O SABER QUE DESAMPARA — Three Days of the Condor (1975)

— MARIA DA CONCEIÇÃO A. de A. PAIXÃO —
Desde os primórdios da psicanálise, Freud já indicava que o sofrimento psíquico do indivíduo está estreitamente relacionado às condições sociais e políticas em que vive. Em sua obra O mal-estar na civilização (3), ele ressalta a tensão entre os desejos individuais e as exigências da vida coletiva, que impõem limites e renúncias por meio das instâncias simbólicas, como o Estado, a lei e as instituições. Essas instâncias funcionam como o Outro social, sustentando o laço social e oferecendo ao sujeito um sentido de proteção e ordem.
Entretanto, quando essas referências simbólicas enfraquecem ou perdem legitimidade, o sujeito é lançado ao desamparo, à angústia e a uma sensação crescente de vulnerabilidade, fenômeno intensificado em contextos de crise institucional e perda da confiança pública, como evidenciado no período pós-Watergate, marcado pelo escândalo político na década de 1970, quando a descoberta de corrupção e abuso de poder pelo governo dos E.U.A. abalou a confiança da população nas instituições, gerando um clima de insegurança social e fragilidade psíquica (7).
Foucault (2) analisa a vigilância como um modelo de poder moderno que não depende da coerção direta, mas da internalização do olhar, que torna o sujeito um agente e um objeto do controle, constantemente submetido à possibilidade de ser observado. Lacan (6) contribui com a noção do olhar como objeto, a instância que expõe o sujeito ao desejo do Outro, gerando angústia e divisão interna. Freud (4) complementa essa perspectiva ao explicar que a angústia surge como uma reação a uma ameaça indefinida e invisível, mostrando como o sujeito se sente vulnerável diante de forças internas e externas. Essa sensação de vulnerabilidade se intensifica quando o indivíduo se percebe constantemente vigiado.
Na contemporaneidade, Han (5) aprofunda essa discussão ao descrever a “sociedade da transparência”, marcada pela pressão contínua para exposição e autocontrole, que produz um mal-estar estrutural vivido como falha pessoal. Safatle (9) destaca a “solidão ética” que resulta da perda das garantias simbólicas, em que o sujeito deve decidir e agir sem a mediação confiável do Outro.
É nesse contexto que o filme “Três Dias do Condor”, dirigido por Sidney Pollack, se destaca. Embora enquadrado no gênero thriller político, marcado por conspirações, espionagem e tensões institucionais, o longa vai além de sua trama para revelar o mal-estar subjetivo e social de sua época. A narrativa acompanha Joe Turner, um analista da CIA que, ao descobrir a morte dos colegas, é forçado a fugir e enfrentar uma rede opaca de vigilância e controle, vivendo a tensão entre a necessidade de agir, o desamparo e a dúvida quanto à confiança em alguma instância simbólica confiável.
A vigilância emerge como um mecanismo central para compreender o mal-estar contemporâneo evidenciado neste filme. Conforme Foucault (2), o poder moderno desloca-se da coerção visível para um modelo mais sutil, baseado na internalização da vigilância, que leva o sujeito a comportar-se como se estivesse constantemente observado, uma forma eficaz de controle social e subjetivo. Freud (4) complementa essa visão ao destacar que a angústia do sujeito pode surgir diante de ameaças invisíveis e indefinidas, refletindo uma sensação de vulnerabilidade que é intensificada pela percepção constante de estar sob controle ou vigilância.
Por sua vez, Freud (3) em O mal-estar na civilização ressalta que o conflito entre desejos individuais e normas sociais internalizadas gera ansiedade e sofrimento, agravado quando as instituições que sustentam essas normas perdem autoridade e legitimidade, privando o sujeito de uma instância simbólica mediadora e gerando desamparo e fragmentação subjetiva.
Han (5) amplia essa reflexão ao demonstrar como a urgência pela visibilidade total desprotege o indivíduo, transferindo para a esfera privada o peso de crises que são coletivas. Sob o imperativo da transparência, a vigilância deixa de ser externa para se tornar internalizada, gerando uma autocensura que alimenta sentimentos de isolamento e angústia. Esse mecanismo mascara as falhas das estruturas políticas, fazendo com que o sujeito sinta o esgotamento social como um fracasso íntimo e uma fonte constante de insegurança subjetiva.
