ENTRE A INFÂNCIA E A ADOLESCÊNCIA — Spirited Away (2001)

— MARIANA COSTA MARTINS —

Hayao Miyazaki apresenta do início ao fim, um filme repleto de simbolismo e inspirado no conto “Alice no país das maravilhas”, que nos toca a todos. Talvez seja esse mesmo simbolismo que cativa tanto adultos como crianças, por evocar conflitos (internos e externos) e angústias das inúmeras viagens que nos conduziram da infância à adolescência. Na sua caracterização das personagens, não nos apresenta um desenho estereotipado das personagens de animação japonesa (olhos grandes cativantes e chamativos, cores fortes e exageradas), nem nega a inspiração cultural por detrás de todo o seu simbolismo. Não são de estranhar e estão sempre presentes, influências das suas próprias vivências na última grande guerra, por exemplo. As personagens foram criadas na sua essência para nos cativar pelas suas transformações e conteúdos internos. 

O contexto desta família é rapidamente compreendido nos primeiros minutos do filme. Chihiro, de 10 para 11 anos, a sua mãe e o seu pai (com os quais a maioria se poderá identificar), viajam os três da sua cidade natal para uma zona rural do Japão. Por sinal, de uma infância idealizada como plena e preenchida (representada pela cidade); para um lugar mais recôndito, solitário e desconhecido, onde estão presentes sentimentos de difícil compreensão (a puberdade – representada pelo mundo rural). 

Para trás, Chihiro deixa a sua escola, professores, amigos. Esta mudança e as consequentes múltiplas separações deixam-na triste, contrariada, desconfiada acerca desta nova casa e do novo mundo que iria então encontrar. Consegue verbalizar estes sentimentos aos pais, mas eles parecem estar demasiado ocupados e presentes no mundo dos adultos, entusiasmados e focados na mudança em si, desvalorizando esta inquietação e solidão da filha. Ao mesmo tempo que os seus pais não a viam e não a compreendiam, também Chihiro tinha dificuldade em os compreender. 

Como não conseguiam eles entender que, nesta fase da sua vida, os seus amigos se tinham tornado imensamente importantes para ela? O que poderia ela fazer com o sentimento de perda desses vínculos que começara a criar? Reconstruí-los? Que assustador! Como poderiam eles, não se importar quando a sua vida estava a ser virada do avesso? Que pais frustrantes, indisponíveis e com vontades próprias! Que pais eram estes? Humanos? Com falhas? Onde estavam os pais da sua infância, aqueles que sempre conheceu, capazes de proteção, empatia, segurança? Aparentavam estar a mudar, a transformar-se. Ou seria ela que estaria a mudar? Que confusão! “Não me agarres com tanta força, Chihiro, estás a magoar-me!”, responde-lhe a sua mãe. Chihiro parecia ser mais arrastada do que andar pelo seu próprio pé, sem compreender o que estava a acontecer.  “Pai! Mãe! Vamos voltar, sim?!…”, suplica, sem qualquer efeito.

Naquele momento, a família encontra um lugar desconhecido. Para além de um prado verde com um silêncio encoberto (simbólico da latência), descobrem um mundo novo repleto exclusivamente por restaurantes tradicionais. Chihiro, ao contrário dos pais, continua muito insegura. Os pais, esfomeados, sentam-se num restaurante para comer. Não havendo nenhum empregado à vista, servem-se autonomamente num comportamento mais primário e de gratificação oral. “Não vou comer, eles vão chatear-se connosco”, angustia-se Chihiro, em plena defesa super-egóica. “Não te preocupes, o pai tem a sua carteira, com dinheiro e cartão de crédito”, assegurou-lhe o pai. Como poderiam eles estar assim tão seguros? Afinal, aquele era um lugar vazio, tão novo e tão estranho. Chihiro explora um pouco, receosa. Quando o faz, entra em contacto com um mundo novo mágico. O lado fantasmático do mesmo, fá-la sentir-se perseguida (e agora sim, verdadeiramente assustada) por antigos espíritos e deuses mágicos (fantasmas). Ao tentar regressar, reencontra os seus pais numa posição de fragilidade, a ser punidos pela sua transgressão (a serem agredidos, a precisarem da proteção dela, e não o inverso). A humilhação dos pais é simbolizada no filme, na transformação dos mesmos em porcos. Como suínos, deixam de ser próximos de Chihiro, ou sequer são capazes de comunicar com a filha, que deixa de ser capaz de os reconhecer.

