SONHAR O AMOR — Roma (2018)

— ANA RAQUEL SANTOS —

Numa das cenas iniciais de Roma (2018), Pepe brinca com o irmão no terraço superior da casa, enquanto Cleo, a empregada doméstica da família, lava a roupa num tanque. Vestido com uma capa de herói e uma pistola na mão, Pepe deita-se e finge-se morto, lembrando, naturalmente, que, quando o chamam, não pode responder. Cleo brinca, imitando Pepe e, quando este a questiona sobre o que faz, responde que também ela não pode dizer, pois está morta e a gostar muito! 

A imagem é de sintonia entre ambos, deitados, de cabeças encostadas, num plano em que vemos os terraços da cidade, espaços em que se repetem tarefas quotidianas. Entre o brincar e a realidade, haverá forma mais bela e sensível de nos apresentar esta personagem central de Roma? É ela que nos irá guiar pelas memórias de infância do realizador mexicano Alfonso Cuarón, base do filme. 

O ambiente recria a Cidade do México, dos anos 1970, período marcado por convulsões políticas e sociais, e o “microcosmos” que é a casa da família, o número 21 da Rua Tapeji, no Bairro La Roma. O poder das imagens a preto e branco e as cenas quotidianas da casa, que se sucedem calmamente, remetem-nos, de forma espontânea, para as memórias de infância.

Cleo, a empregada indígena que veio para a cidade e cuida da família, é uma presença constante, embora quase invisível. Vive num anexo, separado da casa principal, partilhado com outra empregada da família e ouvimo-las a conversar na sua língua materna — o mixteco — como se de um mundo à parte se tratasse.

Cleo mostra-se delicada, introspectiva, amável e é o “olhar” das crianças que lhe dá significado. É ela, principalmente, quem cuida delas: brinca com elas, escuta-as, acorda-as, veste-as e conta-lhes histórias na hora de ir dormir. O momento enternecedor em que escuta um dos sonhos de Pepe, no qual este lhe conta que, quando “era velho”, sonhou com Cleo, mas ela era outra pessoa. Cleo faz o reparo — “quando fores velho” — e Pepe diz-lhe ter sido antes de nascer, quando era piloto de guerra e estava com medo, revelando, assim, a enorme ligação inconsciente entre ambos.

Fora deste “microcosmos”, Cleo deseja experimentar o mundo movimentado e cheio de vida da cidade. Acompanhamo-la pelas ruas, no cinema, nos cafés, nos bairros pobres periféricos, distantes da Rua Tapeji, e nos espaços pertencentes a um mundo diferente do seu, em que se movimenta a família. Espaços minuciosamente recriados, nos quais Cleo vivencia o enamoramento, o encantamento, a tristeza, o desamparo, a violência, a perda e a morte. É surpreendente o equilíbrio físico e mental que mantém, como simbolicamente mostra uma cena em que um professor de artes marciais dirige um exercício coletivo. Cleo, sem qualquer prática de artes marciais, é a única que se consegue equilibrar – o equilíbrio necessário à sobrevivência entre dois mundos, podemos imaginar?

A par de tudo isto, e intrinsecamente ligado aos conflitos internos das personagens, seguem a confusão da cidade, os conflitos sociais e políticos, a violência e as catástrofes naturais que instalam o caos e permeiam a vida de todos. De forma repetida, escutamos o som dos aviões que sobrevoam a cidade, recordando-nos, talvez, que tudo é transitório. Um caos que se estende também ao “microcosmos” da família e que nos mostra como as figuras femininas (Cleo, a mãe e a avó) mantêm as rotinas e os cuidados, lembrando-nos Winnicott (1) nessa função estruturante e humanizadora das figuras maternas, como barreira protetora contra as violações traumáticas, garantindo a continuidade da experiência de existir.

