ALÉM DA COR ROSA — My Life in Pink (1997)

— ALICE CUNHA —
O filme “Minha vida em cor de rosa” é um filme bastante corajoso e profundo, retratando a vida de uma criança transexual, trazendo reflexões complexas sobre a constituição psíquica humana.
A película mostra de forma muito sensível o mundo em cor de rosa de Ludovic, uma criança de 7 anos de idade, que tem seu conflito revelado quando percebe que sua identidade de gênero biológica não condiz com a sua percepção de gênero do desejo e se autodeclara uma menina. Porém, o personagem vai acabar lidando com uma série de conflitos sociais diante da sua visão de si, sendo necessária uma mudança de local de moradia para, ela e a sua família, obterem mais sossego diante do rechaço social devido à sua identidade desejante.
A primeira cena é bastante categórica, quando, em uma festa entre famílias, Ludovic se apresenta com um vestido. Todos começam a rir, quando repreendida pelos pais responde: “Eu só queria estar bonita”. Temos então um riquíssimo material de análise, diante dessa cena, na qual o personagem demonstra que, para a sua identidade ser bela, precisa ser feminina; é necessário ser uma menina para que se sinta bem, pois a beleza está ligada ao ser mulher para Ludovic.
Freud, em “Os três ensaios sobre a teoria da sexualidade” (3), descreve que a sexualidade infantil existe de forma diferente da de um adulto e que essa mesma sexualidade infantil é responsável pela estruturação psíquica de um sujeito. É nesse ponto que Cunha (1), em um olhar contemporâneo psicanalítico, descreve a transexualidade como o “corpo inquietante”, pois a criança transexual, diferente do adulto, exibe a sua identificação sem amarras sociais. O desejo da criança trans em ser ela mesma não resiste à barreira do supereu e surge como uma pulsão que o recalque não consegue controlar.
Cunha (1) cita também a pessoa trans que tem seu reconhecimento somente na vida adulta, podendo demonstrar uma barreira do recalque mais intensa, pois consegue ter a sua repressão mais longa, já que somente na fase mais madura consegue ter a sua liberdade de expressão de gênero reconhecida, o que não acontece na criança trans, pois é insuportável para o sujeito lidar com quaisquer características que não remetam ao seu desejo de identificação. Assim acontece com Ludovic, onde sua inquietação o leva a se revelar para uma sociedade como uma menina, mesmo sendo tolhido e tido como uma brincadeira, mas, para o personagem, é a sua verdade que está em forma.
Cecarelli (2), em sua obra “Transexualidades”, cita o conceito de sentimento de pertencimento, onde o sujeito tem a noção de que pertence ao outro sexo, oposto ao seu nascimento, assim como podemos notar em Ludovic, que se sente pertencer ao sexo feminino. Cecarelli cita também que, em certas relações familiares de pessoas trans, o sujeito trans nasce em um local em que o desejo era ter uma criança do mesmo sexo com o qual a identificação ocorre. É nesse ponto que Dolto (7) diz que o sujeito é constituído em sua formação pelo dito e não dito, consciente e inconsciente; em sua perspectiva, o não dito se refere ao que é inconscientemente formado e o dito ao que é passado de forma consciente. Diante desse ponto, podemos destacar a grande cena do filme onde, em uma consulta com a psicóloga, os pais dizem: “Queríamos ter tido uma menina, para então formarmos dois casais de filhos”, sendo Ludovic a criança que fecharia a constituição familiar dessa prole. Ludovic pode ter se tornado a menina que selaria o desejo dos pais, onde o dito foi o ser menino, mas o não dito foi o ser menina. Torna-se então a menina do desejo parental, pois, como diria Freud (7) “o eu não é senhor na sua própria casa”, sendo o inconsciente o grande formador do sujeito.
Em “Os romances familiares”, Freud (4) destaca como cada pessoa nasce com uma formação bastante específica em cada família, que possui sua natureza, história e cultura, tendo cada sujeito desenvolvido uma função. Nessa perspectiva, a função da protagonista da história é ser a segunda menina da família, construída por um desejo não dito dos pais, construindo um mundo de fantasia em cor de rosa para lidar com suas questões.
Em meio a esses dois importantes enfoques, podemos analisar a priori a história rica que temos nesse filme. A forma de apresentação de Ludovic e seu lugar no romance familiar, são grandes norteadores da análise aqui em questão, pois serão remetidos a todo momento a uma questão pontual e marcante em suas características, por nos darem uma noção de como o personagem se reconhece e a sua dinâmica familiar.
Ludovic utiliza sua roupa íntima de forma contrária, rechaçando qualquer indício de masculinidade que possa contrariar a sua feminilidade, como é exibido em uma das cenas. Em “A cabeça da Medusa”, Freud (5) destaca o momento da descoberta da criança sobre os genitais, criando consciência e diferenciação; e um certo temor ao reconhecer nos pais tal acontecimento. Diante dessa perspectiva, podemos notar que Ludovic percebe e tenta negar a genitália ao colocar a cueca para trás e ficar com a frente lisa para não se confrontar com seu genital, tentando ocultar seu corpo.
Existe na história do personagem uma clara identificação com a feminilidade da mãe e a recusa da masculinidade do pai, como quando, a mãe de Ludovic lhe corta o cabelo no mesmo formato do dela, havendo então uma clara conexão entre mãe e filha. A identificação com a feminilidade da mãe, simbolizada no cabelo, exemplifica o romance familiar da filha mais nova, passada inconscientemente pelo não dito, como afirmaria Dolto (7) na constituição corporal de Ludovic.