O desfecho do caso Watergate simboliza a consolidação de um ceticismo sistêmico nas democracias modernas. A exposição de abusos de poder, por meio do jornalismo investigativo, não apenas derrubou uma gestão, mas transformou a transparência em uma ferramenta de suspeita permanente, fragilizando a confiança nas instituições para além do evento histórico, como traz Lopes (7).
De modo análogo, no Brasil contemporâneo, crises políticas recentes e disputas em torno da legitimidade democrática no período pós-eleições de 2022 contribuíram para o descrédito institucional e para a instabilidade da confiança nas instâncias estatais. A confiança da população brasileira nas instituições públicas permanece oscilante, refletindo o acúmulo de crises políticas OECD (8).
Safatle (9) destaca que essa perda das garantias simbólicas impõe ao sujeito uma “solidão ética”, onde é necessário decidir e agir sem a mediação do Outro confiável. Joe Turner personifica essa condição ao confrontar sozinho uma rede opaca de poder e vigilância, sem respaldo institucional, carregando o peso da verdade que detém.
A internalização da vigilância e a fragilidade das instituições simbólicas afetam diretamente a constituição da identidade contemporânea, produzindo tensões e fragmentações. Em “Três Dias do Condor”, Joe Turner vivencia uma crise identitária marcada pela sensação contínua de exposição e insegurança, que alimenta a desconfiança e o medo.
Essa paranoia compromete sua capacidade de confiar até mesmo naqueles que tentam ajudá-lo, aprofundando o isolamento emocional. Privado de vínculos sociais e afetivos que sustentem seu amparo psíquico, Turner vivencia um desamparo crescente, que evidencia a fragilidade do sujeito diante de um sistema opaco e controlador, capaz de minar sua autonomia, segurança e senso de pertencimento.
A relação entre Turner e Kathy Hale exemplifica a tentativa de construção de um vínculo que atenue o isolamento e o desamparo em um contexto de desconfiança generalizada. Kathy funciona como ponto de ancoragem afetiva e contraponto à solidão do protagonista, enquanto sua profissão simboliza um olhar capaz de revelar verdades ocultas, em resistência à vigilância opaca que atravessa o filme. Apesar do medo e da instabilidade, a parceria entre ambos expressa a necessidade de conexão e solidariedade como formas possíveis de sustentação subjetiva em situações de crise.
Essa troca explicita a vulnerabilidade de Turner, que, diante da perda de referências institucionais confiáveis, passa a depender de um vínculo interpessoal para sobreviver. A resposta de Kathy indica uma oferta de apoio fundada em uma escolha ética e afetiva, e não em garantias formais. O diálogo revela, assim, que em um contexto marcado pela vigilância e pela desconfiança, a confiança torna-se relacional, precária e contingente, funcionando como tentativa de recomposição simbólica do laço social frente ao desamparo.
Esse vínculo remete ao conceito de laço social em Durkheim (1), que destaca a importância das conexões interpessoais para a coesão e a estabilidade emocional. A relação entre Turner e Kathy simboliza, assim, a busca por apoio e resistência afetiva diante da vulnerabilidade e do medo.
Freud (3) vê o amor como um meio de aliviar o mal-estar psíquico, mas destaca sua fragilidade diante da ruptura com o Outro, que compromete o sentido de segurança. Lacan (6) complementa afirmando que o amor é a tentativa do sujeito de preencher a falta no Outro, um esforço instável quando o Outro é percebido como ausente ou enganador, gerando angústia e desconfiança.
Byung-Chul Han (5) chama atenção para a erosão das fronteiras do eu na “sociedade da transparência”, expondo o sujeito a um controle constante que mina sua constituição como ser íntegro e autônomo. Nesse sentido, Turner encarna o sujeito exposto e ansioso que vive na “sociedade da transparência”, onde a pressão por constante visibilidade e controle reduz suas fronteiras pessoais e sua autonomia.
Sua liberdade é restringida não apenas por ameaças externas visíveis, mas por uma vigilância invisível e onipresente que invade sua intimidade e interfere profundamente em suas emoções, pensamentos e ações. Essa condição o torna vulnerável, fragmentado e em estado permanente de alerta, refletindo o desgaste psicológico provocado pela necessidade de estar sempre “à mostra” e sob observação, o que compromete sua capacidade de agir espontaneamente e de manter um senso coeso de si mesmo.
