BRANCO NO PRETO, PRETO NO BRANCO — The Second Mother (2015)

— SANDRA SOUZA FREITAS —

O Brasil é o país que abriga o maior contingente de empregadas domésticas no mundo: 93 empregadas por 100 habitantes. Em 2015: 4 milhões de empregadas negras e 2 milhões de mulheres brancas. Em 2017, esse número correspondia a 17% do trabalho formal das mulheres — Deputada Estadual Taina Aparecida Silva Santos (1).

Este filme da Anna Muylaert pode ser considerado uma fábula contemporânea.

De um lado, temos os patrões, estereótipos do mal, da opressão. A par da violência sistêmica, mantêm com firmeza a tarefa de realçar o poder e a desigualdade.

De outro, do lado complementar, temos Val, afrodescendente, pernambucana. Trabalha há mais de 10 anos como empregada doméstica na casa da família. Casa situada no Morumbi, um dos bairros mais exclusivos de São Paulo. É a babá do menino Fabinho, cujo crescimento acompanhamos.

Desde a primeira cena do filme temos conhecimento de que Val, como uma boa mucama, cuida amorosamente dele, aí incluído o tradicional cafuné — origem no quimbundo e, como nós conhecemos, significa acariciar/coçar a cabeça de alguém, como quem cata piolho. E também temos conhecimento que Val tem uma filha, Jéssica, que ficou com alguém no interior.

Antes de Jéssica

Tudo parece ir como deve. Val, reina da porta pra cá: cuida da casa; do cachorro; dos homens da casa; dos outros empregados.

Acorda o deprimido ‘Seu’ Carlos (um ex-artista plástico), dá-lhe seus remédios, seu almoço e seu guaraná. Tem notícias da sala de jantar apurando os ouvidos pela escuta atrás da porta.

Identificada com uma patroa ou com as patroas, distribui e “regula” a comida para os outros empregados.

Surge aqui Preta Rara, historiadora, rapper e que, a partir de um blog de muito sucesso, resultou num livro (2) — Eu, empregada doméstica: a senzala moderna é o quartinho da empregada. São trezentas páginas de depoimentos de empregadas domésticas, filhos, netas, em geral pretas. Publicado sem edição, resulta um livro tão interessante, quanto sem fôlego. Com tudo que achamos que sabemos, mas que ainda nos choca: o passado é hoje, e as histórias, os preconceitos são nossos. É tudo no aqui e agora.

Voltemos a Val, que leva a vida e seus sentimentos de forma a poder criar sua filha sozinha (não temos maiores detalhes da vida de Val).

Há um anestesiamento das suas ambivalências; adiamentos dos seus desejos; negação da sua subserviência e a denegação das maldades que a enredam.

Ela sabe cuidar dos outros. Cuida, escuta e dá conselhos para a Edina, a faxineira sua amiga, e cuida de Fabinho, dispensando-lhe sempre o aludido cafuné.

Uma proximidade física que cresce como cresce o menino (não moleque). As brincadeiras que vemos; as caretinhas, cheirinhos, com um Fabinho de 4/5 anos, perduram também com o moço.

Um campo rígido, formado por normas: um pode-não-pode implícito. Já se deve saber, ao nascer, o seu lugar. Da porta pra lá/pra cá. “Não tem noção?”

Como diz Val: “quando eles oferecem, é por educação, porque sabem que você vai falar não”.
Val entende muito bem dos códigos daquele campo.

No aniversário da Bárbara, por exemplo, Val compra um presente para ela. Uma garrafa térmica, com o jogo de 6 xícaras e 6 pires brancos e pretos. Muito moderno.

Grande cena: Val vai montando as xícaras e pires na bandeja, com grande concentração e cuidado. “Descasado, é pra colocar descasado!”

Uma charada: um jogo de xadrez. Preto no branco, branco no preto.
(Brincadeira ontológica da vida?)

Sempre falta lugar pra um.

