MENSAGEM A FLOW — Flow (2024)

— MARIA ELISABETH CIMENTI —

Bravíssimo Flow, como está? Adoraria ter notícias suas.

Pensei em escrever sobre minha experiência ao conhecer você através do filme que leva seu nome. Sou uma mulher branca, cis, psicanalista, mãe e avó. Tenho uma boa vida, bem estruturada, daria para se dizer. Desde esse lugar, entro em uma sala de cinema para assistir um documentário-animação “para crianças” premiado e passo a viver uma experiência inesperada e imediata de desamparo — hilflosigkeit — segundo Freud. O desamparo mais antigo, aquele que vivemos ao nascer com tanto despreparo e que assombra o ser humano para sempre. A primeira cena o apresenta, Flow, como um gatinho perdido.

Um gatinho preto aparece na tela em meio a uma enorme inundação. Essa é a cena inicial do seu filme, Flow. Por que a cor de seu pelo era justamente preta? A crença popular diz que gato preto dá azar, revelando certa apreensão com relação aos felinos dessa cor. Porém a cor negra não ameaça e é rechaçada apenas nos gatos. Nos humanos ela remete ao racismo e dominação histórica do branco sobre o negro, colocando sempre este último no lugar de desvalor. Flow, você já teve problemas devido a seu pelo ser preto?

Você estava, todo negro, franzino e assustado, espreitando sua própria imagem nas águas, atônito e desconcertado. A cidade está submersa e vazia. Sem palavras, submergimos com você nessa experiência solitária, que se confronta com o Real da natureza e da crise ambiental que vivemos na atualidade. Fica uma forte impressão de que um acidente climático ocorreu e deixou um rastro de devastação. Sua imagem é trêmula, amigo. Estremecemos frente a nossa pequenez; estremeci frente a você e o falsear de sua imagem. Recentemente minha cidade passou por uma trágica enchente, cujas águas tomaram as casas de muitas pessoas locais. Desde então, a chuva não nos causa mais a sensação boa de adormecer com o barulho de seus pingos caindo e batendo em nossa janela, mas nos invade a presença trêmula do pânico.

Flow, você descobre por fim uma casa inabitada e seus moradores não retornam até a noite. Está totalmente abandonada, à mercê das águas. Decide lá pernoitar, pois o andar superior está intacto. Adormece logo, de tão cansado. Pela manhã, alarmado com os latidos de cachorros, foge sem rumo, correndo o mais que pode até conseguir entrar em um barco que se encontra à deriva. Nesse novo espaço consegue se manter relativamente a salvo. O barco se move nas águas que parecem de um rio. Aí inicia uma jornada, com encontros e desencontros, aproximações e distanciamentos, segurança e ameaças. Mas há movimento e inclusão de outros, outras espécies que se tornam parceiros e se ajudam, mesmo alguns mostrando uma certa estranheza inicial.

As mais diferentes espécies passam a conviver em certa harmonia e o surpreendente, é que isso causa perplexidade a nós, que assistimos. O convívio pacífico entre diferentes, para nós que tendemos a tratar as diferenças como desigualdades, parece impossível. Mas você nos mostra ser possível, sim!

Com esse clima, seu documentário nos remete à Arca de Noé, história de Gênesis da Bíblia. Deus provoca um dilúvio para dar uma lição aos seres do mundo em função do modo devastador como estavam vivendo. Coloca Noé e sua família em uma embarcação junto a um casal de cada espécie. Desejava garantir novas gerações de seres vivos melhores para habitarem o mundo. Segundo a história, Deus esperava provocar uma transformação reparadora no mundo. E talvez estejamos justamente vivendo um momento assim. Convocados a navegar por transformações. Pensar-nos como parte da natureza. Afastar-nos do lugar garantido pela cultura de que a posse garante o ser, como se o ter e o ser significassem o mesmo.