Entretanto, tudo começa a mudar quando, durante uma apresentação da escola, Ludovic prende a sua colega, que seria a princesa e disfarça-se com a mesma roupa dela para tentar beijar o seu amado, que seria o príncipe da história. Entretanto seu plano não funciona e torna-se uma vergonha para toda a sua família, pois é pega em flagrante. Um adendo: esse príncipe é o mesmo amigo de Ludovic, que nutre uma certa paixão por ela e até tenta “casar” com ela, sendo pego em flagrante pelos pais e como castigo é afastada do seu amado.
Depois de tal acontecimento, a família de Ludovic é excluída do convívio social, sendo hostilizada até por amigos, sendo necessário mudar de casa para terem uma vida social digna. Ludovic vai viver com a sua avó por um tempo, porém volta a viver com os pais, agora oprimido de todas as formas. A primeira perda significante que acontece é o corte de cabelo que a ligava à feminilidade da mãe. Esta, tomada pela fúria das regras sociais (supereu), elimina da aparência do/a filho/a um dos maiores símbolos de sua feminilidade.
Todavia, após a mudança da família, Ludovic foge para encontrar o mundo cor de rosa que criou. Entre fadas e mundos mágicos, vive num mundo de fantasia onde poderia viver livremente seu sonho de ser uma menina, tentando saltar em um outdoor para o mundo encantado, sendo salva pela sua mãe, que, após esse episódio, resolve aceitá-la da forma que é. Ludovic, em meio à pulsão que procurava somente um destino, buscou na possibilidade de uma fatalidade o seu fim. Talvez este fosse menos dolorido do que viver a sua realidade negando ser quem é, pois, na transexualidade infantil, existe um conflito maior em que a barreira do recalque não é tão forte e o desejo de ser quem se é fica evidente.
Estudar e analisar a transexualidade infantil à luz da psicanálise é um trabalho, acima de tudo, ousado, por se tratar de um tema sensível, que merece a atenção e a investigação aprofundada para uma boa construção teórica e a sustentação na clínica. Ao analisar o personagem estudado, buscou-se construir uma ponte onde cinema e psicanálise podem encontrar-se para exibir uma possível faceta humana, assim como a constituição da subjetividade, atravessados pela cultura e sociedade. O estudo psicanalítico tende a estar entre a arte e a ciência, estabelecendo elucidações e também inquietações.
AUTORA
Maria Alice Akldas Caldas da Cunha
Psicológa (Universidade da Amazônia) \ Atendimento clinico de base psicodinâmica \ Mestra em Psicanálise pela Universidade Argentina J. Kennedy.
REFERÊNCIAS
1.Cunha, A. O corpo inquietante: um estudo psicanalítico sobre a transexaulidade infântil e suas questões sociais no personagem ‘ludovic’ do filme “minha vida em cor de rosa”. Revista Borromeu. Universidad Argentina J. Kennedy, 2016.
2.Ceccarelli, P. R. Transexualidades. 2. ed. São Paulo: Casa do Psicólogo, 2013.
3.Freud, S. (2000). Os três ensaios sobre a teoria da sexualidade. En: S. Freud. Edição das Standard das Obras Completas (Vol. 7). Rio de Janeiro: Imago. (Texto original publicado em 1905).
4.Freud, S. (2000). Romances Familiares. En: S. Freud. Edição das Standard das Obras Completas (Vol. 9). Rio de Janeiroj: Imago. (Texto original publicado em 1909).
5.Freud, S. (1992). La cabeza de Medusa. En J. Strachey (Ed.) y J.L Etcheverry y L. Wolfson (Trads.). Sigmund Freud Obras completas (Vol. 18). Buenos Aires: Amorrortu Editores (Trabajo original publicado en 1922)
6.Freud, S. (2011). O Eu e o Id (P. C. Souza, Trad.). Companhia das Letras. (Obra original publicada em 1923)
7.Dolto, F. (2001). A imagem inconsciente do corpo (N. Boechat, Trad.). Perspectiva. (Obra original publicada em 1984).
FICHA TÉCNICA
Título original — Ma vie en rose
Título inglês — My Life in Pink
Título português — Minha Vida em Cor-de-Rosa
Ano — 1997
Países — Bélgica, França e Reino Unido
Duração — 88 min
Direção — Alain Berliner
Roteiro — Chris Vander Stappen e Alain Berliner
Fotografia — Yves Cape
Edição — Sandrine Deegen
Trilha Sonora — Dominique Dalcan e Zazie
Figurino — Karen Muller Serreau
Elenco — Georges du Fresne – Michèle Laroque – Jean-Philippe Écoffey – Hélène Vincent
Sinopse
“Minha Vida em Cor-de-Rosa” (Ma Vie en Rose, 1997) é um sensível drama belga que narra a história de Ludovic, uma criança de sete anos que acredita piamente ter nascido menina. Convencido de que Deus cometeu um erro ao enviar os seus cromossomas femininos para o lixo, Ludovic espera pacientemente que a sua verdadeira identidade se manifeste.
O conflito escala quando a sua família se muda para um bairro de classe média. O que os pais inicialmente encaram como uma fase infantil transforma-se em crise quando Ludovic aparece numa festa vestido de princesa. A partir daí, a harmonia familiar desmorona sob a pressão de vizinhos preconceituosos e da escola. Enquanto Ludovic se refugia num mundo de fantasia vibrante e “cor-de-rosa”, inspirado pela sua boneca favorita, os seus pais oscilam entre a proteção e a vergonha social. O filme é um retrato tocante sobre a questão da identidade de género na infância perante a intolerância do mundo adulto.
