OBSERVAR: NATURE <-> NURTURE — Babies (2010)

— ANA BELCHIOR MELÍCIAS —

Quatro pontos cardeais: Norte, Sul, Este, Oeste. Bayanchandmani na zona rural da Mongólia, Opuwo nas planícies desérticas da Namíbia, as cidades de Tóquio no Japão e São Francisco nos E.U.A.

Quatro línguas: Mongol, OtjiHimba, Japonês e Inglês.

Quatro pais-homens cujo envolvimento varia consoante a cultura.

Quatro mulheres prestes a dar à luz: duas com experiência na maternidade e duas a ter o primeiro filho.

Quatro bebés:

Bayarjargal vive numa yurt na Mongólia, com um irmão mais velho e os pais, dedicados ao pastoreio de gado. As interações de Bayar — como é tratado — são sobretudo com animais (vacas, gatos, galos e cabras).

Ponijao, a menina africana, cresce numa aldeia tribal nas planícies da Namíbia com a mãe e oito irmãos. Explora o ambiente, interagindo com outras mães e crianças e evoca o provérbio também africano: “é preciso uma aldeia para educar uma criança”.

Mari vive num arranha-céu em Tóquio, é a primeira filha de pais que se apresentam ora nas funções parentais ora no trabalho ao computador. Fascinada pela tecnologia e tendo acesso a todos os brinquedos modernos, Mari desenvolve hábeis competências.

Finalmente Hattie de São Francisco, também é a primeira filha de um casal, que lê livros sobre parentalidade e, com ela, frequentam vários grupos de apoio e estimulação para bebés tangenciando o conhecido estilo “by the book“.

Acompanhamos os quatro bebés desde o parto/nascimento até aos primeiros passos e todos fazem “o que os bebés fazem: nascem; são alimentados, banhados; choram; brincam; aprendem a sentar-se; a gatinhar; e a andar; e começam a explorar os seus mundos. Três deles vivem com gatos amorosos que deixariam Hemingway orgulhoso.”(1)

Somos atraídos por momentos cativantes e/ou inquietantes: Mari faz birra quando não consegue um encaixe num brinquedo, mas revela uma motricidade bem desenvolvida com um auto-colante. Hattie foge entediada das aulas de estimulação sensorial, mostrando-se igualmente decidida e hábil ao descascar a sua própria banana. Ponijao, beija de boca aberta um cão, brinca com ossos na terra, bebe diretamente de um riacho e equilibra um vasilhame cilíndrico na cabeça mal começa a andar. As interações de Bayar com os animais são inusitadas — uma cabra bebendo da água onde ele toma banho ou um galo passeando pela sua cama —, tal como o ciúme do irmão ou as palmadas da mãe.

Observando as quatro famílias — duas a viver na natureza, um estilo de vida comunitário mais ‘orgânico’, e duas em cidades industrializadas cuja organização comunitária é mais ‘artificial’ — emerge a questão contemporânea da sobre-estimulação e do excesso de dispositivos digitais, favorecendo a ‘epidemia atual’ do dito défice de atenção. As crianças têm de ser entretidas, não podem ficar aborrecidas, não lhes é dado tempo para no dolce far niente e, no seu próprio ritmo, explorarem o ambiente alargando assim o espaço interior de curiosidade e conhecimento.

O realizador, Thomas Balmès, sem comentários de qualquer tipo, apresenta-nos diferentes maneiras de criar um bebé: “Culturalmente, sabemos qual é a maneira certa de comer, de pensar, de escrever, de fazer tudo. É crucial mudar de perspetiva e perceber que há muitas maneiras de fazer as coisas.”

É também crucial perceber que as mães de qualquer cultura têm capacidade de rêverie, de holding, handling e apresentação do objeto, funções winnicottianas que caracterizam as mães “suficientemente boas”.

O filme não nos oferece nem um drama emocionante, nem um “elevado índice de fofura”. Envolve-nos, sem diálogos ou narração, sintonizando-nos com a fase pré-verbal dos bebés, ao registar o desenvolvimento físico, o desabrochar da personalidade e as formas de socialização, sempre capturadas do ponto de vista do bebé. Os pais oferecem-se através de partes dos seus corpos — seios, mãos, braços e colos masculinos e femininos — refletindo o objeto parcial kleiniano próprio desta fase.

Dentro da fascinante pluralidade cultural, as imagens sucedem-se organicamente por momentos significativos: a preparação para o parto, o nascimento — ora natural ora medicalizado/ocidentalizado —, o pós-parto, o apoio às mães, a presença/ausência dos pais, a exploração e liberdade de movimentos.

