OS RUÍDOS DO NÃO PENSÁVEL — The Tin Drum (1979)

— NADJA TROGER —
Em 1979, Volker Schlöndorff realizou uma adaptação cinematográfica das duas primeiras partes do romance “O Tambor de Lata”, de Günter Grass (3), pela qual recebeu tanto uma Palma de Ouro e um Óscar quanto repreensões acerbas, a ponto de o filme ter sido considerado blasfemo e obsceno.
O enredo deste filme estende-se cronologicamente desde a Primeira até ao fim da Segunda Guerra Mundial e relata os destinos de uma família de classe média na cidade de Danzig — atual cidade de Gdańsk, na Polónia —, uma cidade portuária, cuja história foi moldada pelas lutas de poder entre a Polónia e a Alemanha. O narrador, figura central desta trama, é o rapaz Oskar Matzerath, interpretado pelo ator David Bennent de 12 anos de idade na altura das filmagens.
De uma forma satírica e, frequentemente, grotesca apresentam-se os acontecimentos da história, que começa e também terminará num campo de batatas. Aí, num dia chuvoso, a avó de Oskar, uma camponesa da Cassúbia, oferece proteção debaixo das suas quatro saias a um incendiário rebelde em fuga. Deste encontro nasce a mãe de Oskar, Agnes, sendo o seu pai pouco tempo depois obrigado a fugir novamente.
Agnes revela-se uma personagem esquiva e angustiada. Apaixona-se pelo primo, Jan Bronski, um funcionário administrativo dos Correios polacos, mas casa-se com um cozinheiro alemão, Alfred Matzerath, com quem gere uma mercearia. Ao longo da sua vida, Agnes mantém um caso amoroso com o primo, evidenciando-se gradualmente que o marido tem conhecimento desta circunstância. Neste triângulo amoroso, nunca se torna totalmente claro quem dos dois homens é o pai biológico de Oskar, estando ambos presentes aquando do seu nascimento.
Oskar nasce dotado de plena consciência e da capacidade de percecionar as intenções dos adultos. E ele nasce também com extrema relutância! Nesta cena enigmática, o realizador dirige a câmara correspondendo à perspetiva de Oskar e transmite, assim, um sentimento de distância entre Oskar e o mundo envolvente. Oskar revelar-se-á como um eterno estranho que observa e comenta os acontecimentos. A sua resistência a vir ao mundo apenas é atenuada pela promessa da mãe de lhe oferecer um tambor de lata no seu terceiro aniversário.
Por seu turno, o espectador é confrontado com a imagem de uma criança em posição fetal, uma visão que anuncia a complexidade de um contínuo esbatimento das linhas entre a fantasia e a realidade ao longo do filme. Aprisionado entre o desejo de retorno ao ventre da mãe e a rejeição do mundo adulto, Oskar torna-se símbolo do indiferenciado. Este Leitmotiv adensa-se, quando Oskar recebe o tambor de lata prometido no seu terceiro aniversário: atento aos adultos, ele descobre a hipocrisia e os impulsos amorosos dos adultos à sua volta. Decide parar de crescer, descobrindo pouco tempo depois a sua capacidade de partir vidros apenas com o seu próprio grito. Este corpo que não cresce pode ser perspetivado na sua qualidade de impotência, condição esta que procura ser superada através das atitudes omnipotentes que Oskar passará a exacerbar.
Ao deixar de crescer, Oskar afasta-se conscientemente do mundo que rejeita, tornando-se inconscientemente numa caricatura que faz parte desse mundo. A partir desta posição, é-lhe possível observar os adultos, sem se relacionar com eles, embora isso não signifique necessariamente que não procure a proximidade dos outros. O tambor torna-se o seu companheiro permanente, sendo o seu veículo de comunicação, o seu instrumento de expressão emocional e, juntamente com o grito, sobretudo, um instrumento de protesto e de emoções incontidas.Nesta constelação, e tendo em conta o contexto histórico da ascensão do nazismo, o tambor de lata e o grito constituem os ruídos que funcionam como símbolo da resistência, bem como daquilo que não é pensável e é, por isso, propício à ação e à violência.
Oskar usa os seus poderes, não só de forma destrutiva, mas também de forma criativa, como no caso de um comício nazi, cuja orquestra ele faz perder o ritmo com a sua própria bateria, tocando um ritmo de valsa que faz as pessoas dançarem.
Por outro lado, ao longo do filme, não só o caminho de Oskar, mas também o dos demais que o rodeiam é marcado por um misto de procura de afeto e de expressão libidinal, que assume formas invulgarmente regressivas. Assim, a mãe de Oskar acaba por enlouquecer na perpetuação do triângulo amoroso, encontrando apenas escape no suicídio. A segunda mulher na vida de Oskar, da sua idade e de seu nome Maria, uma jovem ama e empregada da família torna-se no seu primeiro objeto de desejo. Ao vê-la nua pela primeira vez, Oskar lança-se sobre a virilha de Maria, como se a quisesse penetrar. Estas imagens transpiram um mundo sensorial no qual se confundem múltiplas linguagens de afeto, de ternura, do jogo e da sexualidade.
A propósito da ideia da confusão de línguas entre os adultos e a criança, o psicanalista Ferenczi (2) escreveu que, mesmo no tocante ao sexual, a criança deseja, acima de tudo, o jogo e a ternura, e não a manifestação violenta da paixão. A figura de Oskar parece ser a expressão contínua do inconsciente, lugar este misterioso polimorfo e originário, onde o materno e a pulsão sexual co-existem e se confundem. Na dimensão sensorial, a natureza humana é ilustrada de um modo cru que pode levar mesmo à repugnância, nomeadamente na cena que apresenta enguias a contorcerem-se para sair da cabeça de um cavalo morto e que anuncia o fim trágico da mãe de Oskar.
