O DESEJO COMO RESISTÊNCIA — The Blue Trail (2025)

— JOSÉ ALBERTO ROZA —
“O futuro é para todos”, proclama a faixa no céu. Um avião anuncia um destino. Pode o futuro pertencer a todos? Em terra firme, a promessa se revela armadilha: não há escolha, apenas a obrigação do exílio. O filme mostra um Brasil onde, sob pretexto do cuidado, velhos são levados compulsoriamente para colônias isoladas, apartados de suas vidas, afetos e vontades. O desejo de não ir, a recusa, a permanência — é apagado pelo discurso oficial e pelas dinâmicas familiares que se arranjam para acomodar a ausência. Escreve-se no muro “Devolvam meu avô”. O desejo dos idosos — explícito ou silencioso — não é consultado. O Estado decide, a família acata, e a tutela desliza para as mãos do outro, que passa a decidir sobre o destino. O desejo é silenciado, desconsiderado, tornado irrelevante.
O filme desafia o chão da existência. Não narra apenas histórias; ele se faz campo de encontros e desencontros. Tereza, protagonista e metáfora, oferece a inquietação de quem viveu anos no trabalho. Recebe, assustada, uma medalha de serviços prestados. É hora de parar. No matadouro, entre jacarés, ela esconde sob a touca, seus cabelos brancos, marca o corpo com o uniforme — neutraliza, sem eliminar, o rastro do desejo.
A casa ganha uma escultura enigmática, homenagem invertida que inaugura um ciclo de exclusão consentida. A honraria se mistura ao decreto de fim, a passagem do lugar social produtivo ao “descanso” imposto. Os velhos que tentam romper o destino, a polícia cidadã apreende: o “cata-velhos” expõe seus prisioneiros pelas grades do carro.
Pode o sujeito continuar desejando? As normas vestem o manto do cuidado, arrastando todos que não se encaixam para além dos limites do que pode ser nomeado como humano.
O campo que se forma é ambíguo: testemunha a exclusão e revela linhas de fuga, brechas, restos de um desejo que sobrevive à racionalidade dos sistemas. “Eu quero voar de avião”, conta a uma amiga. Tereza é feita de encontros: cada um recoloca o campo do desejo, rearranja o espaço do possível, reacomoda o tempo entre o antes e o depois. Nas conversas constrói-se uma travessia. O recorte do filme é a impossibilidade, mas a trama insiste numa pergunta — posso desejar? Tenta comprar uma passagem aérea. O dinheiro não vale. A filha precisaria autorizar. O desdobramento se dá pelo caminhar entre pontes e trilhas à beira do rio em busca do barco que a leve para realizar o desejo.
Os primeiros encontros
Cadu é o barqueiro. É o campo do sonho. É o aprendizado que se mostra, seja com a baba do caracol azul, ser encantado que revela passado e futuro, seja em Cadu ensinando Tereza a navegar. Ele marca o primeiro bom encontro, informa que não podemos deixar que o outro segure nosso leme. Não conseguirá o voo. Tereza terá que improvisar outros caminhos.
Entre o jogo do bicho e o “Peixe Dourado”, conhece Ludemir. Lugares do jogo de azar. Lá, perdem tudo. Tereza nunca jogou. A realidade se impõe. Ludemir falha. Volta no “cata-velhos”. Sua filha acionou a polícia. É chegada a hora de ir para a colônia. Malas prontas.
A rodoviária e a despedida. Outros idosos na espera pela promessa do lugar de retiro. Na mochila, propaganda do governo. Um pacote de fraldas. A verificação do uso delas. “A viagem é longa, não cause problemas a mim”, pede a responsável pelo kit.
A atmosfera do filme angustia. A fila do matadouro. A fuga. Ela deseja viver. Tereza transita sozinha por ruas vazias, atravessando o silêncio de uma cidade pequena. Ao chegar a um bar, encontra o vendedor — não há clientela, só a desconfiança flutuando no ar. Ela pede um açaí. Mas o homem infla o preço com malícia. A transação termina com uma orientação: “Melhor comer no antigo parque de diversões”.
