NA PELE UM DO OUTRO — Call Me by Your Name (2017)

SOFIA FIGUEIREDO —

Em Call me by your name (2017) sente-se a respiração e os batimentos cardíacos das personagens em sincronia com os próprios batimentos. Elio (magistralmente interpretado por Timothée Chalamet) e Oliver (Armie Hammer), são as personagens principais. Uma história de amor, o amor e a dor como experiências universais, não limitadas pelo género, cultura ou época. O filme transcende a linguagem cinematográfica e transforma-se num portal no tempo.

Numa filmagem com uma única câmara, somos colocados dentro do filme e levados para um lugar onde a tragédia é transformada numa experiência estética, guiados para o interior das personagens, e capturados para o interior de nós próprios. Uma experiência única e íntima, na qual devemos entrar, à semelhança de uma sessão de análise, com “capacidade negativa” (1) entregues à incerteza, aos mistérios e dúvidas sem nos apressarmos numa atribuição de significados. Esperar para que a curiosidade possa ir evoluindo, a partir dos seus elementos desordenados e sem significado para formulações certeiras.

Call me by your name ata e desata nós, desbrava travessias pouco exploradas, suspensões perigosas, silêncios despercebidos e linhas de perigo. Ambientes sócio-culturais e formações históricas diferentes para nos tirar de hábitos mentais e territórios já bem mapeados. 

Primeiro encontro, a obsessão fervorosa de Elio por Oliver e os seus esforços para intelectualizar e suprimir o seu desejo, atribuindo a Oliver um comportamento distante, ao mesmo tempo que se questiona se nas suas interações haverá sempre uma pretensão de indiferença. 

A repressão (ainda) é eficaz na sua função defensiva, o desejo ainda não tem palavra, há uma dissonância entre o verbal e o pensamento na dinâmica do flirt entre os dois protagonistas, o desejo entre Elio e Oliver é essencialmente vivido pelo que fica subentendido, não tanto pelo que é dito. A natureza implícita de namoro e do flirt, neste primeiro tempo, resulta talvez da incerteza que ambos têm em relação à atração que sentem um pelo outro, o que cria paradoxos entre a ação e a palavra. A dinâmica de troca não verbal entre eles é complexa e multifacetada, mas ambos, numa intenção implícita um do outro, revelam não ter nada a esconder. 

Elio é provocado pela presença intensa de Oliver, emergimos numa sensualidade intensa, através da sensorialidade de Elio, seja no olhar, na pele, no cheiro, nos sabores, ou nos sons. O romance entre os dois vai florescendo numa enorme intimidade, física e psíquica. Elio e Oliver nadam juntos no rio, jogam voleibol, os corpos andam na casa despidos pelo Verão, fazem longas caminhadas pela cidade, passeiam nas bicicletas, dançam, a liberdade dos movimentos sintoniza-se com a liberdade dos afectos.

A atmosfera de “não dito” sustenta-se na restrição daquilo que é dito. Há um ato de codificar verbalmente o próprio desejo, inatingível e fugaz, indicando a vontade de entender e dar sentido ao desejo, algo que Elio e Oliver ao mesmo tempo parecem temer, o confronto com o desejo de um pelo outro. Oscilam entre serem assertivos e demonstrarem contenção. Concomitantemente, Oliver ‘flirta’ com uma rapariga e Elio tem um relacionamento sexual com uma amiga, Marzia, do qual se vangloria perante Oliver, para avaliar a sua reação, mesmo sentindo-se cada vez mais atraído por ele. 

Segundo tempo, a revelação. Numa cena em que Elio e Oliver estão sentados à beira do lago, depois de um dia de atividades juntos, Oliver pergunta a Elio “Em que é que estás a pensar?” e Elio de forma tímida e enigmática diz: “it’s private”. A verdade é que o desejo está a fervilhar dentro dele e ele está a tentar perceber qual é o significado daquilo que está a sentir. O corpo deseja e a mente sente de forma intensa emoções como raiva, ciúme, ansiedade, saudade e desejo, tudo misturado e ao mesmo tempo. Até que, finalmente, a cena culmina com Elio a querer então partilhar o que sente com Oliver, e revela o que antes era confidencial, verbaliza o que estava silenciado na palavra: “I was thinking about you”. Há um triunfo vivido em Elio nesta revelação, o desejo não pode mais ser contido, nem em Elio nem em Oliver. 

Elio e Oliver expandem o desejo, a sua complexidade e a sua ligação com a subjectividade. São trocados bilhetes entre os dois, Elio quer acabar com o silêncio e Oliver sugere um encontro à meia noite. À meia-noite, então, eles encontram-se e os dois dormem juntos pela primeira vez. 

Elio parece representar para Oliver a inocência da descoberta, Oliver para Elio uma versão mais livre de si, mais despreocupada e espontânea em relação ao mundo. Elio repete muitos comportamentos de Oliver, e torna-os seus, mesmo o facto de ter-se envolvido com Marzia (amiga de infância), num movimento para provocar Oliver, depois de ver Oliver num flirt com uma outra rapariga. Os movimentos identificatórios de Elio permitem experimentar coisas novas, pois Oliver tem essa liberdade. Elio também espera que Oliver o ajude a descobrir o que é isto de ser “crescido”, adulto, que o ajude a perceber quem é que ele é, e quem é que pode vir a ser. É assim que Elio ouve a voz de Oliver ao dizer-lhe “grow up”

Elio é um rapaz prodígio, mas diz que aquilo que verdadeiramente é importante ele ainda não sabe. Elio tem o conhecimento dos livros, cita filósofos, discute autores com Oliver, compõe música, toca piano, é poliglota, mas, afirma ele, não sabe falar sobre as coisas mais importantes, “não sou bom com as palavras”, expõe a sua vulnerabilidade.