Tira uma xícara para caber a garrafa. Não gosta. (Desfalca a tradicional meia-dúzia.)

Se, no entanto, retorna à meia-dúzia, não sobra lugar para a garrafa.

E agora, Val?, perguntaria o poeta.

Segue assim a cena que culmina com Val se equilibrando com a bandeja e as 6 xícaras na mão esquerda, a garrafa na direita na missão de servir café na festa dos grã-finos.

A porta da sala se abre, Val lá vai – e já de volta, eis Val, escorraçada e advertida: tal conjunto era “pra usar no Guarujá!”, gritara a patroa.

Val parece nem se magoar, nem se ofender. Uma descendente da escravidão é praticamente da família: conformada e sabedora do lugar que lhe cabe.

E é nesse cenário, nesse campo fixo, sem brechas, que aparece Jéssica. Inesperadamente. Val é informada que sua filha Jéssica vem pra São Paulo prestar vestibular (provas de acesso ao ensino superior).

Depois de Jessica

A chegada de Jéssica produz uma “ruptura de campo”. Segundo Fábio Herrmann (4), campo, designando as regras que organizam as relações humanas. E na “ruptura de campo” — o acontecimento interpretativo estaria na dependência desse modo de escuta, que explora sobretudo a própria ambiguidade do discurso, com leves toques emocionais, com o assinalamento de uma emoção discrepante ou de representações contraditórias. “Ruptura de Campo é tudo aquilo que abre a possibilidade de ler o material apresentado, em outro campo” (4. p. 30).

A “Ruptura de Campo” traz à tona coisas que estavam opacas na rotina da casa, daquela família. Vir pra São Paulo prestar vestibular para arquitetura “um instrumento de mudança social?”

— Uhm! — suspira a patroa — Viu só esse país está mudando, mesmo?!

A ruptura permite desvelar, e mostrar que o quotidiano é uma ilusão. O absurdo está diante de todos, mas não se vê.

A filha da empregada “quase da família”, aceita o “convite” de ficar no quarto de hóspedes, aceita as flores da Bárbara, toma suco de lima da patroa, senta-se na mesa com o patrão e toma o sorvete do Fabinho.

Tudo isso só para começar.

Jessica é maravilhosa. Ela não é sarada: ela é curada no sentido da “Teoria dos Campos” (4), ela cuida das suas emoções, dos seus desejos. É uma pessoa reta, “não sou inteligente, sou curiosa”, diz.

Jéssica, provoca rupturas em Val, qual fosse um analista.

Na noite da sua chegada, a conversa da Val na cama com o marmanjo do Fabinho (muito grande para dormir de conchinha) é reveladora. ”Ela é tão segura! Vai olhando tudo. Como se fosse um presidente!” Quem é sua filha?

Val, é a primeira a ficar em “vórtice” (3) e não entender mais nada. Por não ter onde aportar, as representações ficam em vórtice ou rodopio. “Finge que corta que eu finjo que molho” — diz ela para a amiga Edina, a diarista. “Só eu posso falar de Jéssica” — e quebra a bandeja de prata.

Há rupturas em todos e por todos lados: a dona de casa, como na fábula, se revela a bruxa maléfica; briga com filho; com o marido; com o rato na piscina – e não sossega enquanto não coloca Jessica de volta no seu lugar, no quartinho da Val.

“Seu” Carlos, o ex-artista plástico — que diz que é quem toca música —, é tocado por Jéssica. No entanto, com tantas possibilidades, repete o lugar-comum congelado do branco machista, patrão escravagista: serva existe para servir.

Aqui, gostaria de falar de quando o Dr. Carlos diz que tem fotos da Val. Mostra uma foto da sua família e Val, toda de branco no fundo da foto. Jéssica diz que parece aquelas babás das propagandas de margarina. Mas essa foto podia ser uma ilustração do livro de Lilia Moritz Schwartz, Imagens da Branquitude: A presença da ausência. (5)

Dr. Carlos (o único doutor do filme), o mais destituído de poder e de futuro, é o escolhido para lembrar a Val do seu devido lugar.

