DANÇAR A RAIVA, UMA RECUSA DO SILÊNCIO — Little Tickles (2018)

— MARTA KUCZYNSKI —
No rastro de um certo cinema de testemunho, o filme “Inocência Roubada” se apresenta como um filme singular. É ao mesmo tempo autobiográfico e coreográfico realizando uma travessia pelo trauma sexual infantil.
Andréa Bescond, a diretora, propõe a partir de sua própria história real um dispositivo narrativo que articula a linguagem do corpo e da palavra, a cena do teatro e do consultório terapêutico.
Odette é uma criança como tantas outras. Gosta de dançar, pular, rir, sentir o próprio corpo existir no espaço. Até que um dia, esse corpo torna-se um lugar de confusão. Alguém próximo, familiar, entra nele sem ser convidado e a partir daí tudo muda.
Não é apenas a violência do gesto que a abala, mas o silêncio que a cerca. A indiferença da mãe, o apagamento do pai, a impossibilidade de colocar palavras sobre o que ainda não tem nome.
Então, ela se cala, mas seu corpo continua a falar. Ele dança. Ele treme, ele se lança. A dança se torna uma maneira de sobreviver, de conter a raiva, a vergonha, a incompreensão. É no movimento que ela se mantém de pé, que respira, que grita, sem uma única palavra.
Odette cresce machucada, dissociada. Tenta esquecer, perdoar, se conformar. Mas aquilo que nunca foi nomeado continua a assombrá-la. Ela se auto-destrói, rejeita o amor, danifica as relações. O passado não passa.
Até o dia em que ela abre a porta de um consultório e uma mulher silenciosa, sem promessas, a acolhe nos seus silêncios. Começa, então, o longo trabalho da palavra. Uma fala fragmentada, revoltada, desajeitada, mas que tenta emergir. A terapeuta não busca entender tudo, permanece ali presente, discreta. Neste espaço, pela primeira vez, Odette pode dizer ‘eu’. Não mais para agradar, nem para calar, mas para se reencontrar.
O trabalho psicoterapêutico ou psicanalítico ilustra fundamentos essenciais. O consultório é para Odette um lugar de reapropriação subjetiva onde se cria um espaço onde pode exprimir a cólera contra sua mãe, contra seu agressor e contra ela mesma.
A dança tem um papel equivalente ao da associação livre em um enquadre psicanalítico. É pelo corpo que Odette consegue começar a dizer o que as palavras não podem exprimir.
O trabalho corporal sustenta, nomeia e confere uma estrutura narrativa num movimento de simbolização progressiva. Dançar a raiva é recusar o silêncio, é direcioná-la ao seu agressor, à sua mãe que nada viu. O corpo torna-se o lugar de um grito impossível assim como espaço de descarga, elaboração não verbal e de transformação do trauma em gesto, memória viva de resistência poética.
A pequena Odette, tocada onde não podia ser tocada cresce entre o riso e o horror, entre o jogo e o abuso.
Ocorre aqui o que Ferenczi chamaria de ‘confusão de línguas’, ou seja, a ternura da criança encontra o desejo do adulto e o gesto brincalhão vira ferida.
Freud descreve o trauma como uma irrupção de energia – um excesso de estímulos – que o aparelho psíquico não consegue processar. No caso da criança, essa incapacidade é ainda mais radical, pois seu aparelho psíquico está em formação e é particularmente vulnerável por ainda não possuir defesas simbólicas e egóicas estáveis. O que ocorre então é que o evento traumático só adquire seu caráter devastador a posteriori, quando a criança, já um pouco mais velha, é capaz de compreender algo da sexualidade ou da violência da cena, o que ele chama de trauma em dois tempos.
Outro aspecto central no filme é o silêncio cúmplice da família. A mãe de Odette nos perturba profundamente. Rígida e autoritária, incarna a incapacidade de escuta, o recalque social e doméstico, a violência da negação e a falha no papel materno que deveria ser uma garantia de proteção. Sua atitude não demonstra somente ignorância, mas desautorização ativa, ou seja, o que a psicanálise chama de desmentido.