Em “Três Dias do Condor”, o mal-estar subjetivo emerge da fragilidade das referências simbólicas, da vigilância internalizada e da crise dos vínculos sociais, produzindo angústia, desamparo e fragmentação identitária. O filme evidencia, assim, os efeitos psíquicos e sociais da desconfiança e da insegurança na modernidade.
AUTORA
Maria da Conceição A. de A. Paixão
Psicóloga \ Mestra em Psicanálise (John Kennedy Universidade, Argentina, 2014) \ Psicanalista, Membro Efetivo e Didata da Sociedade Psicanalítica do Recife (SPRPE/BR2), do Núcleo Psicanalítico de Maceió (NPM/SPRPE), da Federação Brasileira de Psicanálise (FEBRAPSI) e da International Psychoanalytical Association (IPA) \ Doutoranda em Psicologia (Universidad Flores – UFLO – Argentina) \ Autora do livro “Alçando Voo na Psique: Narrativas Psicanalíticas e suas Reflexões”, 2025, INM Editora. \ https://orcid.org/0009-0002-1602-6304
E-mail — conciolepaixao@hotmail.com
REFERÊNCIAS
1.DURKHEIM, Émile. O suicídio: estudo de sociologia. Tradução de Lúcia Maria de Almeida Ferreira. 4. ed. Companhia das Letras, 1995. (Obra original publicada em 1897).
2.FOUCAULT, Michel. Vigiar e Punir: história da violência nas prisões. Petrópolis: Editora Vozes, 1975.
3.FREUD, Sigmund. O mal-estar na civilização. In: Obras psicológicas completas de Sigmund Freud. Vol. XXI. Imago, 1987. (Edição Standard Brasileira, 1930). 4.FREUD, Sigmund. Inibição, sintoma e angústia. In: Obras completas de Sigmund Freud. Vol. XX. Imago, 1987. (Original publicado em 1926).
5.HAN, Byung-Chul. Sociedade da transparência. Petrópolis: Vozes, 2017b.
6.LACAN, Jacques. O seminário, livro 11: os quatro conceitos fundamentais da psicanálise (1964). Texto estabelecido por Jacques-Alain Miller. Tradução de M. D. Magno. Zahar, 2008.
7.LOPES, Anna Clara Dalbem. O poder da fonte em off: uma análise dos casos Watergate, nos Estados Unidos, e Vaza Jato, no Brasil. 2019. Disponível em: https://repositorio.pucrs.br/dspace/handle/10923/26857. Acesso em: 1 fev. 2026.
8.ORGANISATION FOR ECONOMIC CO-OPERATION AND DEVELOPMENT (OECD). Government at a Glance 2023. Paris: OECD Publishing, 2023. Disponível em: https://doi.org/10.1787/3d5c5d31-en. Acesso em: 1 fev. 2026.
9.SAFATLE, Vladimir. O circuito dos afetos: corpos políticos, desamparo e o fim do indivíduo. Autêntica, 2016.
FICHA TÉCNICA
Título original — Three Days of the Condor
Título português — Três Dias do Condor
Ano — 1975
País — E.U.A.
Duração — 118 min
Realizador — Sydney Pollack
Argumento — Lorenzo Semple Jr. e David Rayfiel — baseado no romance de 1974, Six Days of the Condor de James Grady
Produção — Stanley Schneider
Fotografia — Owen Roizman
Música — Dave Grusin
Edição — Don Guidice e Fredric Steinkamp
Elenco — Robert Redford – Faye Dunaway – Cliff Robertson – Max von Sydow
SINOPSE
O agente da C.I.A. Joseph Turner (Robert Redford), codinome Condor, e a equipe da qual faz parte apenas lê livros e imagina possíveis situações que podem ser usadas pela C.I.A. Um dia ele vai comprar comida, mas como chovia sai por uma “saída secreta” em vez de sair pela porta da frente. Ao retornar, vê que todos os seus colegas de trabalho tinham sido mortos. Apavorado, pois não é um agente de campo, liga para seu chefe, que diz que logo vão resgatá-lo. Porém na hora tentam matá-lo, mas Turner escapa ileso. Sem saber o que fazer, acaba seqüestrando Kathy Hale (Faye Dunaway), uma fotógrafa, e vai para o apartamento dela, pois precisa de um lugar que ninguém da C.I.A. conheça enquanto tenta entender por qual razão querem vê-lo morto. (https://www.adorocinema.com/filmes/filme-33360/)