Chihiro fica sozinha… bem, não exatamente. Sente-se terrivelmente sozinha, envergonhada até, sem ser capaz de falar bem sobre tudo isto. Afinal, neste novo mundo (o da puberdade), a condição dos seus pais e até a sua, enquanto “humana fedorenta” (novos cheiros, novas hormonas), precisava de ser mantida em segredo, para sua “sobrevivência”. Mesmo neste estado de angústia e de choros constantes, de luta pela sobrevivência (quer sua, quer dos seus pais), vai sendo capaz de introduzir e descobrir novos objetos, novas relações. Nas quais se destaca Kamaji, que se assemelha a um avô, e Lin, que se assemelha a uma irmã mais velha, pela forma como a ajudam, introduzindo-a a uma nova forma de ser, de estar e de fazer por si mesma.

Enquanto procurava uma maneira de salvar os seus pais, passou a trabalhar num onsen (banhos japoneses), que parece funcionar numa urgência semelhante à de um hospital de guerra. Diferentes clientes chegam em diferentes condições de estatuto e de necessidades, alguns dos quais, terrivelmente magoados e imundos (perder os seus pais infantis e também as suas habituais defesas, parece ter aberto o contacto com esta imundice).

Chihiro, inábil no começo, mas acompanhada por Lin e Haku, aprende depressa, mantém-se focada e demonstra-se útil e competente. Este movimento ganha especial relevância, no sentido em que a solidificação de um sentimento de competência fará parte do desenvolvimento psicossocial do pré-adolescente aos 10 anos, em oposição à predominância de um sentimento de inferioridade (1). Corresponderá na teoria Freudiana ao fim da fase da latência (2), em que sentimentos de repulsa, vergonha e moralidade surgem para lidar com as tempestades ulteriores de efervescência de desejos que vão despertar na maturidade. Haku (que assume tanto a forma de um rapaz misterioso, como de um dragão), inicialmente quase um não-objeto, uma figura omnipresente nesta viagem de Chihiro, adquire subtilmente características de um objeto amoroso, libidinal, no qual ela investe. 

A bruxa Yubaba, por outro lado, é apresentada enquanto uma figura autoritária, restritiva, invasiva, exigente, que inclusive lhe rouba a própria identidade (e a de Haku). Porém, a esta bruxa está associada uma irmã gémea idêntica, Zeniba. Uma figura que inicialmente também é assustadora, mas que se revela empática, afável e tão ou mais poderosa que a sua gémea. Chihiro surpreende-se como duas irmãs com a mesma aparência, podem ser no fundo tão diferentes. É assim, introduzida ao dualismo associado a qualquer objeto interiorizado – o bom e o mau objeto. Aqui, menos clivados por estas duas irmãs homozigóticas.

A sua curiosidade fá-la perguntar sobre o seu novo e enigmático objeto. “Então, mas não pode dar-me uma pista? Sinto que já conhecia o Haku de antes”, indagava Chihiro. “Então, é fácil. Nada do que acontece é esquecido, mesmo quando já não nos lembramos”, responde-lhe Zeniba. É notável a forma como a presença da água, o mar e o rio vão ganhando significado, perante estas dinâmicas inconscientes (e, aqui, perante a contenção das mesmas). A esperança e segurança transmitidas por Zeniba, permitem-lhe fazer essa integração, e recordar um momento antes recalcado, onde se sentiu também em perigo (quando acidentalmente caiu num rio, quando era mais pequena), apercebendo-se então, que não estava sozinha nesse perigo – Haku, Deus desse mesmo rio, estava com ela. Tanto ela como ele, se lembravam um do outro, se recordavam um do outro, se recordavam de si próprios. 

