PARENTALIDADE, MASCULINIDADE e DIFERENÇA — Palmer (2021)

— JORGE CÂMARA —
Há filmes que pedem uma escuta fina daquilo que se transforma na relação. Palmer pertence a essa categoria. Sem recorrer a formulações excessivas, o filme acompanha o encontro entre duas figuras situadas à margem: Eddie Palmer, um ex-presidiário regressado a uma comunidade que o fixa no erro, e Sam, uma criança que se torna alvo de hostilidade por não encaixar nas expectativas normativas de masculinidade. O que progressivamente emerge entre ambos não é apenas afeição; é a criação de um espaço relacional onde algo do self pode sobreviver sem ter de se mutilar para ser aceite.
A história é, antes de mais, a de uma falha e de uma possível reparação. Eddie regressa à casa da avó depois de uma trajetória marcada pela queda narcísica: de promessa desportiva a homem interrompido, dependente, violento e encarcerado. O filme não o romantiza. Palmer é pesado, defensivo, pouco falador e move-se como quem espera sempre a repetição da condenação. A prisão, neste sentido, não aparece como experiência transformadora em si mesma, mas como prolongamento de uma suspensão psíquica. A transformação começa verdadeiramente quando a vida o convoca, sem preparação nem idealização, para uma função de cuidado.
Essa convocação acontece através de Sam. O menino surge num ambiente desorganizado, com uma mãe emocionalmente imprevisível e incapaz de sustentar continuadamente a função materna. Shelly não é apresentada como caricatura moral; o filme deixa ver a precariedade psíquica e social a partir da qual também ela falha. Mas para Sam o efeito é devastador: a ausência repete-se, o abandono ameaça tornar-se estrutura, e a criança fica entregue a uma oscilação entre procura de ligação e expectativa de perda. É precisamente nesse ponto que Palmer, quase contra si próprio, começa a oferecer alguma continuidade.
Numa linguagem winnicottiana, dir-se-ia que o filme mostra a lenta construção de uma função de holding. Palmer não sabe falar sobre sentimentos, não interpreta, não educa de forma sofisticada. Mas começa por fazer o essencial: fica, leva, traz, espera, protege, acompanha. São gestos elementares, embora decisivos. O cuidado surge menos como competência adquirida do que como disponibilidade progressiva para sustentar a existência do outro. É essa regularidade, mais do que qualquer declaração afectiva, que permite a Sam experimentar uma diminuição do desamparo.
A dimensão mais fértil do filme talvez resida, porém, no facto de esta parentalidade não ser unilateral. Sam não é apenas um destinatário de cuidados; ele introduz em Palmer uma transformação subjetiva. Entre ambos produz-se um espelhamento discreto. Palmer é visto pela comunidade como alguém definido pelo estigma do passado. Sam é visto como estranho, inadequado, excessivamente diferente. Cada um ocupa, à sua maneira, o lugar daquele que não corresponde ao olhar social dominante. O vínculo entre ambos nasce dessa experiência partilhada de não pertença. Ao reconhecer Sam, Palmer reconhece também algo da própria humilhação, da própria vulnerabilidade e da parte de si que permanecera rigidamente defendida.
É neste ponto que a questão da masculinidade se torna central. Palmer cresceu num universo em que ser homem parece equivaler a endurecer, calar, controlar e sobreviver sem dependência. O encontro com Sam desorganiza esse modelo. Sam brinca com bonecas, gosta de fantasia e maquilhagem e não procura espontaneamente alinhar-se com as convenções masculinas da comunidade. O mérito do filme está em não fechar apressadamente essa experiência numa definição identitária rígida. Interessa-lhe menos nomear do que mostrar o sofrimento produzido quando a espontaneidade infantil encontra um meio incapaz de a acolher. O conflito não está na expressividade de Sam, mas na violência normativa que tenta corrigi-la.
