O PODER DA MÚSICA – ASCENSÃO OU QUEDA – Tár (2022)

— MARGARIDA MIRANDA —

O filme Tár centra-se em Lydia Tár (Cate Blanchett), maestrina da prestigiada Orquestra Filarmónica de Berlim, reconhecida como uma das maiores compositoras-regentes vivas e a primeira mulher a assumir a direção musical de uma grande orquestra alemã. A narrativa explora o labirinto de relações de poder, sedução e interesse que Lydia tece à sua volta — quase sempre com mulheres.

No auge da sua carreira, Lydia prepara-se para lançar uma autobiografia e dirigir a icónica 5.ª Sinfonia de Mahler. Ao longo do filme, vamos acedendo, de forma gradual, a camadas cada vez mais profundas da sua personalidade: começamos pela imagem pública e socialmente admirável, passamos pela faceta exigente e genial da maestrina, até alcançarmos o íntimo mais frágil e obscuro da sua vida pessoal e afetiva.

Os primeiros indícios de perturbação surgem com a insónia e a escuta obsessiva de um som de metrónomo — elemento persecutório e quase torturante. O seu mundo interno fragmentado começa a emergir subtilmente. Gradualmente, torna-se claro que Lydia manipula e instrumentaliza os outros como peças de um jogo de xadrez, guiada por uma necessidade compulsiva de controlo — das pessoas e do tempo. “O tempo é o mais importante. É a peça mais importante da interpretação. Eu inicio o relógio.” A frase revela o sentimento de omnipotência que o lugar de regente lhe confere.

A estrutura de poder de Lydia começa a ruir quando descarta Francesca, sua assistente, que alimentava expectativas de ascensão profissional. O seu súbito e misterioso desaparecimento marca o início de uma desorganização interna em Lydia, revelando a importância desta figura como eixo organizador. Uma fissura abre-se no seu narcisismo.

Em paralelo, o suicídio de uma antiga aluna, Krista, que deixa uma carta acusando Lydia de sedução e rejeição, expõe publicamente os abusos de poder da protagonista. As acusações são agravadas por imagens manipuladas das suas aulas, que comprometem a sua credibilidade. O jogo de poder começa a inverter-se.

Numa tentativa de manter o controlo, Lydia força a escolha da jovem solista Olga para interpretar o solo de Elgar. No entanto, Olga não se deixa seduzir, e Lydia experimenta, pela primeira vez, a rejeição, a humilhação e o perigo. Num momento simbólico e enigmático, ao procurá-la num cenário desolador e degradado, Lydia é atacada e o seu rosto desfigurado — metáfora da queda da sua máscara e do colapso das suas defesas narcísicas.

Eros cede lugar a Thanatos (2).

Com a fragilidade exposta, surge o que parece ser o seu lado mais autêntico. Winnicott (3) usou o conceito de verdadeiro self para descrever um sentido de si baseado na experiência espontânea e autêntica e na sensação de estar vivo. Lydia revela-nos assim o seu verdadeiro self até então oculto.

A descredibilização alastra-se a todas as esferas da sua vida e expõe o abuso de poder, em particular o assédio sexual e laboral praticado no meio musical, ao serviço do seu narcisismo e que podemos encontrar nos dias de hoje em diversas áreas da sociedade.

Lydia perde tudo: o prestígio, a posição, os concertos e até o contacto próximo com Petra, a filha adotiva, a única relação marcada por afeto genuíno. O culminar da sua queda dá-se com a perda do cargo de maestrina titular. Incapaz de lidar com a dor, explode num acesso de fúria narcísica e agride violentamente o maestro substituto em pleno palco. A dúvida permanece: foi real ou delírio? Este estado confusional remete-nos para o conceito de “mudança catastrófica” de Bion (1).

Numa breve visita à casa da família, onde reencontra apenas o irmão (a mãe permanece ausente), Lydia parece procurar um eco do seu narcisismo perdido — os troféus, os sonhos antigos, a figura idolatrada do maestro Bernstein, de cuja máxima se apropriou: “O mais importante na música é como ela te faz sentir.”

Depois desta despedida simbólica, parte para um novo continente e uma nova vida, para dirigir uma orquestra menor, mas os fantasmas do passado persistem. Entre realidade e delírio, os seus pesadelos funcionam como alucinações punitivas, projeções da sua culpa. Freud via na alucinação a realização de um desejo e no sonho a expressão de um processo interno.

Os diferentes espaços que habita refletem diferentes dimensões da sua psique: a beleza ordenada da sala de ensaios, a sofisticação fria da casa de família, o refúgio isolado onde compõe, o ginásio onde treina boxe em modo automático, a casa abandonada onde se degrada. Está sempre em movimento, nunca permanecendo muito tempo no mesmo lugar. Estes mundos surgem dissociados, quase sem contacto entre si. 

A agressividade, antes sublimada pela música, emerge agora em estado cru. E, no fim, é a música — essa mesma arte que a elevou — que simultaneamente a salva e a destrói.

A música em TÁR não é apenas pano de fundo — é estrutura e linguagem da própria narrativa, tal como o tempo, o silêncio, a pausa e a escuta são fundamentais numa sessão de análise. Se no início somos apanhados de surpresa pela inversão dos créditos finais, gerando um sentimento de estranheza e desorientação, esse desconforto mantém-se até ao fim. Tal como numa sessão analítica, essa estranheza abre espaço para a dúvida, para a escuta e para a construção de múltiplos sentidos singulares. A experiência do filme — profundamente ambígua e humana — espelha o que acontece na análise: um percurso único, onde o tempo, o som (ou a sua ausência) e a escuta atenta conduzem à revelação da subjetividade.

AUTORA
Margarida Miranda
Psicóloga Clínica e da Saúde na ULS São José – Hospital de Santo António dos Capuchos \ Membro Candidato da Sociedade Portuguesa de Psicanálise
E-mail — margaridavasconcelosmiranda@gmail.com

Referências 
1.Bion, W. R. (1981). Il cambiamento catastrófico. In Seminari brasiliani. Loescher. 
2. Freud, S. (1921). Psicologia de Grupo e a Análise do Ego. Imago, 1996. 
3.Winnicott, D. W. (1960). Distorção do ego em termos de verdadeiro e falso self. O Ambiente e os processos de maturação: estudos sobre a teoria do desenvolvimento emocional. Artmed, 1983. pp. 128-139.

TRAILER

FICHA TÉCNICA
Título original — Tár
Título português — Tár (PT/BR)
Ano — 2022
País — Alemanha / E.U.A.
Duração — 158 min
Realizador — Todd Field
Argumento — Todd Field
Produção — Todd Field/ Alexandra Milchan/ Scott Lambert
Fotografia — Florian Hoffmeister
Música — Hildur Guonadóttir
Edição — Monica Willi
Elenco — Cate Blanchett/ Noémi Merlant/ Nina Hoss/ Sylvia Flote/ Mark Strong/ Sophie Kauer/ Julian Glover/ Alec Baldwin/ Sydney Lemmon

SINOPSE
A maestrina e compositora norte-americana Lydia Tár tem somado sucessos ao longo dos anos, culminando agora com a liderança da celebrada Orquestra Filarmónica de Berlim. Também está prestes a lançar um livro e prepara-se para gravar ao vivo a Sinfonia n.º 5 de Gustav Mahler (1860-1911). A sua vida parece perfeita. Até se ver envolvida numa polémica que faz com que tudo se desmorone como um simples castelo de cartas.