Com esta integração, Chihiro é assim capaz não só de se “salvar” a si própria, mas também de “salvar” Haku (do seu contrato de aprendiz, de dependência, com Yubaba). Com a sua nova confiança, Chihiro enfrenta a Bruxa Yubaba, que tinha um último desafio para ela – identificar os seus pais numa vara. Uma tarefa aparentemente impossível, tendo em conta que Chihiro deixara de reconhecê-los desde que estes se haviam transformado em porcos (de distingui-los dos restantes, objetos também estranhos e repulsivos). Porém, quando confrontada com esta questão, tomou o seu tempo, mas a resposta era-lhe clara quando a deu – os seus pais não estavam ali, era impossível. Não poderiam ser só um daqueles porcos, os seus pais eram os seus pais, e haveriam sempre de o ser (com ou sem “porquices”, novamente suficientemente bons) (4). 

Chihiro, é então capaz de regressar para junto dos pais, tal como eles eram, de avançar nesta sua viagem com uma maior integração do seu self, sem olhar para trás (3), e dar de novo um nome à vida, o seu verdadeiro nome, de construir a sua identidade enquanto alguém capaz (1) também de proteger, sem tantas ansiedades relativamente ao futuro, sem tantos medos ou tristezas de perder o que entretanto se transformou.

Inochi no namae /Nome da vida

“Segredos, mentiras, alegrias
são filhos dos deuses que criaram nosso universo
O coração que está atado ao futuro,
algum dia lembrarei seu nome
Tanto amor que quero gritar.
É uma vida, o lugar ao qual regressar
Em minhas mãos, esses dias de verão nunca desaparecerão”

AUTORA
Mariana Costa Martins
Psicóloga Clínica \ Doutorada em Psicologia do Desenvolvimento (ISPA)
E-mail — mariana.g.c.martins@hotmail.com

REFERÊNCIAS
1.Erikson, E. H. e Erikson, J. (1998). O ciclo da vida completo. Artes Médicas.
2.Freud, S. (1996) Três Ensaios sobre a Teoria da Sexualidade. In S. Freud, Edição standard brasileira das obras psicológicas completas de Sigmund Freud (J. Salomão, trad., Vol.7, pp.118-229). Imago. (Original publicado em 1905).
3.Klein, M. (1997). A psicanálise da criança. Imago (Original publicado em 1932).
4.Winnicott, D. W. (1953). Transitional Objects and Transitional Phenomena: A Study of the First Not-Me Possession. International Journal of Psycho-Analysis, 34, 89–97.

TRAILER 

CRÉDITOS
Título original — 千と千尋の神隠し (Sen to Chihiro no Kamikakushi)
Título inglês — Spirited Away  
Título português — A Viagem de Chihiro
Ano — 2001
Duração — 125 min
País — Japão
Realização — Hayao Miyazaki
Argumento — Hayao Miyazaki 
Produção — Toshio Suzuki (Studio Ghibli).
Música — Joe Hisaishi.
Cinematografia — Atsushi Okui
Elenco / vozes originais – Rumi Hiiragi – Miyu Irino – Mari Natsuki – Bunta Sugawara – Akio Nakamura – Takashi Naitô – Yasuko Sawaguchi

SINOPSE
Inspirado em “Alice no país das maravilhas”, a “Viagem de Chihiro” (2001) toca-nos a todos, constituindo um filme repleto de simbolismo. Conhecemos, no início, uma Chihiro (10 anos), que se envolve em mudanças (viagem) geradoras de angústias, receios, repulsas e tristezas, com o suporte dos seus recursos internos, a presença de vários imagos que estão disponíveis emocionalmente (distintas das parentais) e permitindo um alargamento daquilo que era o seu mundo relacional infantil. Testemunhamos um desenvolvimento notável, profundo e dinâmico da personagem (como é habitualmente oferecido por este realizador e pelo estúdio Ghibli), para uma Chihiro mais contida, segura de si e da sua identidade.