ENTRE RASGOS E COSTURAS — The Girl with the Needle (2024)

— HELENA CUNHA DI CIERO —

Há histórias que não se contam, suspendem o fôlego, arrancam as palavras. Esta é uma delas. Emoldurada pelas sombras de Copenhague, a narrativa, tingida pelo expressionismo alemão, ganha vida sob a direção do cineasta sueco Magnus von Horn. Entre o peso dramático e o fio cortante do suspense, a trama se desenlaça nos silêncios deixados pela Primeira Guerra Mundial, quando o mundo ainda aprendia a respirar outra vez.

Levei um tempo para escrever sobre a história de Karoline e Dagmar. Especialmente por saber que foi inspirada numa história real. Dagmar Johanne Amalie Overbye, conhecida como a Criadora de Anjos (1887–1929), se oferecia como ponte entre mães aflitas e destinos de adoção.

Entre 1913 e 1920, em tempos de olhares distraídos quando o mundo ainda se reerguia das marcas do conflito bélico, seus crimes se multiplicaram na penumbra. Seus métodos: enforcar, afogar, queimar. Fragmentos de pequenos corpos foram encontrados no sistema de aquecimento de sua casa, como se o choro dos bebês ficasse presos nas argamassas das paredes. Seu julgamento, com cento e vinte e duas páginas de confissão, serviu de base para o roteiro do filme — uma narrativa entre o real e o insuportável.

Enquanto me preparava para escrever, me sentia grávida de um liquidificador, pronta para parir um elefante, um furacão — como diz a música da cantora brasileira Marina Lima:

Eu tô grávida / Grávida de um beija-flor / Grávida de terra / De um liquidificador / E vou parir / Um terremoto / Uma bomba, uma cor / Uma locomotiva a vapor / Um corredor / É que eu tô, tô grávida / Esperando um avião / Cada vez mais grávida / Estou grávida de chão / E vou parir
 / Sobre a cidade / Quando a noite contrair / E quando o Sol dilatar / Dar à luz / É que eu tô, tô grávida / De uma nota musical / De um automóvel / De uma árvore de Natal / E vou parir / Uma montanha / Um cordão umbilical / Um anticoncepcional / Um cartão postal / É que eu tô, tô grávida / Esperando um furacão / Um fio de cabelo / Uma bolha de sabão / E vou parir / Sobre a cidade / Quando a noite contrair / E quando o Sol dilatar / Vou dar à luz.

Isso, pois a experiência do filme perdura dentro de nós com uma força centrífuga, assim como a trilha sonora de Friederik Hoofmeier, que traz notas que se estendem, ruídos sensoriais que se alongam, transformando-se numa experiência de presságio.

Assim como as notas musicais do filme seguem tocando em nosso interior, ainda após seu final, os bebês do filme são adotados por nós. Penetram em nossas entranhas como uma agulha afiada no fundo de nossa carne e nela sobrevivem. Se aninham em nossa mente, num movimento que se dá de fora da tela de cinema para nossas entranhas, agulhada que finca, retorce e contamina como um parafuso enferrujado.

Penso que a cena inicial dos rostos, que mais parecem as figuras deformadas de Francis Bacon, talvez sejam também os nossos, horrorizados com a banalidade do mal apresentada nessa narrativa. Há algo no filme que é uma mistura de Baby Jane com o palhaço It, medos infantis que se reatualizam. Dagmar tem um pouco dos dois, mas também da bruxa de João e Maria, que disfarça o destino azedo de crianças numa loja de doces.

“Não dê nome ao seu bebê, mas você pode amamentá-lo” é o conselho de Dagmar para a jovem. Diz a psicanálise (2) que aquilo que não é nomeado tende a ficar num lugar de repetição, procurando uma elaboração a partir de um ato. Lembro-me de uma entrevista do ator Matheus Nachtergaele (3) na qual ele comenta sobre o suicídio de sua mãe, quando ele tinha poucos meses de idade. Conta o ator que, desde seu nascimento, sua mãe escrevia um diário no qual descrevia o que se passou em cada dia desde o nascimento de seu filho: Matheus mamou, Matheus acordou, Matheus dormiu. Mas, ao longo do tempo, seu relato vai mudando: “O bebê acordou, o bebê sorriu” por aí vai. E, nessa não nomeação, ela vai revelando o distanciamento entre ela e seu filho. Até que se suicida, no dia de seu batismo. Numa consulta psiquiátrica o médico diz ao ator: “Matheus, você é um bebê que foi olhado nos olhos, e isso fica. Houve um tempo em que sua mãe te olhou nos olhos.”

