UM LUGAR COMPLEXO E FRÁGIL — Tess (1979)

— ÂNGELA VILA-REAL —

Não é possível deixar de pensar que anos antes do aparecimento desta obra, Roman Polanski foi acusado e condenado pela violação de uma adolescente de 13 anos. No filme, o realizador mostra, de um modo sensível, subtil e claro a imagem a que, na época, a púbere tinha de conformar-se e a fantasia do que seria, a perfeição virginal feminina para o homem.

O filme, na sua globalidade, constitui uma mostra sensível e caleidoscópica da organização social, do jogo de sedução e do contrato amoroso no contexto do século XIX. Não é preciso lembrar a situação da mulher nessa época que Polanski retrata. Tess é uma adolescente de grande beleza natural o que mais tarde é referido pelo seu “primo” como um forte trunfo se usado com sabedoria. O único à disposição de uma jovem.

Sobre esta base inicial destacarei apenas dois temas que são desencadeados logo no início do filme e que vão implicitamente marcar toda a narrativa quer separados quer em interação.

O primeiro tema é ilustrado pela abertura. Um cortejo de raparigas vestidas de branco e de aparência virginal ao som de fanfarra encaminham-se para um campo em que esperam jovens rapazes e irá realizar-se uma festa. Este é um retrato vivo da exigência que na época se fazia às jovens para que pudessem vir a ter existência social: a da virgindade.

O segundo tema, é o que transparece no diálogo entre o padre da aldeia e o pai de Tess que vem a desencadear a elação maníaca do aldeão e da mulher. Em consequência, Tess passa a constituir um trunfo e atravessa um conjunto de vicissitudes ao longo da vida.

Tess é uma adolescente bela, cândida e de uma passividade submissa característica do ideal da época. O pai ébrio, depois de ter sido chamado “Sir” pelo padre e de este lhe ter dito que descendia de uma velha família aristocrática, faz disso notícia na taberna da aldeia. Com a mãe traça o plano de enviar a filha à casa senhorial dos D’Urberville para que se apresente como parente, o que acaba por acontecer.

Os pais fantasiam um passado grandioso e um futuro a contrastar com a situação de pobreza em que se encontram. Implicitamente oferecem Tess como moeda de troca em relação á fantasia de um futuro dourado que querem afirmar na realidade. “Sir John D’Urberville é o que eu sou” diz agora o pai impante de orgulho. Numa vida miserável abre-se uma nesga de esperança que ele amplia.

Tess, é a esperança da família, mas quando a enviam à mansão dos D’Urberville, o “primo” que aprecia sobremaneira a beleza silvestre da jovem emprega-a como serviçal e mais tarde viola-a. A cena de sedução de Tess por Alec mostra uma adolescente que não compreende bem a linguagem da sedução como uma criança alheia à sexualidade adulta. Sandor Ferenczi (1) evidencia-o no artigo amplamente conhecido por “Confusão de Línguas”. Mas, ao mesmo tempo, Tess, em plena puberdade, parece sentir um tumulto confuso e prazeroso. Desta forma súbita e violenta se inicia a vida sexual de Tess que logo engravida. No caso Dora, Freud (2) põe a descoberto o uso como moeda de troca que os homens, de forma mais ou menos declarada, fazem das mulheres, apaziguando as rivalidades recíprocas e disfarçando a sexualidade. No caso de Tess, do ponto de observação em que Polanski nos coloca, parece que o destino inelutável da jovem era o de ser seduzida, violada e de sofrer as consequências disso. O lugar do ser feminino, a natureza do contrato relacional da época, a pobreza da família, o sentimento de inferioridade do pai, a fantasia de um passado grandioso, o desejo de um futuro dourado, a beleza da adolescente e a sua candura, são razões que se reúnem configurando, de modo complexo (3), a identidade e o futuro de Tess.

Um outro retrato dinâmico é o do desenvolvimento da relação de Angel com Tess marcado por todos os elementos a que podíamos chamar preconceitos não fora o seu peso estrutural no mundo social e na organização interna individual. O nome de Angel remete de imediato para uma origem familiar tradicional e profundamente religiosa. O nome e Angel, ele próprio, condensa uma promessa de perfeição terrível que se manifestará na relação entre ambos.