Tereza não confia. Sente, no gesto-olhar do vendedor, o alerta de denúncia travestido de conselho. Prefere afastar-se ainda mais. Percebe a aproximação da polícia cidadã. Não hesita: foge, instintivamente, embrenhando-se entre árvores e galhos grossos, num matagal que serve de abrigo precário. O corpo carrega o cansaço e revela o peso do destino que a persegue.
Adormece com o barulho do mundo abafado pela terra. O sono é interrupção, trégua que o campo permite a quem precisa se esconder da ordem. São duas crianças que a acordam, curiosas diante daquela mulher. Tereza pede ajuda, tenta, criar uma aliança contra o inexorável. Mas ali ninguém pode salvá-la.
Roberta e o Caridad
Uma mulher de cabelo branco aqui não: é o aviso seco, ecoando a exclusão forçada. As crianças sugerem: “Levem-na para a freira do barco!”. Avançam até o cais — onde Roberta e seu barco, Caridad, aguardam. O barco antigo, carrega traços de tempos e mãos que já partiram. Roberta conta que foi antes de uma freira; agora navega sob a lei das margens, longe de qualquer tutela, nunca repousando plenamente em terra firme.
Roberta oferece, a quem encontra, uma bíblia — palavra sagrada em uma espécie de tablet, proteção negociada à margem da fé institucional. O preço, duzentos e cinquenta reais, sugere a dureza do comércio para sobreviver onde nem o sagrado escapa à mercantilização. “Suba rápido no barco!”, apressa Roberta, sensível ao pedido de ajuda de Tereza. Duas mulheres, navegantes de um tempo estrangeiro, unem-se no gesto de partilhar a travessia. Tereza descobre que resistir é também navegar, reinventar o tempo longe de quem normatiza e vigia.
Tereza repara num documento, fixado à parede. Não é apenas posse do barco: atesta que a dona não pode ser levada para a colônia. “Você acha que quem é rico vai para a colônia?”, provoca Roberta. “Eu comprei minha liberdade. Custou caro, mas agora ninguém pode me proibir de navegar.” Não se expõe o preço real, nem de onde veio o direito. A antiga dona do barco era freira. Roberta sequer acredita em Deus. O Caridad, assim, deixa de ser apenas refúgio: é prova de que a liberdade, neste mundo, pode ser registrada por papel — mesmo que custe caro, mesmo que seja exceção. Tereza, faz da dúvida um desejo: comprar o direito ao não-exílio?
A baba azul do caracol
O campo do desejo retorna sob formas inesperadas. Ao lado de Roberta, o caracol azul reaparece. Tereza observa, hesita, recorda-se do momento em que não ousou experimentar a baba azul, escolhendo recusou saber do futuro — mas, agora, sabe que terá de inventar para si um caminho de liberdade. O encontro com Roberta a coloca cantante, viva. Agora escolheu o rio… navegar, segurando seu leme. A baba azul revela o destino.
Quando finalmente Tereza — acompanhada de Roberta — se permite à experiência com o caracol, tudo se dissolve em fronteiras entre o delírio e o desejo. O líquido escorre nos olhos, e a realidade se retrai: a febre cresce, o corpo oscila entre exaustão e leveza, e as falas se embaralham — ora desconexas como sonhos, ora paradoxalmente conectadas por uma lógica própria da alucinação. Roberta acompanha o rito. O tempo já não obedece a etapas lineares. É nesse estado de torpor visionário, que Tereza decide ir ao Peixe Dourado. Roberta permanece no cais. Guiada pela febre e pela ousadia recém-adquirida ― dizem que quem nunca jogou tem a sorte de principiante. É quando o desejo decide, e não mais o medo.
Peixe Dourado
A chegada no cassino se faz em meio a um burburinho denso de vozes e o tilintar de copos. O ar pesa com o álcool e o cheiro de incertezas, enquanto pessoas se aglomeram, suas falas altas suspensas em cada aposta. A ousadia se instala em Tereza. Ela olha atenta, a visão ainda turva pelas ressonâncias da baba azul, buscando o peixe certo. Vagarosamente, passa por cada um dos aquários, cada qual um pequeno universo. Em meio a tantos nomes, escolhe um que carrega a vastidão do céu: Via Láctea. Não um nome escolhido ao acaso, mas uma ressonância do cosmos, um campo de infinitas estrelas onde o destino se difunde e reorganiza. Uma atração misteriosa que o próprio campo de experiência, parece impor-lhe. O futuro, antes prometido a todos de forma homogênea, agora se manifesta em uma constelação particular, um arranjo.
