A VIDA NAS RUÍNAS — Mila From Mars (2004)

— ELSA COUCHINHO—

Mila from Mars inicia-se com diversas sequências que irrompem fragmentadas e dispersas deixando um lastro de confusão, de destruição e de abandono, dificultando a construção de um sentido.

Esta fragmentação é bem ilustrativa da fragmentação interna na adolescência gerada pela emergência pulsional, da necessária tolerância à dor psíquica e do trabalho psíquico exigido ao adolescente, exigências ainda maiores na presença de experiências traumáticas.

Paralelamente, ilustra também os processos de fragmentação originados pelas experiências traumáticas colectivas na sequência do colapso das  estruturas sócio-políticas e de cenários pós-guerra, como é o caso do contexto geográfico deste filme (Sérvia e Bulgária).

Mila é uma adolescente em fuga, tentando escapar a um homem violento e abusador. O seu corpo magro, sustentado pelas linhas frágeis das pernas, revela elementos desarmónicos e é consistente com a precariedade da sua estrutura psíquica.

Embora alguma desarmonia psico-motora, entre elementos infantis e adultos, seja habitualmente observada nos adolescentes, uma certa coerência acaba por emergir, conferindo-lhes alguma unidade. 

O rosto maquilhado de Mila apresenta-se negro e manchado, uma máscara que oculta a sua juventude revelando uma expressão obscura e assustadora. O corpo, balançando em eminente risco de colapso sobre uns sapatos de salto alto, ergue-se muito sexualizado e exposto.

A orfandade constitui-se como uma das heranças deixadas pelas guerras.  A particularidade das guerras civis é que, além da morte e das violações sexuais, sobretudo a mulheres, criam e alimentam ódios onde antes existiam vínculos de cooperação, atingindo estruturas familiares, desfazendo laços entre pessoas agora inimigas.

Tal como para o espectador, a razão da condição de órfã é desconhecida para a personagem Mila. Quem nos deu origem? Quem nos deu a vida e porquê? Questões que emergem na adolescência para dar resposta às questões: quem sou? como quero ser? À criança resta-lhe todo o espaço de fantasia facilmente ocupado pelo sentimento de rejeição e repulsa que deu origem ao seu abandono, comprometendo as dinâmicas de identificação e o processo de construção de identidade.

Num contexto social decadente, onde não emergiu ainda uma nova estrutura capaz de vitalizar e organizar o tecido social, observa-se a proliferação da prostituição, do tráfico de estupefacientes e de seres-humanos (sobretudo mulheres e crianças) bem como de máfias que exercem o poder por meio do terror e do poder económico.

O orfanato é um prolongamento deste contexto de abandono e decadência, a instituição submete-se às máfias ou estabelece conluios mafiosos onde as crianças e os jovens são a moeda de troca.

Assim, o contexto que deveria desempenhar as funções e os papéis protectores no lugar da família, apresenta o que Ferenczi (1) tão bem descreveu como “Confusão de Línguas”: à procura da criança de protecção e afecto, o adulto responde com a sexualidade adulta. Compreendemos assim a resposta de Mila, oferecendo favores sexuais em troca da sua permanência na instituição, bem como a sua vulnerabilidade à relação com um abusador.

Mila encontra refúgio no outro lado da fronteira, numa aldeia praticamente em ruínas. As zonas fronteiriças são palco de diversos interesses em contexto de guerra, pelo que as casas em ruínas e uma população envelhecida, são o cenário esperado.

As figuras dos avós, livres dos conflitos parentais e facilmente fantasiadas como dessexualizadas, oferecem protecção e abrigo. A aldeia/ avós tenta identificar Mila com alguma das suas crianças há muito ausentes e Mila, permanece num mutismo que espelha a sua desconfiança e o seu isolamento psíquico/ emocional.

O ambiente de estranheza sugerido permite fantasiar que Mila é o elemento estranho (from Mars) chegado à aldeia e que a aldeia, enquanto ambiente rural e cenário pós-apocalíptico (guerra), pode também ser Marte para Mila, um ambiente desconhecido e estranho. No diálogo que acontece no orfanato, a propósito de uma reportagem, os amigos de Mila ridicularizam os idosos entrevistados, a sua poderosa juventude permite-lhes rir da velhice ainda tão longínqua, denominando de Marte a aldeia retratada na TV. Mila não se une aos amigos e insiste que não deveriam rir, insiste que aqueles idosos são pessoas.

