O estrangeiro – eu e você. Verlag. Novas Edições Acadêmicas.
3.Alkolombe, P. (2008). Deseo de hijo. Pasión de hijo: esterilidad y técnicas reproductivas a la luz del psicoanálisis. Buenos Aires: Letra Viva.
4.Bianchedi, E. T.; Brcgazzi, C.; Crespo, C.; et. al. (1997). Las múltiples caras de la mentira. In Congreso Internacional del Centenario sobre la obra de W. R. Bion, Turim, Itália.
5.Gampel, Y. (2014). Psicanálise quando uma bomba cai. Revista Brasileira de Psicanálise, 48(4), 19-26.
6.Golse, B. (2020) Conferência: as interações precoces e a construção do espaço de narração. Oferecida no Entrelacer, online. Realizada em 25 de julho de 2020.
7.Lisondo, A. B. D. (2011). Filiação simbólica ou filiação diabólica? In I Jornada Brasileira Interdisciplinar sobre homoparentalidade. Universidade de São Paulo.
8.Marucco, N. C. (2007). Entre a recordação e o destino: a repetição. Revista Brasileira de Psicanálise, 41(1), 121-136.
9.Roussillon, R. (1995). Paradojas y situaciones fronterizas del psicoanálisis. Buenos Aires: Amorrortu. (Trabalho original publicado em 1991).
10.Tesone, J.E. (2009b). Inscrições transgeracionais no nome próprio. Jornal de Psicanálise, 42(76), 137-157, jun. 2009, São Paulo.
11.Trachtenberg, A. R. (2005). Trangeracionalidade de escravo a herdeiro: um destino entre gerações. São Paulo: Casa do Psicólogo.

TRAILER

FICHA TÉCNICA
Título original — Das Lied in Mir
Título português — O dia em que não nasci
Título inglês — The day I wasn’t born
Ano — 2011
País — Alemanha / Argentina
Duração — 95 min
Realização — Florian Micoud Cossen
Argumento — Florian Micoud Cossen, Elena von Saucken
Produção — Fabian Maubach, Jochen Laube, Brigitte Dithard, Birgit Metz, Claudia Gladziejewski
Cinematografia — Matthias Fleischer
Direcção Artística — Victoria Pedemonte
Edição — Philipp Thomas
Música — Matthias Klein
Elenco — Jessica Schwarz – Michael Gwisdek – Beatriz Spelzini – Rafael Ferro – Alfredo Castellani – Carlos Portaluppi – Marcela Ferrari

SINOPSE
Maria, de 3 anos é roubada de sua família de origem, quando seus pais desaparecem durante a ditadura argentina (1976-1983), numa trama atroz de segredos e mentiras (Lisondo, 2014).
Questões relativas à função da verdade e da mentira na constituição da vida psíquica da criança “adotada”, as consequências do roubo e sequestro de Maria na sua personalidade e na família de origem, o exílio, a mudança de nome e sobrenome, são temas abordados.