QUESTÃO DE GÊNERO? — Tomboy (2011)

— CRISTINA MARIA CORTEZZI —
Trata-se de uma obra interessante, que nos convida a pensar sobre a construção da identidade na infância e na pré-adolescência. Em geral, falamos de identidades, crise de identidade, identidade de gênero, na adolescência.
O filme de 2011 da diretora francesa Céline Sciamma, contextualiza uma família que se muda para uma nova casa, a mãe grávida do terceiro filho e Jeanne, a irmã com 6/7 anos. A caminho, Laure, feliz na viagem de carro com o pai, conversa e o pai a ensina a dirigir. Chegam, após longo trajeto, e vão reconhecer a casa. Laure pede o quarto azul e os pais concordam.
A trama nos pega de surpresa. No dia seguinte à mudança, Laure sai para conhecer os arredores, vestida com bermudas largas e camiseta regata, cabelos curtos e, ao encontrar uma menina vizinha, Lisa, se apresenta como Michael. Algo inusitado, que saiu espontaneamente, e que ela teve que sustentar dali em diante. Michael passa o verão, na nova cidade, tentando se inserir na turma que morava perto da sua casa. Lisa, sua vizinha o acolhe, o insere no grupo e vai se afeiçoando a ele.
Na família, ela é tratada como Laure, embora respeitem o vestuário, o quarto azul, o cabelo. Há permissão para dormirem e tomarem banho juntas, Laure e Jeanne. Existe um afeto explícito entre as irmãs, que se ajudam, protegem e instituem uma cumplicidade. São bem parceiras, parceria essa que se intensifica a ponto de Jeanne dizer que o seu melhor amigo é o Michael, e riem juntas.
O filme, além de tangenciar questões de gênero, aborda amizade, fraternidade, brincadeiras espontâneas que surgem no grupo de crianças transitando livremente pelo bosque, lago, redondezas. Michael protege a irmã, luta com outros meninos, a defende. E a irmã, Jeanne vai consolá-lo, quando percebe que ele está aborrecido. Existe a aceitação de Jeanne, que entra nos jogos e atividades que ele propõe, colocando bigode, cortando o cabelo de Michael.
Quando a vizinha vai com o filho se queixar de Michael/Laure, a mãe não pergunta: o que aconteceu para você bater no vizinho? Nem pergunta à mãe do vizinho, o que o seu filho fez? Ela parte do pressuposto de que Laure era a culpada e merecia ser castigada. Nem mesmo Jeanne disse à mãe que o vizinho a agrediu e Laure não se defendeu diante da mãe e da vizinha.
A mãe percebe que Laure estava se passando por menino na vizinhança e isso a deixa possessa, a ponto de sair com a filha para que ela se retratasse, dissesse a verdade. Quando Michael estava se arrumando para sair com a mãe, tendo já colocado uma bermuda larga, a mãe o obrigou a colocar um vestido por cima. Michael saiu aborrecido. A mãe lidou como uma questão moral e em nenhum momento perguntou o que o levou a agir dessa maneira. Parou sim num determinado instante para dizer que aceitava que ela se vestisse como menino, mas não a mentira, e que contar a verdade aos outros não era um castigo. A mãe sentia vergonha pelo que Laure havia feito e havia ainda uma questão escolar… a matrícula era da Laure.
Ao fazer a defesa da verdade, a mãe expôs Laure a uma situação difícil pois ela se implantou nessa comunidade como um menino. A mentira revelava a verdade da real condição de como Laure se sentia.
Recebi há um tempo atrás uma adolescente de 13 anos, Gaby, linda, delicada, pintava os olhos com uma precisão incrível, muito tímida, que se vestia com camisetões e calças largas escuras, nada de grife ou botinas como coturnos. Os pais estavam apavorados com a ideia de que ela quisesse mudar de sexo. Ela se dizia trans e descrevia bem todos os gêneros. Não tinha preferências por meninos, nem por meninas, e não suportava que a mãe quisesse lhe colocar vestidos, saias ou roupas que evidenciassem suas formas femininas. Gaby me dizia: ela quer que eu seja uma Barbie, mas eu me sinto bem assim, desse jeito que eu me visto. Meu pai me entende um pouco mais, mas minha mãe me critica sempre.
