O MAR E O RETORNO — Julieta (2016)

— JOSIMARA MAGRO FERNANDEZ DE SOUZA —
Neste filme, Almodóvar realiza, com rigor estético, um entrelaçamento requintado de linguagens. O diretor leva às últimas consequências o fato de que o cinema é, por excelência, a melhor síntese das linguagens artísticas: a literatura, a música, as artes plásticas, a fotografia – tudo banhado em cores magníficas e com enquadramentos precisos.
Muitos estranharam o fato de Almodóvar ter escolhido os contos de Alice Munro (8) para transformar em roteiro. A autora é conhecida por produzir narrativas sem floreios, sem rodeios e sem excessos. Almodóvar sem excessos? Sim! Ele mesmo chama Julieta de drama seco e conta que conteve as lágrimas das atrizes, não queria lágrimas nem melodrama.
No início do filme, nossa protagonista empacota seus objetos (aliás, objetos cheios de significados, como uma obra de Lucien Freud), para ir de mudança com o namorado para Portugal, tudo parece em ordem, mesmo na desordem da mudança. No entanto, essa paz é superficial e falsa e no breve encontro com a amiga da filha, Julieta entra vertiginosamente em uma viagem de regresso ao passado, o encontro abriu velhas feridas e ressuscitou fantasmas. O fantasma da filha desaparecida, que, não por acaso, se chama Penélope nos contos que inspiraram Almodóvar. No filme, como em um espelho, a mãe esperou pelo retorno da filha – o que assistimos nas cenas com os bolos de aniversários melancolicamente jogados ao lixo. Antía precisou partir, pelas culpas, ressentimentos, pelo silêncio, pelo ódio vivido e não externalizado. O filme, originalmente, se chamaria Silêncio, título de um dos contos de Alice Munro. O diretor diz assim, a respeito das histórias contadas pela escritora:
“Quando as li fiquei fascinado por elas, especialmente por uma delas. Tentei unificá-las, em torno de uma personagem principal chamada Julieta. O que foi um grande problema, pois tinha três histórias independentes”.
Há muitos silêncios pelo filme: entre Julieta e seu pai, entre ela e Xoan, na morte de Xoan. Quando Antía se vai, a mãe se dá conta de como a conhecia pouco, de como o silêncio imperava entre elas. A filha se foi e após esperá-la em vão, Julieta resolveu “deletar” sua existência em sua vida. O namorado nem sequer sabia que ela tinha uma filha! Estamos aqui falando de um silêncio mortífero, onde se calaram sentimentos e ressentimentos. Ao mesmo tempo, silêncio desesperado, de sobrevivência. O silêncio foi quebrado, Julieta se reencontra com a própria história e com sua culpa. Em sua carta diz assim:
“Eu te eduquei na mesma liberdade que meus pais me educaram (…). Nunca quis te falar disso, você era muito pequena para que te perturbasse com a amargura de minha culpa. Mesmo assim, você a percebeu (…) e, apesar de meu silêncio, acabei te transmitindo isso como um vírus.”
Doce ilusão ela achar que tinha, sob seu controle, o que transmitiria ou não à filha. O silêncio pode gritar estridente exatamente sobre o que quer calar. Nesse retorno, re-encontro dela consigo mesma, vamos conhecer como a culpa está nela entranhada.
Culpa
Ao viajar de trem, onde conhece um grande amor, vida e morte acontecem ao mesmo tempo. Vemos o prenúncio da culpa que parece brotar juntamente com a paixão: Julieta se culpa por não ter conversado com o homem que dela se aproximou, buscando companhia, e que posteriormente se suicidou. Simultaneamente, Julieta conhece Xoan, e vive um tórrido encontro. Já em um triângulo (que aliás, já se apresentara entre ela, Xoan e o homem sem nome) pois ele possui uma esposa doente.
Os triângulos irão se repetir ao longo da história: o pai, a mãe e a empregada do sítio; Julieta, Ava (a escultora) e Xoan; Julieta, a filha e seu pai; Julieta, a filha e a amiga da filha. E ainda Julieta, Xoan e Marian, a empregada com ares de bruxa… Mesmo sendo uma jovem linda e vibrante, talvez algo do zumbi já lhe rondasse: essa experiência mortífera da culpa, impedindo-a de viver sua vida mais plenamente, de viver as relações com intimidade e liberdade. Pois a intimidade de uma relação amorosa implica a exclusão do terceiro, implica a morte do terceiro — viver seria então atravessar esse mar, enfrentar a culpa necessariamente. Julieta parece assombrada por essas questões.