Psicanaliticamente, poderíamos pensar Sam como uma criança cuja continuidade de ser ainda não foi inteiramente submetida às exigências adaptativas do ambiente. Aquilo que nele aparece como singularidade, imaginação e liberdade pode ser entendido como expressão de um self ainda vivo, ainda criativo. Quando o meio responde com ridicularização, ameaça ou vergonha, o risco é o da construção de acomodações defensivas precoces, isto é, da organização de um falso self orientado para a sobrevivência. O filme torna visível esse risco sem o transformar em tese. É justamente a presença de Palmer, cada vez menos intrusiva e mais confiável, que funciona como contrapeso a essa violência ambiental.
Também a avó Vivian tem uma função decisiva na economia emocional do enredo. É ela quem sustenta, num primeiro momento, um resto de hospitalidade para Palmer e para Sam. A sua morte não é apenas uma perda narrativa; é o momento em que o cuidado deixa de estar delegado numa figura geracionalmente estável e passa a exigir de Palmer uma assunção interna. Vivian representa uma espécie de legado ético do cuidado: uma transmissão silenciosa de que alguém só pode tornar-se casa para outro quando, antes, teve alguma experiência de ter sido abrigado.
O filme sugere ainda que a reparação não apaga o trauma, mas pode limitar a sua repetição. Palmer não se torna pai porque superou plenamente o passado; torna-se capaz de cuidar na medida em que o encontro com Sam reabre zonas congeladas da sua vida psíquica. Da mesma forma, Sam não deixa de estar exposto à precariedade da origem, mas encontra numa relação suficientemente estável a possibilidade de não ser inteiramente definido por ela. A transformação que o filme propõe é modesta, mas por isso mesmo convincente: não a redenção total, mas a criação de um vínculo no interior no qual ambos podem tornar-se um pouco mais reais.
Numa época em que a masculinidade é tantas vezes capturada entre modelos defensivos de dureza e discursos normativos simplificadores, Palmer interessa porque mostra outra coisa: que a função parental pode emergir de um homem ferido sem se reduzir a heroísmo nem sentimentalismo. E que uma criança só se desenvolve quando encontra um outro que não a obriga a escolher entre pertença e autenticidade. É talvez aí que o filme toca algo de essencial: na ideia de que cuidar é suportar a diferença do outro sem a colonizar, oferecendo-lhe uma presença firme o suficiente para que possa continuar a existir.
AUTOR
Jorge Câmara
Psicanalista da Sociedade Portuguesa de Psicanálise (SPP) \ Membro da Société Européenne pour la Psychanalyse de l’Enfant et l’Adolescent
E-mail — jorgecamar@gmail.com
FICHA TÉCNICA
Título original — Palmer
Ano — 2021
Duração — 110 min
País — Estados Unidos
Direção — Fisher Stevens
Argumento — Cheryl Guerriero
Produção — Sidney Kimmel – Charles B. Wessler – John Penotti – Charlie Corwin – Daniel Nadler
Fotografia — Tobias A. Schliessler
Música — Tamar-kali
Edição — Geoffrey Richman
Figurino — Megan Coates
Maquilhagem / cabelo — Chelsea Barber (chefia de departamento)
Elenco — Justin Timberlake – Ryder Allen – Juno Temple – Alisha Wainwright – June Squibb
Sinopse
Depois de cumprir doze anos de prisão, Eddie Palmer regressa à pequena cidade do Louisiana onde foi, em tempos, uma promessa do futebol americano. Instala-se em casa da avó Vivian e tenta reconstruir discretamente a vida, marcado pelo peso do passado e pelo olhar desconfiado da comunidade. A rotina altera-se quando Shelly, vizinha instável e consumida pela dependência, desaparece e deixa para trás o filho Sam, uma criança singular, sensível e frequentemente alvo de troça por não corresponder às normas de género do meio em que vive. Entre relutância, cuidado e reconhecimento mútuo, Palmer e Sam constroem um vínculo improvável, no qual cada um encontra no outro uma possibilidade de reparação e pertença.
