SILENCIAMENTO, DESUMANIZAÇÃO, PSICANÁLISE — Banzo (2025)

— MIGUEL SAYAD —

Meu texto utiliza o filme Banzo, de Margarida Cardoso, como disparador para uma reflexão profunda sobre o legado do colonialismo, a função ética da psicanálise e a necessidade de descolonizar tanto o pensamento quanto as instituições psicanalíticas. A seguir, apresento um resumo estruturado e expandido dessa reflexão.

O Banzo como sofrimento é consequência do poder opressor

O termo “Banzo”, derivado do quimbundo mbanza (aldeia), é definido como um estado de depressão melancólica extrema, caracterizado por apatia, recusa alimentar e a perda da vontade de viver. Mais do que um quadro clínico, o Banzo é a inscrição somática do trauma da escravidão — a perda forçada da terra, da cultura e da liberdade.

Historicamente, o sistema escravista operou uma “racionalização perversa” ao medicalizar o Banzo. Ao tratá-lo como uma doença física ou infecção contagiosa, os senhores de escravos desviavam o olhar da causa real: a violência desumanizante. Essa estratégia de negação permanece viva no século XXI como mecanismo para silenciar o sofrimento dos oprimidos e proteger as estruturas de poder.

A posição esquizo-paranóide colonial-contemporânea

Situado em 1907, em São Tomé e Príncipe, o filme Banzo retrata um médico português incumbido de conter uma “epidemia” entre escravizados. Inicialmente, o médico busca uma solução biológica para evitar o contágio. Ao encontrar o sofrimento irremediável dos prisioneiros, ele é confrontado com sua própria impotência e com a falência de sua visão de mundo higienista.

Essa dinâmica é articulada como a posição esquizo-paranoide descrita por Melanie Klein: O colonizador separa o mundo em “bom” (si mesmo/civilizador) e “mau” (o colonizado/selvagem), uma clivagem do eu.

A preocupação com a “doença” (Banzo) não é humanitária, mas defensiva; trata-se de evitar a perda de produtividade e a contaminação ideológica de novas levas de escravizados pelo ideal financeiro do Outro opressor.

Essa estrutura psíquica e social colonial não é um eco do passado, mas uma estrutura ativa na contemporaneidade. O filme espelha como o poder colonial opera através da dissociação: a manutenção de uma “boa consciência” cristã e civilizada enquanto se tolera, e mesmo se louva, a exploração e o massacre em nome do progresso e desenvolvimento econômico financeiro.

A racionalização e o silenciamento como fetiche

A racionalização — o mecanismo de defesa que justifica o mal sob pretensas “boas intenções” — e o silenciamento constituem um fetiche que protege o sujeito da angústia despertada face à verdade do Inconsciente. No movimento psicanalítico, a medicalização da alma e a busca por uma “pureza conceitual” estão a serviço e são formas sofisticadas de silenciamento.

O foco exclusivo no sintoma individual desvia a atenção das causas sociais e políticas do sofrimento. O filme fala: “Mesmo que nós falássemos, o que ia mudar?”, um ceticismo defensivo. A elaboração desse trauma, contudo, só é possível através da palavra-ação. Falar sobre o que foi ocultado é o método para romper a inércia da posição esquizo-paranoide.

Colonialismo histórico e presente

O texto estabelece uma conexão incisiva entre o silenciamento dos escravizados no filme e o silêncio do movimento psicanalítico internacional diante do massacre e da limpeza étnica do povo palestino a partir de 2025 (1948). A névoa que encobre a ilha no filme representa a barreira legislativa e psíquica do colonialismo, que entorpece a percepção da violência exercida sobre os corpos negros e outros povos oprimidos e o enevoamento defensivo dos que se protegem da própria fala para manterem seus interesses inconscientes colonialistas.