E é entre essas pessoas que Mila se permite ser acolhida e se refugia, passando da experiência de vínculo H para L (2). O seu mutismo prolonga-se ao longo de quatro meses, a par do terror de ser identificada e encontrada pelo seu abusador, este mutismo parece ilustrar a dificuldade em verbalizar as suas intensas dores psíquicas, o seu enorme desamparo. Mila só chora.

Os seus poucos pertences, guardados numa pequena bolsa, são reveladores do que poderia ser o seu quotidiano: uma pasta de dentes, uma lingerie vermelha, uma máquina de depilação… Mas também o livro “Ilusões” de Richard Bach e uma máquina fotográfica.

Choraria Mila a perda das ilusões infantis e a percepção da confusão de línguas que caracterizava a sua relação com os adultos? Choraria a perda definitiva da infância e adolescência por se encontrar grávida, encontrando-se agora empurrada para o papel de adulta e mãe?

Missy é o nome carinhoso que os idosos lhe dão: porque é uma menina (Miss) bonita. Na aldeia, Mila é bonita, desejada, adoptada e o uso do diminutivo reforça a diferenciação entre o lugar de Mila/ Missy e o lugar dos adultos.

Os idosos recordam repetidamente entre si as suas histórias, num ciclo que  caracteriza a dificuldade de elaborar o passado: as numerosas perdas, o presente de abandono onde as únicas ligações com o exterior são a televisão, a carrinha-mercearia e o traficante de drogas. 

Mila é um novo interlocutor a quem os idosos contam os seus segredos, histórias e conflitos, que ela escuta com curiosidade e paciência. Talvez a escuta e as relações que se vão estabelecendo lhe permitam aprender com  a sua capacidade de narrar e verbalizar a sua história de vida, criando movimentos de identificação introjectiva através dos quais Mila possa aprender com a experiência.

A gravidez de Mila avança e ela brinca entre as ruínas, num jogo de prazer e risco que expõe a sua omnipotência e a sua ambivalência em relação ao bebé.

A aldeia organiza-se para reabilitar a única casa livre que ainda tem telhado. Este recanto de Mila contrasta com o ambiente em volta, está cuidado, é colorido, é luminoso e dispõe de confortos (banheira). Mila e o seu bebé representam a vida, o futuro e a esperança, fortemente investidos pela aldeia. A gravidez e o futuro bebé carregam a possibilidade de uma reparação, das ruínas Mila/ aldeia, ruínas de corpos abusados que poderão  re-nascer num corpo criativo.

Na comemoração da passagem de ano, Mila parece dar-se conta do  anacronismo do ritual da aldeia, embora estes idosos sejam pessoas, este não é o seu ambiente, nem o do seu bebé.

Durante o trabalho de parto, Mila continua a não aliviar a sua dor, a não gritar a sua dor, há ainda muito que não consegue expressar e que silencia. Os seus gritos mudos evidenciam uma dor ainda sem nome e uma im possibilidade de a pensar.

O nascimento do bebé na época natalícia, nessa aldeia sem crianças, tem a aparência de um milagre e, tal como o Messias de há 2000 anos, o bebé é  baptizado Christo.

O grupo/ aldeia organiza-se numa dinâmica de Pressuposto Básico de Dependência descrito por Bion (3), aguarda um Líder Messiânico (Christo) que não repetirá os traumas do passado (“não deve ir para o exército), “será um sapateiro” trazendo as ferramentas necessárias para um novo caminho, satisfazendo os desejos do grupo.

Christo pertence-lhes e Mila pode ir embora. Esta apropriação do bebé e o novo papel de mãe geram grande turbulência emocional, Mila oscila entre o infanticídio (revelador novamente da sua ambivalência) e a tentativa de suicídio.

De uma existência algo mítica e onírica, passa para a dimensão real a personagem do pastor/ professor que intervém na sua tentativa de suicídio e que a ensina a fazer o nó da forca, devolvendo-lhe a escolha de viver ou morrer. Esta intervenção permite enfrentar a realidade concreta da morte e desperta a curiosidade de Mila sobre esta personagem que vive à margem da aldeia.