Disse Mia Couto (3): “A culpa me fez fugir de mim, desabitado de memórias.” Quando encontra a amiga de Antía, o silêncio se rompe, e assim se rompe a aparência de normalidade. Julieta regressa ao antigo endereço, único lugar onde a filha poderia achá-la e começa a escrever a carta. Começa a tecer com palavras sua própria história e a profunda ligação com a filha, a tecer com palavras tudo o que havia silenciado até então. “A dor não é um tema em Julieta, mas uma das personagens e talvez a personagem mais importante do filme” (1). Culpa e acusação são dois lados da mesma moeda.
Melanie Klein esclarece como podemos ficar à mercê das forças destrutivas quando não conseguimos integrar dentro de nós o amor e o ódio e quando não conseguimos aceitar e elaborar as perdas inerentes à vida. A força da morte se faz presente a partir de dentro, personificada em exigências cruéis, acusações, arrependimentos, julgamentos implacáveis — a culpa. Freud, em “O Eu e o Id” (6), fala que quando vida e morte não se integram, a culpa pode se configurar como “pura cultura do instinto de morte”. Há quem descreva os ataques superegóicos como o ataque de um bando primitivo, que quer matar, cegar e tornar louco a si mesmo, como punição por ser humano.
Klein (7) encontrou na tragédia grega uma representação para essas autoacusações na figura das Erínias: seriam as representantes do superego arcaico, vingativo e cruel. Na tragédia grega, Orestes fica subjugado e perseguido por esses monstros após matar a mãe – esta seria a representação da experiência interna do pecado fundamental, ou seja, o assassinato dos pais, pois os impulsos destrutivos seriam originariamente dirigidos contra os pais. Deusas vingadoras e cruéis, “cadelas furiosas”, que torturam e esmagam os culpados por crimes, particularmente o sangue parental derramado. Elas apresentam-se como monstros alados, com cabelos entremeados de serpentes, chicotes e tochas acesas nas mãos, como na pintura de Bouguereau (2).

Klein (7) chama a atenção para o fato de que as próprias Erínias estão também torturadas — “de seus olhos e de seus lábios escorre sangue” —, pois há um aspecto do superego que tem por base figuras danificadas e queixosas. Seria a tortura de Julieta pelo pecado fundamental: matar os próprios pais?
Transgeracionalidade
A carta de Julieta, dizendo que transmitiu à filha a culpa, como uma espécie de vírus, nos remete à questão da transgeracionalidade. Faimberg (5) e outros autores tratam das identificações alienantes que envolvem várias gerações e os segredos e tabus familiares. A identificação se dá com certos atributos da história secreta dos objetos, histórias silenciadas e que passam de uma geração a outra — a pessoa se sente presa a um tipo de identificação que lhe é atribuída, mas que não sente lhe pertencer, pois pertence à história de outros. Será o “não-lugar”, essa experiência de não pertencimento também uma espécie de vírus, transmitida de geração em geração? Não terá sido Julieta atravessada por silêncios desde sempre? Não poderia ser esse silêncio o fundador da experiência de não pertencimento?
Os homens parecem periféricos: o atual namorado de Julieta, Xoan, seu pai — ao mesmo tempo, é em torno deles que os conflitos silenciados ocorrem. Quando chega à casa de Xoan, Julieta está entrando em uma trama tensa: Marian até lhe avisa, dando indícios de que ele transitava ali entre a esposa doente, a escultora e ela própria, a empregada. As mulheres são o ponto forte da trama, entre as quais ocorrem os conflitos e a cumplicidade (como entre Julieta e Ava) e, ao mesmo tempo, orbitam ao redor de Xoan. Curiosamente, Julieta não dá ouvidos a Marian, ignorando a importância de Ava para ele e a complexidade dessa trama. Ela está sempre tentando ser a protagonista, mas parece fadada a ser a “professora substituta”. Por que será que faz tanta questão de enviar a filha ao acampamento nas férias? Nas tramas edípicas, será que ficava incomodada com a intimidade que havia entre a filha e o pai? Afinal, os dois saíam juntos para pescar e Antía dizia que iria ser pescadora.