Tenho a impressão de que nossa protagonista olhou nos olhos de sua bebê, e essa experiência a marca de tal forma que ela tenta reviver amamentando os outros bebês de Dagmar, numa tentativa de resgate de sua maternidade perdida. Penso também que há ali algo de sua experiência com sua mãe que é revivido e que ela tenta resgatar, identificação que se revela na fala: “Minha mãe vendia meu leite.”

Por outro lado, eu me pergunto: o que será que Dagmar via nos olhos dos bebês de tão ameaçador que pedia aniquilamento? Que bebê ela teria sido?

Outro aspecto importante é que, assim como numa sessão de análise, as primeiras falas são reveladoras, assim se dá na cena inicial do filme. Uma mãe e uma filha ocupando o apartamento de Karoline, que estava à beira de ser despejada. A protagonista, numa postura de defesa, anuncia a presença de ratos que surgem no meio da noite enquanto dormimos. Essa fala vem acompanhada de uma careta, enfrentando, numa postura mais infantilizada, quase regredida, a menina-visitante. Então, somos surpreendidos pela cena de violência, onde essa criança é brutalmente silenciada por um tapa de sua mãe.

De fato, nesse filme, crianças são caladas violentamente, tratadas como ratos de esgoto a serem eliminados. No texto “Mal-estar na Civilização” Freud (4) nos diz que, entre fezes e sangue, nascemos, e nesse filme, crianças nascidas são tratadas como fezes.

Enquanto escrevia o comentário, lembrei-me do trabalho do artista Rineke Dijkstra e suas fotografias de mulheres no pós-parto. Seu trabalho, intitulado “The Newborns”, revela o desamparo, o desespero, o medo e o poder no olhar das mulheres no período do puerpério. Esse olhar aparece na cena em que Karoline foge do marido com a neném nos braços, pronta para levá-la para a adoção, enquanto ele trazia nas mãos um berço para sua bebê.

Há nesse filme a presença de muitos buracos: o buraco da latrina, onde crianças desaparecem, o buraco dos olhos do marido de Karoline, o buraco do poço, da miséria, dos traumas de guerra, os buracos de ser mulher. Mas há também muitos elementos de laços e rendas brancas, belas, delicadas, que aparecem nos vestidos, nas roupas e nos lençóis. Me perdi nessas duas imagens tão antagônicas, sem entender por que elas me tomavam, até que ganhei de presente, um ninho de passarinho. Que é um buraco rendado por galhos.

Logo, lembrei-me de Ernaux, que narra em seu livro “O Acontecimento” (5) o aborto feito por ela na juventude, do quanto sentia que precisou daquela provação e daquele sacrifício para desejar ter filhos e, segundo ela, aceitar a violência da reprodução em seu corpo e tornar-se, por sua vez, lugar de passagem de gerações.

Então, decidi criar uma fábula que acomodasse esse filme dentro de mim. Os gravetos que ficaram do filme me rasgavam demais, era preciso aninhá-los de alguma forma para que coubessem numa produção escrita.

Talvez esse filme possa ser visto como um romance de formação de uma mãe. Nas primeiras cenas, a heroína aparece mais infantilizada, regredida — vide a forma como se iguala à criança na cena inicial, ou a forma como lida com a expulsão do apartamento. Já num momento mais pueril, envolve-se com o dono da fábrica, e, cheia de ilusões, dança em volta da árvore de Natal repleta de sonhos, ainda sob uma névoa mais infantil. Em seguida, passa por um tempo de dor, sacrifício e desilusão. E, com o bebê quase adotado, brinca de boneca, percebendo em si sua capacidade de cuidar. Há também a cena na qual ela se recusa a identificar-se com Dagmar, quando esta a agarra, com o bebê entre as duas, tentando ensiná-la como matar bebês. Karoline então pula da janela e renasce entre maçãs. Abre os olhos, livra-se do éter anestesiante e se junta ao circo onde seu marido está trabalhando, que a acolhe e a recebe.

