RACISMO À BRASILEIRA — Virgínia e Adelaide (2025)

— DORA TOGNOLLI —
Todos os fatos, nomes, datas são reais. O resto é ficção.
Começo pela epígrafe, escolhida pelos diretores — “Todos os fatos, nomes, datas são reais. O resto é ficção.” Exatamente o oposto do que um psicanalista pratica quando se propõe a escrever uma narrativa clínica: todos os fatos, nomes, datas são ficcionais. O resto é real. A construção do roteiro, que relata o encontro transformador e potente entre duas mulheres — Virgínia Leone Bicudo e Adelheid Koch —, revela um mergulho dos diretores em arquivos, cartas, depoimentos de psicanalistas que conviveram sobretudo com Virgínia, tecidos de forma criativa, instigante, e tratados num setting onde as duas mulheres se encontram, se escutam, se estranham, e tornam-se amigas com muito afeto e ética.
E quem são as personagens do filme? Virgínia, nascida em São Paulo em 1910, filha de Theofilo Bicudo (neto de outra Virgínia, mulher negra escravizada) e Giovanna Leone, imigrante italiana que trabalhava como empregada doméstica; foi a primeira socióloga do Brasil a denunciar os sofrimentos causados pelo racismo em inédita e original tese acadêmica. Também foi a primeira mulher a fazer análise na América Latina e a primeira psicanalista negra brasileira. E Adelheid Koch, que nasceu em Berlim em 1896, judia, graduada em Medicina pela Universidade de Berlim em 1924, tornou-se membro do Instituto de Psicanálise de Berlim em 1935. Veio ao Brasil em 1937 a convite de Durval Marcondes, pioneiro da psicanálise e responsável pela fundação da primeira sociedade psicanalítica da América Latina.
Jorge Furtado teve um interesse especial nessa história, cuja protagonista é uma mulher negra — a primeira mulher a se deitar num divã e a fazer análise — pouco conhecida no Brasil. Segundo ele, foi importante contar com uma diretora — mulher, negra, jovem — Yasmin Thayná—, para compor esse roteiro. No debate realizado em março em São Paulo, o diretor reconhece que a parceria com Yasmin trouxe um lado iluminado ao filme, retratando Virgínia como uma mulher solar, que gostava de dançar, cheia de espontaneidade, que não se curvava diante dos desafios e preconceitos dos quais foi vítima. O olhar diverso de Thayná parece ter contribuído para que o filme não ficasse melancólico, uma vez que seu tema resvala no racismo, preconceito, migrações, que perpassam a vida das duas personagens.
O filme traça um paralelo entre os acontecimentos das vidas dessas duas mulheres, inserindo fatos históricos marcantes, que atravessam as realidades dos países de origem das protagonistas, bem como sua história familiar, ancestralidade, deslocamentos e sofrimentos. Como num documentário em formato video-clip, assistimos a apresentações de cenas históricas que contextualizam momentos importantes da primeira metade do século XX, jogando com tempos e espaços.
Importante introduzir a questão do idioma: um impasse para a escuta, mesmo quando os dois falantes compartilham da mesma língua. No primeiro encontro entre as duas em meados de 1937, que abre o filme, de um lado temos Adelheid, que se interroga se poderá atender Virgínia, já que recém-chegada ao Brasil e ainda com muita dificuldade de falar e entender o português; e, de outro, a insistência e o desejo de Virgínia em começar logo uma análise. E assim acontece: em vários momentos do filme, Adelheid pede para Virgínia traduzir termos que desconhece: a diferença entre preço e valor, o preconceito à brasileira, as populações periféricas retratadas na tese de Virgínia. Pede para ela falar mais devagar: reconhece que não domina o português, que quiçá a análise nem seja viável.