O filme apresenta um gatinho frágil e vacilante com olhar temeroso, porém curioso. Assustado. Pisava com medo. Não se sabia de onde vinha e o que ou quem poderia ter perdido pelo caminho. Estava doídamente só. E esse era o principal mote do filme. Seu filme nos joga ao fundo da solidão natural humana, como se puxasse uma tábua escorregadia aos nossos pés. Sutilmente desliza para a solidão e temores do ser vivo em um mundo que teima em ser desconhecido e se reapresentar pleno em estranheza. Imagino o impensável que seria para você anteriormente ter de transitar em meio a tanta água, lembrando que gatos não gostam de água. Pensaria até que seria contra sua natureza, pois estiram suas patas com impaciência quando se molham. Entretanto, apresentou-se uma situação sem escolha. O mundo estava imerso. Incrível como a certa altura do filme você se torna capaz de nadar para pescar o que comer. Ainda mostra solidariedade com os outros animais, que, incapazes de nadar, não conseguem alcançar seu alimento. Em sua pesca, busca um peixe para cada companheiro que estava no mesmo barco. Como seria o mundo se o alimento pudesse ser assim dividido por todos e com todos?

À medida que o barco navega, Flow, você permite o ingresso de outros animais em seu barco, um bicho preguiça, uma garça que passa a protegê-lo como a um filho — embora seja de outra espécie —, um roedor e um cachorro, que eventualmente, traz junto outros cães amigos seus. O filme, conforme foi dito, aborda a questão da tolerância à diversidade através dos vários animais que embarcam, mas vai além, destaca a necessidade de solidariedade, reconhecimento e cuidado com o outro, ainda que diferente, para se sobreviver. Fica claro como não há possibilidade de sobreviver sem alguma mutualidade entre os seres. Estabelecem-se, gradativamente, regras de convivência respeitosa. Cada um a seu modo vai construindo um viver em paz.

Os inúmeros perfis apresentados no filme podem se cruzar com os existentes na sociedade de nosso tempo. Afloram características do sistema capitalista dominante em vários personagens. Lembra Flow, da voracidade dos cachorros que desejavam comer sem preocupação com o outro? E o roedor inseguro, que precisava acumular muitos e muitos objetos para se tranquilizar. Sentia como se perdesse pedaços de si, quando algum objeto dele se extraviava, recorda? Que angústia ligada a um vazio ou ao medo estaria por trás? Como objetos materiais supérfluos poderiam garantir a sensação de bem-estar? Inacreditável, ver aquele bichinho acumulando quinquilharias, em meio a uma situação de ameaça e desamparo, na qual esses objetos de nada serviriam… É possível, Flow, que o acúmulo de objetos materiais promova a ilusão de completude e segurança imaginária? Mas faltava a ele um juízo mínimo de existência, que lhe permitisse superar essa compulsão a acumular e ingressar na realidade que estava experimentando, de ameaça à sua vida. A necessidade de rejeitar as vulnerabilidades a que estamos expostos cega alguns, mas não a você, Flow. Propõe, com seu jeito natural, um modelo de viver para todos nós. À propósito, o nome que lhe foi dado – Flow – significa fluxo, fluidez. Se pudéssemos contar com o saber que flui a partir de nossas experiências com a natureza, para daí enfrentar as ameaças com humildade e um olhar de quem está vendo todo o mundo, a cada experiência, pela primeira vez. Afinal, a gente está no mundo como aprendiz mesmo. Que seu gentil e generoso saber possa fluir e atravessar cada um de nós.

Foi um grande prazer conhecer você! Despeço-me com um carinhoso abraço. Beth

AUTORA
Maria Elisabeth Cimenti
Mestre em Psicologia Clinica pela PUCRGS \ Psicanalista, Membro efetivo da Sociedade Psicanálise de Porto Alegre (SPPA)
E-mail — bethcimenti@hotmail.com

TRAILER

FICHA TÉCNICA
Título original — Straume
Título inglês — Flow
Título português — À Deriva (PT)
Ano — 2024
País — Letónia – França – Bélgica
Duração — 85 min
Realizador — Gints Zilbalodis
Argumento — Gints Zilbalodis e Matīss Kaža
Produção — Matīss Kaža – Gints Zilbalodis – Ron Dyens – Gregory Zalcman
Cinematografia — Gints Zilbalodis
Música — Gints Zilbalodis e Rihards Zaļupe
Edição — Gints Zilbalodis
Elenco — desenho animado

SINOPSE
Um gato preto deambula por uma floresta quando é surpreendido por uma inundação. Na luta pela sobrevivência, encontra refúgio num barco à deriva. Dentro da embarcação vai encontrar uma capivara, um cão, um secretário e um lémure com quem segue viagem por cidades semi-submersas, num mundo destituído de seres humanos. É um filme de animação de aventura e fantasia, notável por ser completamente renderizado no software de código aberto Blender e não conter nenhum diálogo.