Apreciamos as semelhanças entre as diferenças, ilustradas pela edição das imagens consecutivas dos bebés a gatinhar em paisagens diferentes, como que atestando a universalidade do crescimento do bebé humano pois, quando tudo corre “suficientemente bem, “…todos os bebés riem e choram. Todos os bebés brigam com os irmãos, sentem curiosidade pelo ambiente que os rodeia e sorriem quando veem o rosto da mãe.”(2)

A antropologia, a sociologia, a psicologia, os teóricos do desenvolvimento, os modelos etnográficos, etc., investigam o ser humano na sua diversidade: as dinâmicas e organizações socio-culturais e o desenvolvimento físico, cognitivo e psicossocial.

A psicanálise poderia saturar o filme com uma panóplia de conceitos teóricos sobre o nascimento e o funcionamento primordial do psiquismo na complementariedade da dinâmica Nature (biológico) e Nurture (ambiente socio-cultural), costurada atualmente no conceito de epigenética (6): organização progressiva numa unidade psicossoma sem dissociar a genética inata das aquisições ambientais.

Mas este filme não pretende teorizar ou generalizar apresentando uma só criança como representante fiel da sua cultura, também não está interessado em explorar o papel dos diferentes contextos e o seu impacto no crescimento e na parentalidade, nem em desafiar as suposições colonizadoras do primeiro mundo sobre o estilo de vida noutras latitudes.

A frase de Riobaldo no Grande Sertão Veredas de Guimarães Rosa — “uma criança nasceu, o mundo tornou a começar” — parece orientar a câmera do realizador, agregando-se a ‘capacidade negativa’ de Bion e a ‘mente receptiva’ de Houzel, conceitos pilares da observação de bebés na família pelo método Bick.

E não sendo Balmès um “psi” — uma considerável mais-valia — este é um filme que OBSERVA e nos posiciona como OBSERVADORES.

E é em algumas entrevistas (3, 4) que encontramos a estreita sintonia entre a sua metodologia cinematográfica e o método Bick, pois a observação convoca o sentir, requer o não-saber, exige tempo, como nos confirma o realizador: “… se lhes dermos tempo e deixarmos que algo aconteça, até a coisa mais simples, como um bebé a olhar para moscas ou a fazer barulho, pode tornar-se fascinante. Mas é preciso dar-lhe tempo.” Continua: “a técnica, especialmente o uso de takes muito longos, tem o efeito de levar o espectador a procurar o seu interesse no quadro; em vez de ser o realizador a fazer todas as escolhas pelo público.” O bioninano ‘fato selecionado’ (5) —”uma experiência emocional de descoberta de coerência, a algo que parece disperso, caótico para constituir um todo com significado” —, não é oferecido, exige um movimento individual.

Balmès admite que a sua técnica “cria um estado de angústia no espectador, onde não é possível esquecer completamente a ‘nurturing‘ e gostaria que o público regredisse, pois a forma tornou-se tão importante quanto o próprio tema. Estamos a viver a experiência com o bebé.”

A experiência de vida de um bebé até ao primeiro ano de vida e a experiência de observar um bebé na família, é de uma intensidade insuspeitada pois as angústias primárias da relação precoce evocadas no observador, inconscientes e profundamente entrelaçadas nas dinâmicas transferenciais, serão posteriormente metabolizadas na escrita e acima de tudo no grupo de supervisão. Mas a vivência da formação Bick, na contramão da aprendizagem teórica, gera ainda resistências nas instituições psicanalíticas, pois convoca a contratransferência do observador, ora dolorosa, ora encantatória, numa abrangência emocional e sensorial que conecta o mundo precoce do observador ao mundo primordial observado.

Voltamos a Balmès: “não há narração pois esta conduz o espectador para certas intenções que não lhe deixam espaço para realmente ver o filme”. Também o observador não conta com a conversa/narração (e menos ainda a interpretação), para poder realmente observar a relação mãe/pai-bebé. Terá de construir o seu papel de observador, contando com o olhar/observar em múltiplas direções e dimensões — internas e externas — no ambiente do bebé com a sua família, despido de teorias e intelectualizações para acolher — sem agir ou ceder a aconselhamentos de suposto saber — as sensações, angústias, inquietações desta fase primordial.