O desmentido é um mecanismo traumático em que a percepção e o testemunho da criança são invalidados pelo adulto. O que é vivido como real pelo sujeito é declarado “não real” pela figura de autoridade. Nesse processo, a criança se vê obrigada a duvidar de sua própria percepção, instaurando uma cisão psíquica: por um lado, sabe o que sentiu; por outro, é forçada a introjetar a versão negadora do adulto. O desmentido é menos uma escolha defensiva e mais um efeito da violência e da sugestão do adulto, uma imposição externa que desorganiza a criança.
Esta recusa de sua mãe constitui uma ferida profunda em Odette. Mais devastador do que o abuso sofrido é a traição de não acreditar e não protegê-la.
O corpo foi violado mas a alma, traída.
Pensei muito sobre a escolha do nome Odette que sugere uma analogia com a Odette do balé de Tschaikovski, “Lago dos Cisnes”. No balé Odette é uma princesa transformada num cisne por um feiticeiro. Ela só é mulher à noite e seu destino depende de uma promessa de amor eterno para liberá-la. As duas Odettes são mulheres presas a uma maldição. Uma de ordem psíquica e a outra, mágica. São como duas figuras de um feminino ferido.
O filme não oferece perdão nem esquecimento, mas sim a possibilidade de viver com a ferida. Talvez seja isso que a psicanálise e a arte partilham, essa fé discreta de que o sofrimento, se ouvido, pode se transformar.
AUTORA
Marta Kuczynski
Psicanalista com formação no Departamento de Psicanálise do Instituto Sedes Sapientiae \ Integra o ‘Converse com um Psicoterapeuta’ – Serviço de Psicoterapia do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas (HCFMUSP).
\ Cirurgiã-dentista.
E-mail — martakuc@icloud.com
REFERÊNCIAS
1.Ferenczi, S. (1931). Confusão de língua entre os adultos e a criança. Psicanálise 4. Martins Fontes.
2.Ferenczi, S. (1931). Análise de crianças com adultos. Psicanálise 4. Martins Fontes.
3.Freud, S. (1920). Além do Princípio do prazer. Cia das Letras.
4.Freud, S. (1893-1895). Estudos sobre a histeria. Cia das Letras.
5.Freud, S. (1938). Compêndio de psicanálise. Autentica.
FICHA TÉCNICA
Título original — Les Chatouilles
Título inglês — Little Tickles
Título português — Inocência Roubada
País — França
Ano — 2018
Duração — 103 min
Direção — Andréa Bescond e Éric Métayer
Roteiro — Andréa Bescond e Éric Métayer
Fotografia — Pierre Aim
Montagem — Hervé de Luze
Música Original — Éric Neveu
Produção — François Kraus e Denis Pineau-Valencienne
Elenco — Andréa Bescond (Odette) – Karin Viard (mãe) – Clovis Cornillac (pai) – Pierre Deladonchamps (Gilbert) – Carole Franck (terapeuta) – Grégory Montel
SINOPSE
As Chatouilles (Cócegas), 2018, dirigido por Andréa Bescond e Éric Métayer, acompanha a história de Odette, uma mulher que, na infância, foi vítima de abuso sexual por um amigo próximo da família. Silenciada pela omissão da mãe e pela passividade do pai, Odette cresce carregando uma dor não nomeada, que se manifesta em comportamentos autodestrutivos, raiva e dificuldade de estabelecer vínculos. Através da dança, da terapia e da palavra, ela inicia um processo de reconstrução subjetiva, enfrentando o trauma e ressignificando sua história. Com uma narrativa intensa e fragmentada, o filme transita entre passado e presente, corpo e memória, revelando o impacto profundo do silêncio familiar e o poder transformador da arte na elaboração psíquica.
