O ESTRANHO FAMILIAR DA VIOLÊNCIA — The Secret Agent (2025)

— PLINIO MONTAGNA —
O filme “O agente secreto” tem uma trajetória expressiva de premiações. Indicado à Palma de Ouro em Cannes, foi laureado com as de melhor diretor e melhor ator. No Globo de Ouro, venceu como Melhor Filme em Língua Não Inglesa e Melhor Ator em Drama. No Oscar não saiu vencedor, mas concorreu em quatro categorias.
A narrativa é situada no Recife de 1977, cidade importante do nordeste brasileiro, em pleno transcurso da ditadura militar que ocorreu no país de 1964 até o início da década de 1980. O diretor Kleber Mendonça retrata o Brasil daquela época e encontra na geografia nordestina não apenas cenário, mas também argumento. Região muitas vezes marginalizada pela eixo Sul-Sudeste, podemos pensar que o Nordeste funciona no filme como uma metonímia da periferia do poder.
Mas a narrativa que acompanhamos, situada naquele espaço-tempo, carrega consigo, junto à sua singularidade, questões universais do ser humano, de ordens psicológica e sócio-políticas.
Já na cena de abertura do filme somos capturados por um clima emocional que sinaliza em seu subtexto aquilo que está por vir. Vive-se o sinal de uma violência banalizada, de uma brutalidade trivializada, podemos dizer que quase institucionalizada, tratada como rotina. Declara-se o mundo da omissão e da corrupção, que tem como pano de fundo uma ameaça permanente aos protagonistas — ameaça e a sensação desta — e de certo modo ao espectador. Sujeira e pobreza são elementos a que o diretor recorre para construir a estética do filme, mostrando espaços desgastados, ambientes malcuidados como elementos coadjuvantes da crítica social que perpassa a película. Esses elementos demonstram uma sociedade em decomposição, onde morte, medo e desigualdade são trivialmente naturalizados.
Se no jogo de xadrez a abertura determina o terreno estratégico e estrutural em que a partida será jogada, se numa sessão psicanalítica o modo como o paciente inicia a sessão de certo modo organiza o campo transferencial em que a sessão se vai desenrolar, a cena de abertura de “O Agente Secreto” instaura a sensação do absurdo incorporado à rotina que nos acompanha até o fim, sugerindo a omissão ou a cumplicidade de um estado que prescreve o desvalor à vida, a degradação dos valores éticos e morais naquelas paragens, a violência como costume.
E no desenrolar do filme ficaremos cientes que não é só ali que mora a corrupção, a violência e a desvalia. Um perverso industrial da rica e industrializada São Paulo também opera como um financiador particular da brutalidade cruel. O protagonista entra na cena inicial como testemunha, mas desde logo vê-se vítima da intimidação e corrupção policial, a qual desvia os agentes da lei de suas funções efetivas. Passam ao largo do cadáver abandonado, já em estágio de decomposição, coberto por folhas de jornal e cercado por moscas, no posto de gasolina. Aquilo não importa aos agentes da lei.
É quase permanente, como pano de fundo, o clima de certa tensão que perpassa o filme inteiro. Não existe praticamente alívio, escancara-se bem o clima que se vive numa ditadura. O único refúgio é o edifício administrado por Dona Sebastiana, que mencionaremos mais adiante. Seu gesto para seus acolhidos, com o sentido de “bico calado”, expressa “você pode ver tudo mas não se manifeste, não demonstre que viu”.
O país — e a cidade — se encontram sob os olhos do regime militar ditatorial, há delatores, polícia corrupta, escutas, não sabem os personagens quem é confiável, e este clima é transmitido ao espectador. De certo modo tem um lado que se pode ver como um trauma ainda não elaborado. Resquícios dele e ameaças de seu retorno reaparecem, o país de certo modo ainda não fechou totalmente essa conta, daí também a relevância do roteiro. Ou, ainda que em estado democrático, a arbitrariedade e a violência do campo policial podem entrar em jogo. O filme não contempla um alívio catártico. De fato, o anticlímax é mensageiro da perspectiva da existência mais abrangente desse universo particular.
A cisão do personagem central não é entre o bem e o mal, o herói e o traidor, mas trata-se sim de uma clivagem que lhe permite uma identidade funcional; ele pode continuar existindo na medida em que não existe, ou seja, ele existe enquanto está camuflado por outra identidade, pode existir enquanto não existe em sua identidade real.
A trama se desenrola num ambiente estranho, ameaçador num clima de estranheza, não familiar, como o “unheimlich” de Freud; o inquietante não é desconhecido, mas algo que poderia ser familiar não se encontra como tal.
A sociedade, seria possível dizer, está marcada por falhas profundas do que se poderia ter como confiança básica, por ausência de um ambiente suficientemente confiável para a espontaneidade psíquica. Na condição do personagem principal, Armando/Marcelo, ao contrário, o ambiente é invasivo e concretamente persecutório. O perigo não é simplesmente virtual, mas efetivo, factual, genuíno. É preciso ocultar-se parcialmente para poder sobreviver.