No âmbito desta relação também “perfeita”, enquanto ambos lavam as mãos conjuntamente pergunta Angel: “Quais são as minhas mãos e quais são as tuas?” Tess responde: “São todas tuas”. Estão os dois em consonância perfeita, completa, nesta quase anulação de identidade em que ela é agora parte dele. E isto parece-lhes bom ao ponto de desejarem partilhar todos os segredos, sobretudo os esconsos que pesam e de cujo peso querem aliviar-se.

Quando Tess revela o segredo da sua sedução passada abre-se um fosso de silêncio entre ambos e no mundo interior de Angel.

“Perdoas-me Angel? Tu não me perdoas? Eu perdoei-te e tu não me perdoas?”, diz Tess perturbada e perplexa.

“Tu eras uma pessoa e agora és outra. Tu não és a mulher que eu amava… [És] Outra mulher com a sua forma”, responde Angel mostrando como a sua relação não era com Tess mas com uma representação dela que compreendia apenas o seu aspeto angelical sem mácula. “Eu perdoo-te, mas isso não é tudo. Eu pensava que tu eras uma filha da natureza, mas tu és a última de uma família de aristocratas degenerados”.

Angel distancia-se imediatamente por não poder suportar esta faceta imperfeita, sombria, “degenerada” da vida de Tess. Confronta uma outra parte desconhecida de si; uma rigidez brutal e fria com a confusa incompreensão de Tess em relação a Angel e a si mesma ao ponto de se perguntar quem é ela própria, afinal. A impossibilidade de as respetivas fantasias se relacionarem destrói a ligação. Ergue-se um impasse, uma paralisação, uma manifestação do trauma que se mantém porque se coloca à parte num outro mundo clivado e inconciliável.

As visões que cada um tem do outro, decalcadas de ideais narcísicos socialmente ativos, mantêm-se na ligação, mas não resistem à anulação da clivagem que desvela o trauma.

AUTORA
Ângela Vila-Real
Psicanalista da Sociedade Portuguesa de Psicanálise (SPP) \ Membro da International Psychoanalytical Association (IPA) \ Psicóloga Clínica \ PHD em Psicologia pela Universidade do Porto \ Presidente da IA – Identidades e Afectos
E-mail — angelavila-real@sapo.pt

REFERÊNCIAS
1.Ferenczi, S. (1988) Confusion of Tongues Between Adults and the Child—The Language of Tenderness and of Passion. Contemporary Psychoanalysis 24:196-206.
2.Freud, S. (1905/1952) Fragment of na Analysis of a case of Histeria. The Standard Edition of the Complete Psychological Works, Vol. VII, London, The Hogarth Press.
3.Morin, E. (2011) Introdução ao pensamento complexo. 4ªed. Porto Alegre.

TRAILER

FICHA TÉCNICA
Título original — Tess
Ano —1979
País — Inglaterra, França
Duração: 2H 44
Direcção — Roman Polanski
Argumento — Gérard Brach – Roman Polanski – John Brownjohn
Baseado em Tess of the D’Urbervilles de Thomas Hardy, 1891
Produção — Claude Berry – Timothy Burrill – Pierre Grunstein – Jean-Pierre Rassam
Fotografia — Ghislain Cloquet e Geoffrey Unsworth
Música — Philippe Sarde
Edição — Alistair McIntyre e Tom Priestley
Elenco — Nastassia Kinski – Peter Firth – Leigh Lawson – John Collin – Rosemary Martin – Caroline Embling – Tony Church

SINOPSE
Tess Durbeyfield (Nastassja Kinski) é a filha primogénita de um camponês pobre que vive no condado de Wessex em 1880. Depois de o pai ter descoberto o seu parentesco com uma família aristocrática envia a filha de visita aos parentes. Tess é seduzida pelo primo, Alec d’Urberville (Leigh Lawson) após o que volta para a casa paterna e retoma a vida de trabalho no campo. Mais tarde, conhece e apaixona-se por Angel Clare (Peter Firth), filho de um padre e casa com ele. Esta nova situação expõe e confronta-a com a complexidade do lugar e imagem da mulher na época.