ÉCRAN DA MEMÓRIA — Aftersun (2022)

— RITA AMORIM —
Aftersun, primeira longa-metragem de Charlotte Wells (2022), é, mais do que um filme sobre o passado, uma deriva no presente da memória. O que nele se desenha não é a história de uma viagem entre pai e filha, mas o mapa intermitente de uma recordação que se reconstrói, falha e vacila — e nessa oscilação revela a condição humana na sua natureza mais íntima: a relação entre amor e perda, presença e ausência, filiação e desaparecimento. A câmara, silenciosa e cúmplice, não é apenas testemunha, é o próprio aparelho psíquico de Sophie adulta que, décadas mais tarde, tenta tocar — com a pele da imagem — o que escapou à sua compreensão infantil.
Aos trinta anos, Sophie revisita as memórias da viagem que fez com o pai quando tinha onze. Mas, como na clínica, o que é, aparentemente, simples no conteúdo, manifesta-se como excessivamente complexo na forma: cortes abruptos, temporalidades que se sobrepõem, buracos na narrativa, repetições visuais e ecos sonoros. O ecrã torna-se superfície de projecção, não da verdade do passado, mas do trabalho do luto — no sentido freudiano do termo (2) — em que o sujeito se vê forçado a reconhecer a perda e, na sua elaboração, a construir sentido onde antes havia apenas ausência.
É esta ausência — presença lacunar do pai — que atravessa todo o filme. Calum, jovem demais para o papel paterno e velho demais para acompanhar a adolescência iminente da filha, é uma figura descentrada, incompleta e frágil. Os gestos de afecto que oferece são reais, mas sustentam-se num corpo em ruína. A depressão, nunca nomeada, infiltra-se na narrativa como um não-dito constante. É neste ponto que o filme se articula com o conceito lacaniano (4) de Nome-do-Pai — essa função simbólica que organiza o desejo, separa a mãe do filho e introduz o sujeito na ordem da linguagem e da lei. Em Aftersun, o pai não encarna essa função, ou fá-lo de modo claudicante. Calum não é o representante da Lei, mas um homem em suspenso, às margens do próprio lugar simbólico. Ele escapa ao que a criança poderia reconhecer como referência estruturante. É pai, sim, mas um pai poroso, desviado do seu próprio eixo.
Esta falha não se revela em nenhuma cena dramática; emerge, pelo contrário, nos interstícios: quando Calum se afasta para praticar tai chi, quando lava os dentes em silêncio com uma expressão ausente, quando dança sozinho, ou se entrega a um choro contido numa poltrona. Sophie vê, mas não entende. A criança vê sempre mais do que compreende, e é neste excesso que o filme opera com uma delicadeza radical. A memória – memória-écran freudiana (3) que remete para uma lembrança substitutiva, encobridora de outra mais significativa ou traumática — funciona aqui como véu e revelação. O vídeo caseiro, suporte material da rememoração, é ao mesmo tempo protecção contra o real e instrumento da sua reinscrição. A Sophie adulta que vê aquelas imagens procura nelas algo que não está — ou melhor, que só agora se pode entrever.
A relação entre pai e filha é de ternura densa mas também de uma quase inversão de papéis. Em muitos momentos, é Sophie quem escuta, pergunta e cuida. A sua maturidade precoce — visível nos comentários e nas observações que faz do mundo — revela a dimensão parentificada da sua posição. Como escreveu Winnicott (6), a função do ambiente suficientemente bom é sustentar a imaturidade da criança, protegê-la do excesso de realidade. Mas em Aftersun, é Sophie quem protege. O seu olhar é o de quem procura compreender o incompreensível. Numa cena em que observa adolescentes mais velhos, percebe-se como Sophie tenta antecipar um crescimento e preencher a ausência simbólica com uma experiência que ainda não lhe pertence. A sua relação com o pai não é marcada por violência, mas por uma espécie de ausência flutuante que a obriga a crescer lateralmente, não em linha recta, mas a partir de dobras internas.
Na cena crucial da dança ao som de Under Pressure, os corpos de pai e filha não se tocam, mas orbitam um ao redor do outro, num ritmo que é simultaneamente íntimo e irremediavelmente separado. O gesto de Calum, de se mover em direcção a Sophie, e o dela, de se afastar, não são coreografia — são acto psíquico. A filha tenta fixar o pai, puxá-lo para o lugar de segurança que ele não consegue ocupar. Mas o gesto falha, porque há em Calum algo irrecuperável. Ele já partiu, mesmo quando ali está. Sophie intui isso, não com palavras, mas com o corpo. É esse saber pré-verbal — aquilo a que Bollas (1) chamaria saber evocativo — que organiza a experiência emocional da infância: um saber do afecto, sem conceito, mas com peso.