A briga começa. No outro lado do aquário, o adversário tem um nome que evoca o abismo: Sangue do Diabo. Infernal versus celestial, a pulsão de morte contra a vida em sua forma mais ampla. Um terá que morrer. A disputa que se anuncia, tensa e silenciosa, é tão visceral quanto uma luta de galos, onde a brutalidade se expõe a céu aberto, porém contida agora na dança daqueles peixes – conhecidos por sua agressividade e duelos intensos. Tereza, com o olhar fixo na dança entre o cósmico e o abissal, não hesita. Coloca todas as fichas de uma vez, e nelas, o barco de Roberta. A liberdade de Roberta para navegar, e a própria travessia de Tereza, são agora um jogo. Terá a baba azul revelado o futuro? O aquário transforma-se em um microcosmo da existência, onde o desejo e a sorte se confrontam em uma aposta final.
Diante da interdição e da imposição de um destino pré-escrito, a humanidade encontra formas, por vezes árduas e invisíveis, de reafirmar sua potência. A canção “Rosa dos Ventos” (1) surge como epígrafe desta resistência silenciosa, um lembrete do que se consolida na alma daqueles que persistem e reinventam o caminho: “E na gente deu o hábito / De caminhar pelas trevas / De murmurar entre as pregas / De tirar leite das pedras / De ver o tempo correr.“
Assim, “O Último Azul” não apenas narra uma história; ele nos convoca a refletir sobre a incessante busca por autonomia e a força do desejo que insiste em florescer mesmo nos campos mais áridos da existência. A dúvida sobre o futuro de Tereza paira, como um barco que se afasta no horizonte, mas a certeza de que o desejo, uma vez despertado e vivido, encontra seus próprios caminhos, permanece.
AUTOR
José Alberto Roza
Psicólogo \ Psicanalista \ Membro Filiado Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo (SBPSP) \ Supervisor Clínico-Institucional \ Doutor em Psicologia – Universidade de São Paulo (USP) \ Professor Universitário e pesquisador em Saúde Mental, Diversidade e Inclusão – gênero, raça e sexualidade.
E-mail— contato@joseroza.com.br
REFERÊNCIAS
1.Buarque, C. Rosa dos Ventos [Gravado por Maria Bethânia]. In: BETHÂNIA, Maria. A Tua Presença. [S.l.]: Universal Music, 1971. 1 faixa
FICHA TÉCNICA
Título original — O Último Azul
Título inglês — The Blue Trail
Ano — 2025
Duração — 87 min
País — Brasil, Chile, Holanda
Direção — Gabriel Mascaro
Produção — Rachel Daisy Ellis, Sandino Saravia Vinay
Fotografia — Guillermo Garza AMC
Música — Memo Guerra
Figurino — Gabriela Marra
Elenco — Denise Weinberg (Tereza) – Rodrigo Santoro (Cadu) – Miriam Socarrás (Roberta) – Adanilo (Ludemir)
SINOPSE
Em “O Último Azul”, um Brasil distópico possui uma política de exílio forçado contra seus idosos. A ideia é permitir que os jovens possam produzir sem se preocupar com os mais velhos, assim, o governo transfere esse grupo para colônias habitacionais onde eles possam “desfrutar” de seus últimos dias de vida. Entra em cena Tereza, uma mulher de 77 anos que mora numa cidade industrializada na Amazônia. Quando chega sua hora e ela recebe um chamado do governo para abandonar sua casa e residir na colônia, Tereza deseja realizar seu último desejo antes de ser compulsoriamente expulsa de seu lar e enviada para longe. Ela, então, embarca numa viagem pelos rios e afluentes da região, sem imaginar que essa viagem mudará o rumo de sua vida para sempre.