“Pode me trazer um copo d’água? Acende a luz, Val.”

Os passeios pela Faculdade de Arquitetura e Urbanismo – USP e pelo Edifício Copan, dois ícones da arquitetura brasileira, por um lado, e por outro lado, velho assédio. E depois, um esdrúxulo pedido de casamento.

Jéssica não quer, ela quer usar seu lugar de cidadã no mundo. Livre dos preconceitos e pronta para as mudanças sociais. Sabe o que quer: quer estudar e criar seu filho (iremos saber que ele existe).

Curar tem para Fabio Herrmann (3) três sentidos: o tratar-se, o cuidar-se e o alcançar um ponto de razoável completude.

Voltando ao filme, outra ruptura de campo surge quando Fabinho não consegue os pontos suficientes para primeira fase do vestibular, e Jéssica consegue.

É indisfarçável, inegável o prazer de Val, há uma nova representação. Essa traz uma no final do túnel.

Tudo o que se segue é nessa direção: falar no celular com a filha dentro da piscina, até pedir as contas para a patroa depois que Fabinho viaja para Austrália (para firmar as diferenças, que não pensem que não existem). Perde os sentidos velhos e outros novos podem aparecer.

Não há como negar a alegria e o humor de Val chegando na sua casinha, com suas malas, malinhas, vidros e vidrinhos. Se fosse um filme de mocinho, a plateia iria bater palmas e assobiar, com o famoso presente rejeitado (a garrafa térmica\bandeja com as xícaras branco e preto), roubado da dona Bárbara.

Val falando do que deixou para trás e das possibilidades para sua vida daqui pra frente: vou fazer um curso de massagista. “Vai buscar meu neto, Jéssica.”

“Você vai cuidar dele, mãe? Chama Val pela primeira vez de mãe.

É uma fabula do bem, de esperança, de um Brasil possível. Um sonho realizado.

“Não sou um cidadão de segunda classe”, diz Jéssica, e salva a mãe — encaminhando-a para a cura.

Liberta-a da sina e acorda-a para o desejo, para as suas outras possibilidades.

AUTORA
Sandra R. Moreira de Souza Freitas
Psicóloga pela Universidade de São Paulo \ Membro efetivo da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo (SBPSP)
E-mail — sandrasouzafreitas@gmail.com

REFERÊNCIAS
1.Taina Aparecida Silva Santos (1994). Mestra em História Social (2023) e bacharel em História pela Universidade Estadual de Campinas − Unicamp (2018).
2.Preta Rara (2019). Eu, Empregada doméstica: a senzala moderna é o quartinho da empregada. Grupo Letramento.
3.Herrmann, F. (1991). Clinica Psicanalítica Arte da Interpretação. Casa do Psicólogo.
4.Herrmann, F. (2001). Introdução à Teoria dos Campos. Casa do Psicólogo
5.Schwartz, L. M. (2024). Imagens da Branquitude: A presença da ausência. Companhia das Letras.

TRAILER

FICHA TÉCNICA
Título original — Que horas ela volta?
Título inglês — The Second Mother
Ano — 2015
País — Brasil
Duração — 114 min
Direção — Anna Muylaert
Produção — Fabiano Gullane – Caio Gullane – Karina Teles – Michel Joelsas – Lourenço Mutarelli
Cinematografia — Barbara Alvarez
Edição — Karen Harley
Elenco — Regina Casé – Camila Mardil – Michael Joelsas – Karine Teles

SINOPSE
A trama acompanha Val, uma empregada doméstica, pernambucana, afrodescendente, que deixa sua filha no interior, para trabalhar como babá em São Paulo. Treze anos depois a filha, Jéssica, chega à capital para fazer vestibular. Isso, tem um efeito na vida de Val e de todos da casa. Desvela questões entre classes sociais, denuncia questões do racismo.