ENTRE OLHARES E MENSAGENS ENIGMÁTICAS — The Good Teacher (2024)

— CLÁUDIA AMARAL MELLO SUANNES —
O filme O Bom Professor nos coloca diante de uma situação em que um professor é acusado de assediar uma jovem aluna. Não sofremos da dúvida sobre a materialidade do acontecimento, mas da angústia de acompanhar o desdobramento tortuoso de uma falsa denúncia e o modo como ela reverbera no acusado e no seu entorno.
Fiquemos, por ora, com algumas cenas.
Sedução, olhares, assimetria
Cena um: Julian, professor de literatura, conversa com seus alunos sobre erotismo, paixão e sedução. Ao exemplificar um conceito, ele diz que Leslie, menina tímida, de lábios carnudos e olhar assustado, está especialmente bonita com aquele cabelo. A turma ri, faz algazarra, e a menina se encolhe, corada.
Cena dois: Julian é chamado à coordenação. Leslie escrevera uma carta à direção acusando-o de assédio. A coordenadora decide falar primeiro com ele; por sugestão do próprio professor, chamam a aluna para conversar. Além da cena em sala, Leslie menciona um outro episódio no qual o professor se referiu ao prazer de beber água. Ele disse que é saborosa olhando nos meus olhos, diz ela. Na sequência, a coordenadora faz um telefonema para a família e ali, por telefone mesmo, conta para o irmão de Leslie que ela acusou um professor de assédio.
Cena três: o professor está na sala com dois ou três alunos. Ao seu lado, Modibo, um adolescente que mal consegue segurar o lápis. Para ajudá-lo a dominar o movimento, Julian propõe que imagine estar mexendo em um chumaço de algodão, fazendo com uma das mãos o gesto correspondente: movimenta os dedos como se estivesse acariciando o lápis. Um gesto terno e sensual.
Cena quatro: Julian — que em uma das últimas cenas do filme dirá a seu companheiro que quer ser um professor inesquecível, aquele que transforma a vida dos alunos como um antigo professor transformara a sua — aplica uma prova e, do fundo da sala, observa os alunos. A câmera convida os espectadores a assistirem a cena do mesmo ângulo que o professor. Nessa mirada, vemos Modibo fazendo a prova, concentrado, escrevendo com a mão direita e acariciando, com a esquerda, o invisível chumaço de algodão. Leslie, talvez querendo espiar a prova da colega, talvez percebendo o olhar vindo de trás, move o pescoço em direção ao fundo da sala e vê Julian que, naquele momento, olhava em sua direção. Os olhares se cruzam e rapidamente se desviam. Uma perturbação se instala. Corte na cena. Quem olhou pra quem primeiro? O que viram? O que desejaram e o que temeram?
O sexual e a instauração do aparelho psíquico
Foi a partir do atendimento a mulheres histéricas que Freud percebeu o papel da sexualidade na formação das neuroses. A chamada Teoria da Sedução sustentava que as neuroses derivavam de lembranças reprimidas de abuso sexual infantil e, como se sabe, logo depois abandonou essa hipótese literal — a de um trauma real — para afirmar o primado da fantasia e do desejo inconsciente.
Laplanche (3) retoma esta ideia para radicalizá-la ainda mais. Em sua Teoria da Sedução Generalizada, ele retira o foco do acontecimento factual — e circunstancial — e o desloca para a estrutura da relação entre adulto e criança. A sedução, portanto, está no cerne da relação e o sexual é necessariamente traumático: traumático porque fundado em um encontro assimétrico; traumático porque instaurado a partir de um desencontro na linguagem.
De um lado, o infans, o ser sem linguagem, totalmente dependente de alguém que o tome como objeto de cuidados. De outro, o adulto que vive sob o domínio de um sexual recalcado; no caso, a mãe, esse ser da cultura, que não exerce os cuidados a partir do instinto, mas da pulsão – que, vale lembrar, opera no limite entre o somático e o psíquico. Ao amamentar, limpar, ninar o bebê, a mãe está lá, de corpo presente, de inconsciente presente. Por meio da experiência erótica envolvida no cuidar, o adulto inscreve as primeiras marcas pulsionais no bebê e então o sexual segue pulsando nele. O sexual, portanto, não é endógeno; ele vem de fora. Vem de um encontro caracterizado por uma assimetria fundamental, no qual o adulto envia mensagens marcadas por seu inconsciente e a criança ainda não tem instrumentos simbólicos para traduzi-las. Os instrumentos vão sendo criados a partir de um esforço de tradução e o aparelho psíquico entra em marcha.
De volta ao filme: os destinos da sedução
Tomemos os personagens Leslie e Modibo para falar da sedução.
Em Modibo, o gesto de investir o invisível chumaço de algodão ajuda o jovem a segurar o lápis, erotiza o movimento da escrita, torna possível o aprendizado: escrever, assim como todas as funções psíquicas correlatas, torna-se um ato investido de prazer, um modo de sublimação.
O olhar do professor, nesse caso, é o olhar que sustenta o devir. Um olhar de quem está ali atrás, como um pai que, fora do campo de visão do filho, o ensina a andar de bicicleta, a ir adiante, seguir em frente, sabendo que está sendo olhado por ele e deixando-o para trás, partindo em direção a outras paisagens, a outros amores.
Para Leslie, entretanto, a sedução é um excesso. Permanece como um olhar que a captura, que a faz voltar-se para trás, fixada num objeto único, o objeto do primeiro amor, sem possibilidade de viver a experiência erótica e, ao mesmo tempo, sem conseguir renunciar a ele. Não aprende a beijar outros homens, como beija seu pai, tal como na bela canção de Gilberto Gil, Pai e mãe (2).