Call me by your name, eles podem perder-se um no outro, chama-me pelo teu nome que eu chamo-te pelo meu, Elio é Oliver e Oliver é Elio.  Os nomes (que se entrelaçam como anagramas e espelham-se mutuamente) são trocados num dos encontros sexuais, mas essa fusão não se esgota aí. A fusão existe no corpo, é materializada no concreto, um e o outro são o mesmo, mas é também vivenciada no psiquismo, podem perder-se um no outro. 

Elio encontra-se num estado de confusão e vulnerabilidade, fica brevemente em conflito com o que viveu, mas passado pouco tempo reaparece a paixão e o sentimento de completude (ou será fusão?) com Oliver. Inicia um ato masturbatório com um pêssego, e aparece Oliver que se funde na cena, na fruta, no sémen, um e o outro são um só. Oliver é cuidadoso e atento e tem uma relação protetora com Elio, “Não vais deitar sangue do nariz aqui comigo, vais?”, diz-lhe a certa altura, e proporciona-lhe uma sensação de segurança e conforto.

Num terceiro tempo, impõe-se a partida de Oliver, o Verão chega ao fim. Elio e Oliver vêem-se vencidos pela incerteza e pelo desejo, e, incentivados pelos pais de Elio fazem uma breve viagem à cidade de Bérgamo, antes de Oliver regressar aos Estados Unidos. Elio, agora imerso na dor da separação, telefona à mãe para o ir buscar à estação de comboios e levar para casa. Os pais de Elio, conscientes da relação entre ambos — dando conta da naturalidade com que a situação homoerótica é vivida pelos amigos e pela família, num paralelismo com a Grécia Antiga e em contraste com outras épocas recentes — contêm a dor de Elio, e o pai inaugura uma conversa de uma verdade e beleza ampliadas, como se aquele momento condensasse o “não dito” ao longo de todo o Verão. 

Livre do preconceito que recai tantas vezes sobre a homossexualidade, diz-lhe que muitos pais fariam tudo para que o que aconteceu desaparecesse, para que esquecesse, ou fingisse que nunca existiu, mas ele não é esse tipo de pai e confessa até que teve um relacionamento semelhante na sua juventude. Pede a Elio que aprenda com a dor, em vez de tentar livrar-se dela demasiado depressa, em vez disso deve transformá-la. “Se houver uma chama não a apague”, diz. 

Palavras transcritas do pai na cena mencionada: “Agora, você sabe mais sobre isso do que eu. Sabe, eu sabia que chegaria a isso. Talvez sempre tenha sido destinado a ser. Sabe, se é isso, então não quero saber como é não o ter conhecido. Você sabe, não seja como eu, Elio. Não viva a vida como eu. Não fuja. Não tenha medo. Não tenha vergonha. Você tem que aprender a parar. Você tem que aprender a ir devagar. Você tem que aprender a sentir. Você tem que aprender a amar. Você tem que aprender a viver. Você tem que aprender a ser.”

A rodagem da câmara fecha com um último telefonema de Oliver à família de Elio, durante o Hanukkah, para lhes dizer que está noivo. Elio chama Oliver pelo seu nome e Oliver pelo nome dele, Oliver diz-lhe que se lembra de tudo. Elio desliga a chamada, olha fixamente as chamas na lareira, enquanto na casa preparam a festa. O filme termina quando Elio (ainda sentado à beira da lareira) lança um olhar para a câmara (parecendo mais alegre), enquanto a mãe o chama. Há uma resistência catalisadora de possibilidades também neste final, em que podem ser construídas novas formas de ser, pensar e agir, e um porvir outro. 

AUTORA
Sofia Figueiredo
Psicóloga Clínica \ Psicoterapeuta e Psicanalista de adultos, crianças e adolescentes nos Hospitais CUF Sintra e CUF Tejo \
Membro da Sociedade Portuguesa de Psicanálise (SPP) 
E-mail — asrfigueiredo@gmail.com

REFERÊNCIAS
1.Bion, W. R. (1962). Learning from experience. Karnac. 

TRAILER

FICHA TÉCNICA
Título original — Call Me by Your Name 
Título português — Chama-me pelo teu nome (PT) / Me chame pelo seu nome (BR)
Ano — 2017
Duração — 132 min
País — E.U.A – Itália – França – Brasil
Direção — Luca Guadagnigno
Roteiro —James Ivory, baseado na obra homónima de André Aciman
Produção — Peter Spears
Edição — Walter Fanaso
Música — Sufjan Stevens
Direção de arte — Sayombhu Mukdeeprom
Elenco — Timothée Chalamet – Armie Hammer – Michael Stuhlbarg – Amira Casar – Esther Garrel – Victoire Du Bois 

SINOPSE
Verão de 1983, Elio, de 17 anos, vive com a família em Itália, numa bela mansão do século XVII. O pai, um professor de arqueologia de renome, convida Oliver, um norte-americano de 24 anos, a passar alguns meses em sua casa, para o ajudar num projeto. Extraordinariamente inteligente, culto e educado, Elio é também um rapaz tímido e pouco preparado para a vida, que pouco tem em comum com a personalidade exuberante de Oliver. Apesar disso, à medida que o tempo vai passando e se vão conhecendo mais profundamente, uma atração difícil de ignorar surge entre os dois.
“Chama-me pelo Teu Nome” é a última parte da trilogia “Desejo”, de que também fazem parte os filmes de Guadagnino “Eu Sou o Amor” (2009) e “Mergulho Profundo” (2015).