Frente a frente, estalo a estalo, constrói-se a trama de raiva, violência, curiosidade e erotismo, da qual Mila tenta sair usando como moeda de troca a sexualidade, como fez no orfanato, mas ali é repudiada. Mila tem de crescer pois na torre/ casa do professor não há lugar para duas crianças. 

O professor chegou à aldeia cheio de livros, reconstruiu a escola onde queria ensinar as únicas três crianças que havia na altura, mas no final das férias de verão as crianças regressaram à cidade. Mais tarde trouxe ovelhas e tornou-se pastor: um mistério para toda a aldeia.

Esse mistério talvez tenha sido suportado pela diferença de que o professor é portador, representando uma forma de aprender com a experiência traumática da guerra, de integrar o conhecimento de outros seres-humanos através da leitura de livros e partilhar generosamente o seu saber (ensinar). Uma personagem que transporta a possibilidade de um outro vínculo, o vínculo K.

Obrigado a queimar os livros que lhe restam, preserva o essencial, quatro votos budistas: preservar-se; combater a destruição; dominar os dharmas e alcançar o irrealizável.

Para Mila, o sexo é ainda a única via para se sentir viva e livre, mas na torre ela assume a responsabilidade de cuidar do lar, partilhando as tarefas com o professor e aprende a amar.

O medo do seu abusador (Alex) alimenta o desejo de vingança, numa lógica de lei de talião: matar quem lhe matou a infância. Contudo, o professor não se alia a este desejo, Mila foge mas regressa, a esperança vence o medo.

Um novo caminho pode começar: Mila é o seu nome e Assen o dele.

Este primeiro filme da realizadora é dedicado a um dos seus professores e nos avisos finais surge a desconstrução de preconceitos (aldeia, guardas-fronteiriços, orfanatos) mas também a viagem de Christo, Mila e Assen no futuro. Um futuro que pode existir.

AUTORA
Elsa Couchinho
Psicanalista Associada da Sociedade Portuguesa de Psicanálise e da International Psychoanalytic Association\ Psicanalista de Crianças e Adolescentes \ Docente do Instituto de Psicanálise
E-mail — elcouchinho@gmail.com

REFERÊNCIAS 
Filme discutido no dia 09.04.2022 no Grupo de Reflexão “Adolescência & Cinema” da Sociedade Portuguesa de Psicanálise, coordenado por Ana Belchior Melícias e Elsa Couchinho.
1) Ferenczi, S. (1932). Confusion of Tongues Between the Adult and the Child. Contemporary Psychoanalysis , vol. 24 (2), 1988: 196-206.
2) Bion, W. (1962). Learning from Experiencein The Complete Works of W.R. Bion, Vol.IV (pp 263-363). Routledge.
3) Bion, W.R. (1961). Experiences in Groups and Other Papers in The Complete Works of W.R. Bion, Vol.IV (pp 101-245). Routledge.

TRAILER

FICHA TÉCNICA
Título original — Mila ot Mars
Título inglês — Mila from Mars
Ano — 2004
Duração — 91 min
País — Bulgária
Direção —Zornitsa Sophia
Argumento — Zornitsa Sophia
Produção — Dobromir Chochov; Nikolay Kirov; Mila Kirova; Zornitsa Sophia e David Varod
Cinematografia — Alexander Krumov e Rumen Vasilev
Edição — Alexander Etimov
Som — Momchil Bozhkov e Valentin Orlov
Design de produção e Adereços – Greta Velikova
Maquilhagem — Greta Velikova
Música — Rumen Toskov
Elenco — Vesela Kazakova; Assen Blatechki; Lyubomir Popov; Yordan Bikov; Zlatina Todeva; Vasil Vasilev.Zueka; Veliko Stoyanov

SINOPSE
Num cenário de degradação social e ainda no rescaldo de uma guerra cívil, uma adolescente encontra abrigo numa aldeia fronteiriça. Entre os traumas colectivos e os traumas individuais terá de encontrar formas de sobreviver e crescer.