A viagem, espaço temporal e geográfico suspenso, cumpre aqui a função de zona transicional. Não é apenas deslocamento físico — é passagem psíquica. Entre o tempo da infância e o da idade adulta, entre o saber da criança e a elaboração da mulher. O hotel, a piscina, os espaços partilhados e solitários são enquadramentos do psiquismo. Tal como o espaço potencial winnicottiano (7), a viagem torna-se o palco onde se joga o entre-dois: entre o real e o imaginário, entre o afecto vivido e o que dele se recorda. O tempo presente é convocado não como flashback, mas como reinscrição traumática: a Sophie adulta, agora talvez mãe, tenta refazer a imagem do pai, compreendê-lo à luz de um saber que então lhe faltava.
Ao recusar qualquer explicação biográfica ou narrativa sobre o destino de Calum, Charlotte Wells opta por uma estética da perda: tudo é insinuado, nada é encerrado. Este silêncio narrativo não é omissão — é respeito pelo indizível. A morte, a separação, a depressão — estão todas ali, mas como espectros. São o real lacaniano — aquilo que resiste à simbolização total (5). A câmara, ao voltar insistentemente para os fragmentos de vídeo, tenta tocar esse real com a delicadeza de quem sabe que tocar demais pode destruir.
No fim, o que resta é o gesto: a imagem de Calum a acenar, pela última vez, entre a porta que se fecha e o escuro que se segue. Sophie vê, e nesse ver há um acto de filiação tardia. O pai, finalmente, é visto como homem — não como herói, não como suporte, mas como sujeito em queda. E nesse olhar, talvez, haja lugar para o perdão. Não o perdão moral, mas o reconhecimento do impossível: que os pais são apenas humanos, e que o amor, mesmo quando falha, pode ainda ser memória viva.
Aftersun não oferece catarse. Não há lição, nem resolução. Há só um corpo de rapariga a tentar lembrar-se de um pai — e uma mulher a tentar ser filha, finalmente. Como se, ao voltar ao passado, pudesse dar nome àquilo que não teve nome: um pai que amou, mas não pôde ficar.
AUTORA
Rita Amorim
Psicóloga Clínica e Psicoterapeuta \ Candidata na Sociedade Portuguesa de Psicanálise (Instituto de Psicanálise de Lisboa)
E-mail — ritacardosoamorim@gmail.com
REFERÊNCIAS
1.Bollas, C. (2022). A sombra do objecto: Psicanálise do não dito. Relógio D’Água. (Obra original publicada em 1987)
2.Freud, S. (2010). Luto e melancolia (1917). In Obras Completas, Vol. XIV. Companhia das Letras. (Obra original publicada em 1917)
3.Freud, S. (2011). Sobre a lembrança encobridora (1899). In Obras Completas, Vol. III. Companhia das Letras. (Obra original publicada em 1899)
4.Lacan, J. (1998). Os escritos. Zahar. (Obra original publicada em 1957)
5.Lacan, J. (2005). O seminário, livro 11: Os quatro conceitos fundamentais da psicanálise. Zahar. (Obra original publicada em 1973)
6.Winnicott, D. W. (2019). O ambiente e os processos de maturação: Estudos sobre a teoria do desenvolvimento emocional. Artmed. (Obra original publicada em 1965)
7.Winnicott, D. W. (2020). Brincar e a realidade. Imago. (Obra original publicada em 1971)
FICHA TÉCNICA
Título original — Aftersun
Ano — 2022
Duração — 102 min
Países — Reino Unido e Estados Unidos da América
Direcção — Charlotte Wells
Argumento — Charlotte Wells
Produção — Eva Yates – Lizzie Frankie – Kieran Hannigan – Tim Headington – Lia Buman
Fotografia — Gregory Oke
Música — Oliver Coates
Edição — Blair McClendon
Figurino — Frank Gallacher
Maquilhagem — Claire Walker
Elenco — Paul Mescal – Frankie Corio – Celia Rowlson-Hall – Brooklyn Toulson – Sally Messham – Kayleigh Coleman – Harry Perdios – Ruby Thompson – Ethan Smith – Zeynep Akkaya – Olivia Afonso – Ayse Parlak – Kieran Burton
SINOPSE
Durante umas férias de verão num resort na Turquia, Sophie, de 11 anos, aproveita dias ensolarados ao lado do seu jovem pai, Calum. Entre mergulhos na piscina, jogos e conversas aparentemente triviais, pai e filha partilham momentos de ternura e cumplicidade. No entanto, sob a superfície luminosa da viagem, surgem indícios subtis de que Calum enfrenta lutas internas profundas, que Sophie, na época, não consegue compreender. Anos depois, já adulta, Sophie revisita essas memórias com um olhar maduro, tentando reconstruir a imagem de um pai amoroso, mas marcado por uma melancolia silenciosa. Aftersun é um retrato sensível e delicado sobre a memória, o crescimento e as nuances emocionais que moldam as nossas relações mais íntimas. Com direção tocante de Charlotte Wells e performances marcantes, o filme convida o espectador a reflectir sobre o que permanece – e o que se perde – no tempo.