E por que Antía precisou partir? Precisou se separar da mãe de forma radical — seria essa uma forma de tentar se curar do vírus da culpa? Seria essa a sua única chance de existir como um indivíduo? Estaria, com o próprio desaparecimento, devolvendo à mãe o vírus, marcando-a cruel e definitivamente? Conheci alguém que dizia que não há tortura maior que o silêncio: o silêncio é enlouquecedor! Como lidar com o desaparecimento de uma filha? Haverá silêncio pior?
O mar, signo do destino, por onde se retorna para casa é o mesmo mar que engole Xoan, pai de Antía. Mar que pode unir, trazer de volta ou levar embora e fazer desaparecer. É no reencontro que se volta para casa, no encontro da unidade do vínculo, reencontro de nossa essência como seres essencialmente relacionais, pois só existimos no vínculo! Ao final, Julieta parece estar reencontrando o caminho de casa, no que foi bastante ajudada por Lorenzo que a levantou do chão e da condição de zumbi. Fazemos escolhas pelos caminhos, mas enfrentar o mar e seus desafios é incontornável — formar vínculos, excluir, ser excluído, perder: o mar a todos nós conduz e a todos engole!
“E o fim de nossa viagem será chegar ao lugar de onde partimos. E conhecê-lo então pela primeira vez.” T. S. Eliot (4)
AUTORA
Josimara Magro Fernandez de Souza
Psicanalista, membro efetivo com funções didáticas da Sociedade Brasileira de Psicanálise de Ribeirão Preto (SBPRP) e da International Psychoanalytical Association (IPA) \ Analista de crianças e adolescentes pela IPA \ Coordenadora do programa para equidade racial da SBPRP.
E-mail — josimfs@gmail.com
REFERÊNCIAS
1.Agência Efe. Julieta, de Almodóvar, usa mãe e filha para refletir sobre o mundo e o cinema. Instituto Humanitas Unisinos, 18 maio 2016.
2.Brandão, J. S. (2015). Mitologia grega. v. 1. Vozes.
3.Couto, M. (2003). Um rio chamado tempo, uma casa chamada terra. Companhia das Letras.
4.Eliot, T. S. (1981). Quatro quartetos. Tradução de Ivan Junqueira. Nova Fronteira,.
5.Faimberg, H. (2001). A telescopagem das gerações. In: Escutando a escuta. Escuta.
6.Freud, S. (2011). O eu e o id. In: O eu e o id, “Autobiografia” e outros textos (1923–1925). Tradução de Paulo César de Souza. Companhia das Letras.
7.Klein, M. (2023). Algumas reflexões sobre a “Oresteia”. In: Inveja e gratidão e outros ensaios(1946–1963). Ubu / Imago.
8.Munro, A. (2006). Fugitiva. Tradução de Sergio Flaksman. Companhia das Letras.
FICHA TÉCNICA
Título original — Julieta
Ano — 2016
Países — Espanha
Duração — 96 min
Direção — Pedro Almodóvar
Roteiro — Pedro Almodóvar
Produção — Agustín Almodóvar e Esther García
Fotografia — Jean-Claude Larrieu
Edição — José Salcedo
Música — Alberto Iglesias
Elenco — Emma Suárez – Adriana Ugarte – Daniel Grao – Inma Cuesta – Darío Grandinetti – Michelle Jenner – Rossy de Palma – Blanca Parés
SINOPSE
Julieta (Emma Suárez/Adriana Ugarte) é uma mulher de meia idade que está prestes a se mudar de Madrid para Portugal, para acompanhar seu namorado Lorenzo (Darío Grandinetti). Entretanto, um encontro fortuito na rua com Beatriz (Michelle Jenner), uma antiga amiga de sua filha Antía (Blanca Parés), faz com que Julieta repentinamente desista da mudança. Ela resolve se mudar para o antigo prédio em que vivia, também em Madrid, e lá começa a escrever uma carta para a filha relembrando o passado entre as duas.