A água, esse elemento primordial da vida, surge na primeira imagem do filme e está também presente na poderosa sequência final, como elemento reparador e transformador para Cleo e para a família da qual cuida. É o momento em que Cleo adquire uma subjetividade plena, que lhe permite verbalizar os seus sentimentos mais profundos e ser olhada e escutada, com amor e agradecimento.

É um filme que ademais nos lembra, permanentemente, as desigualdades e as diferenças de classes sociais e étnicas, mas que se centra nas relações humanas. Significativamente, sucede Gravidade (2013), o aclamado sucesso do realizador. Em Roma, conseguimos identificar esta mesma curiosidade e interesse de Cuarón. Porém, só um poeta os conseguiria interligar, de uma outra forma: “A diferença de classe é, depois da anatomia, a mais nítida e actuante distinção entre as pessoas. E não há diferença sem conflito. Acreditar na luta de classes não é uma ‘ideologia’. A luta de classes é uma lei tão evidente e tão férrea como a lei da gravidade.” (2) 

Num documentário sobre o filme, A caminho de Roma, o realizador revela que durante a sua produção teve uma crise pessoal grave, questionando “Como poderia ter um castelo de fantasia montado e não lhe apetecer brincar?”. Roma resulta de anotações das suas memórias de criança, ao longo de cinco anos, e de entrevistas com a sua ama. Numa espécie de associação livre, os atores só tinham acesso ao guião no momento da gravação, pois Cuarón queria captar a verdade emocional das personagens naquele instante. Nas suas palavras, o filme desencadeou em si uma série de emoções que não lhe eram conscientes e conta que, pela primeira vez, se colocou no lugar do pai, de uma outra perspectiva, vivendo o momento em que este abandona a família. Fala-nos da recriação da sua infância e das suas situações traumáticas como uma tentativa de elaboração — “O conflito (e a necessidade de superá-lo) é um elemento fundamental na criatividade.” (3)

Roma é um filme delicado, humano e poético que homenageia as figuras femininas/maternas da infância de Cuarón, mas que remete para a infância de todos nós. Dedica-o a “Libo”, a sua Cleo, num gesto de gratidão, sentimento que sabemos estar intimamente ligado e dependente da confiança em figuras boas.

AUTORA
ANA RAQUEL SANTOS
Psicóloga Clínica \ Membro da Sociedade Portuguesa de Psicanálise (SPP).
E-mail — anaraquel.rebelo@gmail.com

Referências
1..Winnicott, D. (1960). The Theory of the Parent-Infant Relationship. International Journal of Psychoanalysis, 41: 585-595.
2.Mexia, P. (2009). Estado Civil – Diário de uma Crise (2006-2008). Tinta da China.
3.Klein, M. (1957). Inveja e Gratidão e Outros Trabalhos. Imago, 1991.

TRAILER

FICHA TÉCNICA
Título original — Roma
Ano — 2018
País — México e E.U.A.
Duração — 135 min
Realizador — Alfonso Cuarón
Argumento — Alfonso Cuarón
Produção — Gabriela Rodríguez – Alfonso Cuarón – Nicolás Celis
Fotografia — Alfonso Cuarón
Edição — Alfonso Cuarón e Adam Gough
Elenco — Yalitza Aparicio – Marina de Tavira – Diego Cortina Autrey – Carlos Peralta – Marco Graf – Daneial Demesa – Nancy García Gracía – Verónica García – Andy Cortés – Fernando Grediaga – Jorge Antonio Guerrero – José Manuel Guerrero Mendoza – Latin Lover

SINOPSE
Cidade do México, década de 1970. Cleo, de origem indígena, é empregada em casa de António e da sua esposa Sofia. Para além das responsabilidades domésticas, ela tem a seu cargo as quatro crianças do casal. Cleo é a primeira a levantar-se para acordar as crianças, alimentá-las e levá-las à escola e também a última a deitar-se depois de deixar tudo em ordem para o novo dia. Enquanto isso, o casamento está em ruptura e o país em mudanças…