Há um espaço que funciona como um refúgio afetivo e político no filme, um edifício que é administrado pela personagem Dona Sebastiana, uma das figuras mais marcantes do enredo. Ela acolhe perseguidos, refugiados, pessoas em fuga, ofertando um clima de acolhimento e solidariedade, criando uma mini comunidade temporária que oferece respiro momentâneo aos participantes; mas ao sair daquele pequeno ambiente protegido, o retorno à persecutoriedade é inevitável.
A personagem Dona Sebastiana, figura ímpar da paisagem nordestina, adquiriu destaque crítico na medida em que reúne acolhimento, mistério e humor, toque de suposta sabedoria adquirida pela sua idade e pelos caminhos de sua vida, que incluíram o passado na Itália durante a guerra, onde ela diz que fez três coisas, as quais não nos conta. Ela é o coração afetivo do filme; o diretor Kleber Mendonça descreveu o abrigo que ela conduz como “um bunker de afeição”.
Há momentos que evidenciam na sociedade uma erosão da verdade, assim como o conjunto do filme sustenta uma crítica social contundente quanto à naturalização da violência na sociedade. Esta infiltra-se no dia a dia, ora silenciosamente, ora escancarada como nas atividades clandestinas dos policiais e na própria caçada ao personagem de Wagner Moura. Ela é também escancarada pelo grotesco retorno de parte de um corpo possivelmente descartado, de um cadáver que devia ser ocultado, transformada em “lenda” através da perna cabeluda, uma perna que retorna de modo absurdo, impossível de controlar. Registre-se que essa lenda já existia como lenda urbana no Recife dos anos 1970, e se referia a uma perna humana grande, autônoma, peluda, que aparecia sozinha atacando as pessoas na rua, o que foi fonte também para temas carnavalescos. De certo modo a perna se apresenta como o retorno da violência que em uma sociedade violenta e censurada não desaparece, mas sim retorna como trauma, medo e medo. E como testemunha de tudo aquilo que se ocultava, mas que se está desvelando.
Kleber Mendonça também dialoga com “O Tubarão”, de Stanley Kubrick, pois em algumas praias de Recife existem de fato tubarões, sendo que de quando em quando algum acidente com banhistas imprudentes acontece.
A ligação entre pai e filho é patenteada no retorno do ator em outro personagem, mas paradoxalmente a ausência de informações do filho a respeito do pai, a pouca noção que ele tem de sua história, reforçam a ideia de um apagamento da memória histórica, a qual poderá ser restituída por pesquisa, realizada por duas universitárias.
É como se todo o passado pudesse sobreviver sem vestígios, restando às pesquisadoras universitárias, a restituição, ao filho, de sua história.
A nós espectadores, a arte do cinema faz esse papel de se contrapor ao apagamento da memória e de alertar contra riscos de uma sociedade viver anestesiada diante da violência, acostumar-se ao medo, calar-se diante da iniquidade, transformar o silêncio sobre seus traumas em modo habitual de existência.
AUTOR
Plinio Montagna
Psicanalista didata e ex-presidente da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo (SBPSP) e da Federação Brasileira de Psicanállise (FEBRAPSI) \ ex-membro do Board de Representantes e atual Consultor do Comitê de Psicanálise e Lei da Associação Psicanalítica Internacional (IPA) \ Perito Psiquiátrico de Varas da Família do Tribunal de Justiça de São Paulo
E-mail — pkmontagna@gmail.com
SINOPSE
O Agente Secreto, filme escrito e dirigido por Kleber Mendonça Filho, se passa no Brasil de 1977 onde Marcelo (Wagner Moura), um homem de 40 anos que trabalha como professor especializado em tecnologia, sai da movimentada São Paulo e vai para Recife. Ele tenta fugir do seu passado misterioso, com a intenção de começar uma nova vida. Ali, ele chega na semana do Carnaval, então logo a paz e a calmaria da cidade vai se esvaindo, e com o decorrer do tempo percebe que atraiu para si o caos do qual ele sempre quis fugir. Para piorar a situação, além de Marcelo estar sendo espionado pelo seus vizinhos, vê que a cidade que achou que o acolheria ficou muito longe de ser o seu refúgio.
FICHA TÉCNICA
Título original — O Agente Secreto
Título inglês — The Secret Agent
Ano — 2025
Países — Brasil – França – Alemanha – Holanda
Duração — 161 min
Realizador — Kleber Mendonça Filho
Argumento — Kleber Mendonça Filho
Produção — Emilie Lesclaux
Fotografia — Evgenia Alexandrova
Música — Tomaz Alves Souza e Mateus Alves
Edição — Eduardo Serrano e Matheus Farias
Elenco — Wagner Moura – Carlos Francisco – Tânia Maria – Robério Diógenes – Alice Carvalho – Gabriel Leone – Maria Fernanda Cândido – Udo Kier