Também chama a atenção a delicadeza e a sutileza dos encontros analíticos presentes no filme, cenas em geral de alcova, secretas, que só quem está lá acessa, mas nem sempre. Nós, que ocupamos os dois lados do divã, ora deitados, ora sentados na escuta, reconhecemos a beleza que o filme imprime à cena analítica. Num recurso inventivo, os diretores expõem telas duplas, postas lado a lado, onde podemos observar os gestos e as expressões de Virgínia-analisanda e Adelheid-analista, espelhando as experiências que marcam nosso ofício, marcado por afetos, transferências, estranhamentos.
Ao explicar detalhes importantes do que denominamos setting: divã, tipo de conversa, frequência intensiva dos encontros, preço por sessão etc., Adelheid comenta que vamos precisar ser guiadas pelas suas palavras. Sim!
As palavras… num texto magistral de Freud (3), de 1890, giro de tempo, trazendo aqui uma citação poética que vale a pena destacar:
…palavras também são a ferramenta essencial do tratamento anímico. O leigo achará difícil entender que distúrbios patológicos do corpo e da alma possam ser eliminados por ‘meras’ palavras do médico. Ele achará que se lhe imputa acreditar em magia. E ele não está de todo enganado; as palavras de nossos discursos cotidianos nada mais são do que magia empalidecida. Mas será necessário trilhar mais um desvio para tornar compreensível como a ciência consegue devolver à palavra pelo menos uma parte de seu antigo poder mágico. (Freud, 1890, p. 19).
“Cura pela palavra”, que se dá no encontro analítico, quando ele realmente acontece. O filme transmite que a experiência da palavra, da linguagem, na análise, pode ser radical. A palavra assume um destino singular, que escapa e vai além das significações do cotidiano. A associação livre, a escuta flutuante do analista, convida a dupla a apartar-se da função meramente instrumental que a linguagem tem: acesso a significantes inéditos, cadeia de experiências emocionais, singular no universal, universal no singular: “Sofro de preconceito de cor; sofro de inadequação social; o que isso quer dizer?”
A construção de fragmentos da análise de Virgínia com Adelaide, núcleo do filme, guarda muito dos arquivos, das cartas, de sua tese na Sociologia (1), das palavras que Virgínia proferiu (identificamos várias delas!). Mas, seu encadeamento, seus recortes, condensações, são fruto de um trabalho de artista. Parece que os diretores, Jorge e Yasmin, trilharam um percurso no sentido contrário ao do sonho: das palavras, dos textos, às cenas, à figurabilidade. E mesmo nesse sentido, acredito que atravessaram um trabalho similar ao dos sonhos: a matriz num certo desejo, a criação de no mínimo duas cenas — texto e imagem; os deslocamentos e condensações que permitem que um produto se forje nesse trabalho.
O filme nos faz sonhar Virgínia, nos transporta a um outro tempo, a um outro ritmo, a um outro Brasil. O passado no atual, o passado impassado, ao modo do inconsciente. E o sonho que Virgínia relata para sua analista, que fala de um beijo, que envolve ambas, na transferência, diante de um outro atual, banhado em Eros, aquele Deus que liga, nos conduz a mais uma matéria humana que se atualiza em tempos e espaços — o beijo entre dois/duas: quem beija? quem recebe o beijo? quem aceita o beijo?
Vale frisar que a atuação das duas atrizes escolhidas escapa do estereótipo que caracteriza a exposição da relação da dupla analista-analisanda, nos brindando com relatos vivos, bem humorados, que nos tocam e inquietam.
Tomado pelo lado documentário, o filme parecer ser fiel a certo trecho da vida de Virgínia: na minha pesquisa informal, pude ouvir de vários analistas que sim — esta é a Virgínia que conheceram. Sim, ela era ousada, falava com altivez. Tomado como ficção poética, o filme nos emociona. E ele dá conta de ilustrar as posturas e atitudes de Virgínia: sua abertura, suas iniciativas de divulgar a Psicanálise nas mídias da época. Uma espécie de YouTuber dos anos 1940, rompendo com certos encastelamentos que a Psicanálise pode praticar e estimular.
Vale um elogio ao filme: tornar uma análise prosaica e banal, que diz respeito àquela pessoa e suas mazelas, em algo interessante, que da micro história nos conduz ao universal.