Minha impressão era de ser um estilo, uma experimentação, uma forma de se opor aos ditames da mãe, até para se fortalecer em sua identidade, de não ser como a mãe queria que ela fosse. Mas algo me dizia que havia um sofrimento maior por trás dessa suposta roupagem masculina. Aos poucos ela me contou que se cortava, mas que não queria que os pais soubessem e que não via sentido na vida. Pouco falava com os pais, e vivia fechada em seu quarto a maior parte do tempo.
Ao longo do filme, Laure e o pai pareciam estar em um bom relacionamento, jogando cartas, tomando um gole de cerveja que o pai lhe oferecia. Quando Laure se aninhou nos braços do pai e chupou o dedo, ele a abraçou e contou que também chupava o dedo.
A mãe que passava mais tempo com Laure, parecia carinhosa e interessada até descobrir que Laure havia enganado a vizinhança. Impor a Laure o vestido foi para ela uma afronta que a fez sair correndo de perto da mãe em direção ao bosque, arrancando o que a mãe lhe impôs.
Lisa se encantou por Michael ser um menino diferente dos outros. Ela percebeu que ele não tinha a brutalidade que talvez ela visse nos demais. Michael, mesmo passando por dificuldades, apuros — fez xixi nas calças, teve que colocar um falso pênis — em nenhum momento pareceu estar em conflito com essa nova identidade masculina, ou por esconder seu nome e identidade sexual. A irmã Jeanne estranhava, mas ao mesmo tempo aceitava essa situação. Entrou no jogo e se divertia com isso, sendo sua cúmplice desde que a levasse todos os dias para o bosque.
Mas afinal, o que é ser um TOMBOY?
O termo descreve garotas ou mulheres que adotam comportamentos e estilos de roupas, e interesses tradicionalmente associados ao masculino. É uma expressão de gênero focada na estética masculina, sem necessariamente estar ligada a uma orientação sexual. Seria traduzido por ‘meninos travessos’, e se associa a determinados comportamentos masculinos como a assertividade, ousadia. Tidas como garotas corajosas, molecas, sofrem pressões sociais por defenderem esse estilo. Diferem dos andróginos, que seria ser masculino e feminino, diferem também da Butch, que seriam lésbicas masculinizadas.
No filme, Laure nos convoca a pensar mais uma questão de gênero do que simplesmente um estilo de vestir e de ser. Gaby parece se encaixar mais dentro do que o termo descreve.
Ficam para nós, interpretações abertas. Seria uma experimentação, um estilo, uma disforia de gênero ou uma oposição aos ditames assim chamados femininos?
Em termos culturais e sociais, parece ser uma reação contra a ditadura da beleza feminina, calcada na delicadeza, no vestido, na cor rosa, na ideia de fragilidade, dependência, fraqueza.
Questões edipianas poderiam ser examinadas nesse contexto: por exemplo, parcerias com o pai, dirigindo o carro, jogando cartas, colocando bigode numa brincadeira com a irmã, o que nos faz supor uma identificação com a figura masculina.
AUTORA
Cristina Maria Cortezzi
Analista didata, docente e supervisora da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo (SBPSP) \ Membro de Enlace COWAP, SBPSP \ Co-org. do livro: “Sexualidades e Gênero – Desafios da Psicanalise” \ Mestre em Psicologia clínica pela PUC- SP.
E-mail — criscortezzi@yahoo.com.br
FICHA TÉCNICA
Título original — Tomboy
Ano — 2011
Duração — 82 min
País — França
Direção — Céline Sciamma
Argumento — Céline Sciamma
Produção — Bénédicte Couvreur
Fotografia — Crystel Fournier
Música — Para One
Edição — Julien Lacheray
Elenco — Zoé Héran – Malonn Lévana – Sophie Cattani – Mathieu Demy – Jeanne Disson
SINOPSE
No filme da diretora Céline Sciamma, Laure é uma menina de dez anos que muda de casa, em decorrência do trabalho do pai. Ao ir para uma nova residência, ainda nas férias, ela faz amizade com uma vizinha, Liza, dizendo que se chama Michael, e vestindo-se como menino. Liza o apresenta para a turma de garotos da vizinhança, que o tratam como um deles e ela, a única menina do grupo, desenvolve uma afeição especial por Michael, acabando por descobrir ao final das férias.