A psicanálise, se pretende ser fiel ao seu potencial de desvelamento, não pode ser “neutra”. O texto critica a interpretação “standard” da neutralidade clínica (muitas vezes traduzida de forma enviesada pelo eurocentrismo), que se tornou um álibi para a indiferença perante a opressão. A verdadeira escuta analítica, na visão do autor, é antirracista e decolonial.

O destino do médico: a impossibilidade da inércia

A trajetória do protagonista do filme — um médico gentil que, diante da barbárie do sistema, sente-se impotente e acaba por diluir-se na névoa — serve como metáfora para o analista que, mantendo-se atado às normas de um sistema opressor, termina por ser consumido por sua própria inação.

O “movimento regressivo” de Freud, lembra-nos que a busca pela verdade não deve ser sacrificada em nome de interesses nacionais ou corporativos. A descolonização da mente exige que o psicanalista deixe de ser um observador passivo (“estrangeiro ao sistema”) e se reconheça como um agente, um protagonista que testemunha a dor e denuncia a estrutura que a gera.

A psicanálise como ação

O texto conclui que a descolonização do pensamento psicanalítico é um imperativo ético. Inspirado pelos versos de Walt Whitman (1) que convoca o psicanalista a ir ao encontro dos feridos (“é melhor ir até eles”), em vez de se refugiar na segurança técnica e nos subterfúgios das amizades com o sistema colonial.

O Banzo não é apenas uma melancolia histórica; é o alerta de que, onde há silenciamento, há um massacre sendo perpetrado. A tarefa da psicanálise contemporânea é transformar a “melancolia” da inércia em uma “ação-no-mundo” que recupere a voz dos silenciados e desmascare a face cruel do Patriarcado Maligno. A busca pela “explicação para o inexplicável” não termina na teoria; ela se resolve no engajamento político e humano contra toda forma de desumanização.

Esse texto propõe, fundamentalmente, uma viragem: a psicanálise não pode mais se dar ao luxo de ser um refúgio da “boa consciência” enquanto o mundo sofre as consequências de estruturas coloniais que, embora disfarçadas de contemporaneidade, mantêm intacta a lógica da exploração e do silenciamento do “outro”.

Resta enfim a reflexão de como você avalia a ideia de que a “neutralidade analítica” tem sido utilizada, ao longo da história da psicanálise, como uma ferramenta defensiva para evitar o posicionamento ético diante de grandes crises humanitárias?

AUTOR
Miguel Sayad
Médico Pós Graduado em Psiquiatria pela UFRJ – Universidade do Brasil \ Psicanalista Membro Efetivo da Sociedade Brasileira de Psicanálise do RJ \ Ex-membro do Comitê da IPA junto à UN \ Diretor e Criador do EV – Espaço Vazio – Projeto de Residências Criativas fundado nos conceitos psicanalíticos de D. W. Winnicott
E-mail — mi.sayad@gmail.com

REFERÊNCIA
1.Whitman, W. (1865). “Ir ao encontro dos feridos”, citação do poema “The Wound-Dresser” in Drum-Taps.

TRAILER

FICHA TÉCNICA
Título original —Banzo
Ano — 2025
Países — Portugal – França – Holanda
Duração — 127 min
Realizadora — Margarida Cardoso
Argumento — Margarida Cardoso
Produção — Filipa Reis
Fotografia — Leandro Ferrão
Som — Jaap W. Sijben
Edição —Pedro Filipe Marques
Elenco — Carloto Cotta – Hoji Fortuna – Rúben Simões – Gonçalo Waddington – Sara Carinhas – João Pedro Bénard – Maria do Céu Ribeiro – Matamba Joaquim – Romeu Runa – Cirila Bossuet

SINOPSE
O enredo retrata a relação violenta entre colonos e negros em trabalho escravo e se passa no início do século XX, ambientado na ilha africana de São Tomé e Príncipe onde Afonso, um médico, tem como missão curar um grupo que sofre de Banzo, uma “nostalgia patológica” dos escravizados.