As mulheres desempenham um papel central na vida de Oskar, estando ele condenado a perdê-las uma a uma, seja pela existência de um rival, seja por morte prematura. Assim, após a perda da mãe e a traição pela ama ao envolver-se com o pai, Oskar, à procura de um lugar de pertença, junta-se a um grupo de artistas itinerantes portadores de nanismo, que atua para os militares nazis, contexto em que se apaixona por Roswitha Raguna, que virá a morrer num bombardeamento. Derrotado pela perda de Roswitha e obrigado à fuga face ao avanço das forças militares aliadas, Oskar regressa a casa.
Apesar do seu envelhecimento, o mundo interior de Oskar parece ser dominado pelo afastamento da triangulação e pela omnipotência. Oskar é impulsionado por uma raiva edipiana que encontra a sua expressão máxima no ato que conduz à morte do pai, Alfred Matzerath, e que consiste em espetar na mão deste último o alfinete de lapela nazi que costumava usar, quando as forças aliadas invadem o lar da família. Numa perspetiva simbólica, esta cena também alude à culpabilidade associada à participação no movimento nazi através da conivência. Este aspeto central na elaboração da culpabilidade coletiva encontra-se enfatizado numa entrevista dada pela filósofa política Hannah Arendt (1), em 1964, na qual assinala que o verdadeiro problema não residia tanto nos inimigos declarados dos judeus, mas sim, na uniformização/sintonização das pessoas com a causa nazi. Sob este ângulo, a ascensão gradual do nazismo ter-se-á baseado numa indiferença e credulidade das pessoas.
Oskar encarna um paradoxo: ao resistir ao mundo adulto do conformismo e da opressão, mantendo-se um rapaz de três anos — pelo menos fisicamente —, ele afasta-se da responsabilidade e da culpa, mas isso não lhe permite o desenvolvimento da auto-reflexão. Avançar em termos de crescimento interno implica tolerar a realidade do passado, o que, por sua vez, depende da capacidade do indivíduo de tolerar a perda. Na raiz deste dilema encontra-se, segundo o psicanalista Steiner (4), a tensão entre, por um lado, responder à experiência da perda através de uma organização defensiva e, por outro lado, enfrentar a perda e elaborar o luto, renunciando, assim, à omnipotência inerente à destrutividade. Oskar apenas se torna capaz de reflectir sobre a sua destrutividade aquando da confrontação com a morte do pai, pela qual foi responsável. Só então ele pode sentir culpa e, finalmente, crescer.
A resistência ao mundo adulto constitui simultaneamente a prisão de Oskar. Sendo embora bem tratado pela maioria dos adultos, parece não pertencer a lado nenhum, não tem companheiros de brincadeira. É notório que ninguém pergunta a Oskar a razão da sua necessidade de tocar tambor. Por outro lado, nenhuma das personagens que o rodeiam parece estar interessada em explorar mais profundamente as motivações do outro. Mesmo na posição de observador, Oskar parece desejar a proximidade. Mas será que tem capacidade para a intimidade?
AUTORA
Nadja Tröger
Psicóloga Clínica \ Psicoterapeuta e Psicanalista \ Membro da Sociedade Portuguesa de Psicanálise (SPP), da FEP e da IPA \ Assistente Editorial da Revista Portuguesa de Psicanálise (RPP)
E-mail — nadja.troeger@gmail.com
REFERÊNCIAS
1.Arendt, H. (1964). Entrevista legendada com Günter Gaus: https://www.youtube.com/watch?v=dVSRJC4KAiE
2.Ferenczi, S. [(1933)1992]. Confusão de língua entre os adultos e a criança. (A. Cabral, Trad.). In Psicanálise IV. Martins Fontes.
3.Grass, G. (2007). Die Blechtrommel. Dtv.
4.Steiner, J. (2011). Ver e ser visto: Emerging from a Psychic Retreat. Routledge.
FICHA TÉCNICA
Título original — Die Blechtrommel
Título inglês — The Tin Drum
Título português — O Tambor
Ano — 1979
Duração — 162 min
País — Alemanha, França, Polónia e Jugoslávia
Direção — Volker Schlondorff
Roteiro — Volker Schlondorff – Gunter Grass – Jean-Claude Carrière – Franz Seitz Baseado no livro homônimo de Gunter Grass
Produção — Franz Seitz
Música — Maurice Jarre
Fotografia — Igor Luther
Direção arte — Nikos Perakis
Figurino — Inge Heer – Dagmar Niefind – Yoshio Yabalr
Edição — Suzanne Baron
Elenco — Mario Adorf – Angela Winkler – David Bennent – Katharina Thalbach
SINOPSE
Roteiro adaptado do livro homônimo de Günter Grass, o filme conta, pelos olhos de Oskar, a história de vida de sua família, paralelamente à ascensão do Nazismo na Alemanha entre os anos 1920 e 30. O seu nascimento dentro de um triângulo amoroso entre sua mãe, um primo e o pai, dá-lhe motivos para decidir que não irá mais crescer, a partir dos 3 anos de idade, quando recebe o tambor prometido e do qual não se separa mais. Comunica o seu desgosto familiar a par com a repulsa pela situação política, com o rufar do seu tambor e enervantes gritos agudos com os quais quebra os vidros.