“Tentávamos estar lá quando as coisas eram diferentes, e não descrever etnograficamente as culturas”, sintoniza-se com o observador que ao não dirigir/saturar o olhar-escutar, mantém-se em abertura para o que se vier a passar naquele ambiente (casa de família) e naquela díade, tríade (com o observador).

Ora identificado com o bebé, ora com a mãe, ora com o pai, o observador vai afinando a capacidade de olhar-escutar — movimento oscilante fora (bebé-na-família) e dentro (contratransferência) —, alargando assim o seu instrumental clínico de conter e não agir, corporal ou verbalmente, prevenindo até as interpretações agidas. É também assim que sentiu Balmès perante “as vidas a desenrolar-se no ecrã e comparando o que está a acontecer com os outros cenários e com as nossas próprias experiências e cultura”.

Como na seleção das famílias suficientemente estruturadas para a observação Bick, Balmès buscava “uma qualidade de amor real, em comum com todos os pais… eles tinham de querer muito ter um filho, para que à filmagem não se somassem os problemas [do dia a dia] de criar uma criança.”

O filme busca a beleza da verdade, sem higienizações ou branqueamentos, frente a este mundo primitivo/corporal/sensorial, de mucos e secreções, mas não se livrou da concretude puritana superegóica: “Nos E.U.A, tivemos de remover um plano de uma mãe a usar uma bomba de extração de leite para obter a classificação etária de que precisávamos… Com o cinema americano tão cheio de violência, acho isto irónico.”

Celebrando marcos universais — nascimento, amamentação, alimentação, banhos, atividades, o gatinhar e o andar — propicia indagações e conjeturas em working-through, ao mostrar tanto aquilo que nos diferencia, como o que nos é comum.

Aparentemente desprovido de agenda política ou filosófica talvez o filme sustente, sutilmente, que toda a ‘civilização’ do mundo não se traduz necessária e diretamente numa melhor parentalidade.

AUTORA
Ana Belchior Melícias
Psicanalista da Sociedade Portuguesa de Psicanálise (SPP) \ Analista de Crianças e Adolescentes \ Docente do Instituto de Psicanálise \ Formadora do Método Bick \ Co-fundadora do Blog Cinema & Psicanálise \ Editora da Freud & Companhia \ Co-fundadora da APOBB (Associação Portuguesa de Observação de Bebés – método Bick)
E-mail — mail@anamelicias.com

REFERÊNCIAS
1.The Associated Press, 14 Out 2020 (https://www.hollywoodreporter.com/movies/movie-reviews/babies-film-review-29531/
2.Four Babies, 12 Abr 2020 (https://youaremom.com/babies/four-babies/)
3.Entrevista com Thomas Balmès por Renée Scolaro Mora, 6 de mai de 2010 (https://www.popmatters.com/125153-interview-with-thomas-balmes-2496198688.html)
4.Babies: Thomas Balmes interview, por Peter Galvin, 4 May 2011 (https://www.sbs.com.au/whats-on/article/babies-thomas-balmes-interview/reklxo26s)
5.Marinho, N. C. Fato selecionado (https://www.scribd.com/document/401295800/Fato-Selecionado)
6.Marcelli, D. (2005). Infância e psicopatologia. Climepsi.

TRAILER

SINOPSE
Bebés é um olhar cativante sobre um ano na vida de quatro bebés nascidos em diferentes culturas. Thomas Balmès diz ter escolhido quatro países “não tanto como uma cobertura geográfica do mundo, mas com uma [seleção de] conexões com a modernidade. Portanto, absolutamente nenhuma conexão na Namíbia, um pouco mais de conexão na Mongólia, depois a América, e por último, o Japão, que para mim é quase como uma atmosfera de ficção científica. Cada país é mais uma espécie de metáfora de outra coisa, em oposição a descrever a cultura local.”(1)
O realizador registou as vidas destes quatro bebés por um período de 400 dias ao longo de dois anos e editou as suas imagens em 79 minutos para revelar a interligação da experiência humana.

FICHA TÉCNICA
Título original — Bébés
Título inglês — Babies
Título português — Bebés (PT)
Ano — 2010
País — França
Duração — 79 min
Realizador — Thomas Balmès
Argumento — Alain Chabat e Thomas Balmès
Produção — Alain Chabat, Amandine Billot e Christine Rouxel
Fotografia — Jérôme Alméras, Frazer Bradshaw, Steeven Petitteville
Música — Bruno Coulais
Edição — Reynald Bertrand, Craig McKay
Elenco — Ponijao – Bayarjargal – Mari – Hattie