Quanto ao tema do racismo, da cor, há muito para falar, e não daremos conta de abordar todos os restos que nos frequentam e pedem passagem e elaboração. Cabe trazermos para o atual a tese de Virgínia, que deixamos lá atrás, que retorna e mostra seu lado ousado: testemunhas, relatos, que o filme também ilustra. Tal e qual os trabalhos de Fanon (2), que ficaram silenciados por décadas e hoje ganham nova dimensão e importância.
Diversas vezes ouvi, em forma de acusação, que a SBPSP branqueou/ apagou Virgínia: será? Não tenho essa resposta. Quando Adelheid aborda o racismo pergunta se Virgínia falava com seu pai sobre seu sofrimento decorrente da cor da pele, e ela responde: “Como eu poderia dizer a meu pai como eu queria ser branca?” A pergunta está no ar, em nós, ressoa… re-existe.
Talvez, apoiados na trajetória brilhante de Virgínia junto com Durval Marcondes, nosso casal fundador, houvéssemos pensado que Virgínia havia superado a dor decorrente de sua cor, esquecendo que para a Psicanálise um trauma nunca é superado; ele se inscreve, se apresenta, retorna, embora possa ser mitigado. E há certos traumas, como os decorrentes do sofrimento do racismo, que se inscrevem num coletivo, nas franjas dos grupos, e que têm a ver com todos nós. O filme deixa esse recado.
O filme nos provoca e convoca: como ignorar o racismo à brasileira, que Virgínia tão bem ilustra em sua tese na Sociologia, quando se dá conta de que o sofrimento não vem meramente da pobreza, da condição de classe, uma vez que negros ricos também relatam seu sofrimento, sua exclusão? Mais um mérito do filme: a abordagem do sofrimento pelo racismo no contemporâneo, que nos interpela e demanda novas e renovadas escutas.
AUTORA
Dora Tognolli
Psicanalista, Membro Efetivo e Analista Didata da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo (SBPSP)
E-mail — dora.tognolli@59rosagmail-com
REFERÊNCIAS
1.Chor, M. M. (org). (2010). Atitudes raciais de pretos e mulatos em São Paulo: Virgínia Leone Bicudo. Sociologia e Política.
2.Fanon, F. (1952). Pele negra, máscaras brancas. Ubu, 2020.
3.Freud, S. (1890/2018). Fundamentos da clínica psicanalítica – Tratamento psíquico (tratamento anímico). (1890). Autêntica, 2018. (Obras incompletas de Freud).
4.Centro de Documentação Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo (SBPSP) – www.sbpsp.org.br.
5.Texto baseado nos comentários apresentados no dia 11 de março de 2025, no MIS (Museu de Imagem e Som, São Paulo) em São Paulo: Projeto Cinema e Psicanálise da SBPSP, que contou com a apresentação do filme seguido de debate, com a presença dos diretores Jorge Furtado e Yasmin Thayná.
FICHA TÉCNICA
Título original — Virgínia e Adelaide
Ano — 2025
País — Brasil
Duração — 105 min
Diretores — Yasmim Thayná e Jorge Furtado
Roteiro — Jorge Furtado
Produção — Nora Goulart
Cinematografia — Lívia Pasqual
Edição — Giba Assis Brasil
Elenco — Sophie Charlotte – Gabriela Correa
SINOPSE
Virgínia e Adelaide narra a história do encontro de duas mulheres extraordinárias: a brasileira Virgínia Bicudo e a alemã Adelaide Koch. Virgínia, uma mulher negra, foi a primeira psicanalista brasileira; Adelaide, psicanalista judia, veio para o Brasil em fuga do regime nazista na Alemanha. Elas se conheceram em novembro de 1937 em São Paulo, no exato momento em que Getúlio Vargas decretava o Estado Novo e se tornava um ditador. Médica e paciente por cinco anos, colegas e amigas a vida inteira — duas mulheres que enfrentaram o racismo e participaram ativamente da fundação da psicanálise no Brasil.