Na última cena, reencontramos Karoline já de cabelos curtos e penteados, vestida de maneira mais apropriada, não mais com aquela camisola de mulheres no pós-parto. E ela abraça Erena. E a doçura desse abraço nos traz alguma ternura possível nesse cenário pós-guerra e nos possibilita o anúncio de um final/recomeço feliz.

Dagmar nos diz que o mundo é um lugar horrível. Nesse único ponto estamos de acordo, mas talvez transformar o terror em fábulas e poesias seja o antídoto contra o horror da guerra. Quem sabe seja uma forma de fazer renda com galhos afiados de árvores, transformando-os em ninhos de palavras. Essa costura possível, é a aposta da psicanálise.

AUTORA
Helena Cunha Di Ciero
Membro efetivo e docente da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo (SBPSP) \ Autora dos livros “Instantes de dentro”, 2022, Quelonio e “O que enxerguei quando seus olhos ficaram opacos”, 2024. Quelonio.
E-mail — hcdiciero@gmail.com

REFERÊNCIAS
1.Lima M. Gravida. In: Marina Lima. [Álbum]. Composição: Arnaldo Antunes e Marina Correia Lima. 1991.
(https://open.spotify.com/intlpt/track/70XLzY3aNHeauBw9T6rimo?si=0457871244a045fd&nd=1&dlsi=ee0dce03dcbf434a)
2.Freud, S. Recordar, repetir e elaborar (1914). In: Obras completas. Tradução de Paulo César de Souza. Companhia das Letras, 2010. v. 12.
3.Nachtergaele, M. (2024, novembro 24). Entrevista no programa Lady’s Night com Tata Verneck [Reel no Instagram]. https://www.instagram.com/reel/DDp36P1hjTE/?hl=pt-br
4.Freud, S. O mal-estar na civilização (1930). In: Obras completas. Tradução de Paulo César de Souza. Companhia das Letras, 2010. v. 18.
5.Ernaux, A. O acontecimento. Tradução de Marília Garcia. Fósforo, 2021.

TRAILER

FICHA TÉCNICA
Título original — Pigen med nålen
Título inglês — The Girl with the Needle
Título português — A Garota da Agulha 
Ano — 2024
Duração — 123 min
Países — Dinamarca – Polônia – Suécia
Direção — Magnus von Horn
Roteiro — Magnus von Horn e Line Langebek Knudsen
Fotografia — Michal Dymek
Produção — Malene Blenkov e Mariusz Wlodarski
Edição — Agnieszka Glinska
Música — Frederikke Hoffmeier
Elenco — Vic Carmen Sonne – Trine Dyrholm – Besir Zeciri – Ava Knox Martin – Joachim Fjelstrup – Tessa Hoder – Ari Alexander – Per Thiim Thim – Søren Sætter – Lassen – Benedikte Hansen

SINOPSE
A Garota da Agulha se passa em Copenhague após a Primeira Guerra Mundial. A jovem e trabalhadora Karoline (Vic Carmen Sonne) é uma operária que perde seu emprego por conta da sua gravidez, fruto de um caso amoroso com seu chefe. Com o desaparecimento de seu marido em combate e o relacionamento fracassado entre ela e o patrão, Karoline, gestante, sozinha, cai numa situação miserável cada vez maior. Um dia, a garota encontra consolo e uma forma diferente de sobreviver com Dagmar (Trígono Dyrholm), uma carismática mulher mais velha, diretora de uma agência de adoção clandestina que vive sob o disfarce de uma loja de doces. Karoline e Dagmar criam uma conexão e um vínculo intensos, mas o mundo da jovem desaba quando ela percebe o peso do trabalho de Dagmar, no qual já estava envolvida involuntariamente.