A sedução que movimenta Modibo para a frente, para o mundo, prende Leslie nos seus objetos primários: mas o que ele quer comigo? — pergunta síntese da definição laplanchiana de mensagem enigmática.
Sem encontrar em si mesma meios de tradução, Leslie a transmite à coordenadora da escola que, ao receber a denúncia, precipita sua tradução. Faz da suposição um fato consumado, o que traz uma outra chave importante do filme: o tempo de urgência interpretativa, em que toda ambiguidade precisa ser imediatamente resolvida, todo enigma, decifrado.
O que ele quer comigo?
O filme mostra a vida do professor para além do trabalho, mas não há uma cena de Leslie fora do ambiente escolar e do seu entorno. Sabemos que Julian tem bons amigos, tem um companheiro; eles têm problemas, tentam resolver esses problemas, vão a festas, se divertem.
E o que sabemos sobre Leslie? Muito pouco. Sabemos que é boa aluna, que não tem pai e que vive com um irmão violento. “Se isso for verdade eu acabo com ele. Se for mentira, eu te mato”, ele diz quando recebe a notícia de que ela acusou o professor de assédio.
A acusação não é mentira. Também não é verdade e, por não ser a verdade dos fatos, podemos acreditar na nossa neurótica. Nós os espectadores, não temos dúvida de que não houve assédio do professor, mas não estamos tão seguros de que Leslie não sofra abuso do irmão.
No conhecido artigo A confusão de línguas entre adultos e crianças, Ferenczi (1) afirma que as fantasias lúdicas da criança com o adulto podem assumir formas eróticas, mas permanecem sempre ao nível da ternura; espera-se que o adulto possa receber essa fantasia infantil como algo da ordem da ternura e reprimir a concretização da paixão. Contudo, isto pode tomar outro rumo quando o adulto confunde as aproximações da criança com os desejos da pessoa sexualmente madura, o que configura um abuso. Mas Ferenczi completa: mais do que no ato em si, a potencialidade traumática do abuso consiste no desmentido, pois a criança perde a confiança no testemunho da própria percepção.
A denúncia de assédio pode ter sido uma maneira possível de, por meio de um deslocamento, Leslie dar alguma representabilidade a um abuso sexual. O ato da coordenadora, que convoca uma reunião, embora não tenha o peso do desmentido, marca um descrédito e precipita uma ação que impede que algo possa ser escutado e, neste sentido, deixa a jovem desacompanhada no processo de ligar o afeto a uma representação.
Acompanhando os acontecimentos posteriores pelas lentes de Leslie, cujo olhar expressivo parece sinalizar o que se passa no seu interior, podemos conjecturar que, ao ver Julian sendo ameaçado por seu irmão, interagindo com os outros alunos e com ela própria, conseguiu fazer este trabalho de elaboração sozinha. “Eu me enganei”, ela diz próximo ao final do filme. Mas o medo do irmão, medo que ela também percebe na mãe, a enreda e a impede de dar um ponto final no mal entendido.
Em termos ferenczianos, poderíamos escutar esta fala como uma recuperação da confiança na própria percepção? Talvez sim, mas ainda resta a dúvida se, ao ressignificar a experiência com o professor, ela poderá elaborar a vivência com o irmão, essa sim uma situação traumática. O filme não nos dá pista quanto a isto. Esperemos que o aprés-coup não tarde a se apresentar.
AUTORA
Cláudia Amaral Mello Suannes
Psicóloga e Psicanalista \ Mestre em Psicologia Clínica pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP) \ Membro Associado da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo (SBPSP).
E-mail — clausuannes@gmail.com
REFERÊNCIAS
1.Ferenczi, S. (1933). Confusão de línguas entre os adultos e as crianças. In: Obras completas, Psicanálise IV. Martins Fontes.
2.Gilberto Gil. Pai e mãe. Álbum Refavela, 1975.
3.Laplanche, J. (1988). Teoria da sedução generalizada. In: Teoria da sedução generalizada e outros ensaios. Artes Médicas.
4.Texto baseado em comunicação oral apresentado no Ciclo de Cinema e Psicanálise, parceria da SBPSP e Jornal Folha de São Paulo.
TRAILER
CRÉDITOS
Título original — Pas de Vagues
Título inglês — The Good Teacher
Título português — O Bom Professor
Ano — 2024
Duração — 91 min
País — França e Bélgica
Direção — Teddy Lussi-Modeste
Argumento — Andrey Diwan e Teddy Lussi-Modeste
Produção — Jean-Christophe Reymond
Fotografia — Hichame Alaouie
Música —Jean-Bonoît Dunckel
Edição — Guerric Catala
Figurino — Joana Georges Rosso
Elenco — François Civil – Toscane Duquesne – Bakary Kebe – Shaïn Boumedine – Mallory Wanecque – Marianne Ehouman – Luna Ho Poumey – Emma Boumali – Estevan Marchenoir – Jawed Atik – Mohamed Fadiga – Agnès Hurstel – Myriam Djeljeli – Armindo Alves – Francis Leplay – Emilie Incerti-Formentini – Walid Afkir – Mustapha Abourachid – Fadily Camara
SINOPSE
O filme aborda um professor, idealista e um tanto ingênuo, que ensina literatura para alunos de ensino fundamental. Em uma aula ele cria uma estratégia didática visando engajar os alunos e depois é acusado de assédio sexual por uma das alunas.
