O BRUTAL BRUTALISTA — The Brutalist (2024)

— ANA EDUARDO RIBEIRO —

O filme de Brady Corbet (2024) é uma obra épica que se apresenta numa narrativa em estilo operático, de três horas e meia, com espaços de abertura, dividido em duas partes, com um intermezzo e um epílogo. Bem estruturado, com princípio, meio e fim, seguimos o filme sem dar conta das horas a passar.

A música de Daniel Bromberg dá o tom da cadência de ópera moderna, se assim se puder designar, com a primeira introdução a confrontar-nos com a tensão do que a imagem a preto e branco traduz do momento da fuga do terror do holocausto à entrada nos EUA, mundo moderno e ironicamente auspicioso. O contraste entre o horror e a esperança. A segunda abertura, incidindo a câmara em László Toth, envolve-nos num tom mais humanizado, de quem vive a nostalgia do que deixou para traz com a esperança do que lhe espera pela frente. Segue-se ainda uma terceira abertura da peça musical num martelo metálico, sons de repetições maquinais, que rompem a doçura do piano. Três tempos inaugurais em tom de prelúdio que antecipam uma narrativa que vai alternar-se entre tempos/ momentos suaves e brutos. Abertura que antevê a complexidade das configurações estéticas que vão representar a dureza de um mundo íntimo intensamente sofrido mas que em simultâneo é também criador de beleza. 

O título deste filme, entretanto vencedor de 3 óscares (melhor filme, melhor actor e melhor banda sonora), 3 globos de ouro, 4 prémios BAFTA, é baseado no movimento arquitectónico brutalista, emergente no início do século XX e com forte expressão entre as décadas dos anos 50 e 70. Um estilo que se caracteriza pela imponência do concreto bruto. Edifícios sólidos, marcados pelo uso do betão sem qualquer revestimento, de grandes dimensões e maciços. Tal como os afectos compactados que se edificam no interior de László. 

Iremos assistir a toda uma encenação de uma espécie de beleza triste, indutora de um sentimento paradoxal de prazer enquanto espectador. O traço estético aqui representa bem como a construção/ criação artística é muitas vezes a forma sublimada possível de representar o aparente incomunicável, por ser tão brutal nomear a dor da vivência emocional. E só assim suportamos fruir desta obra cinéfila e elaboramos/ pensamos o que na realidade seria insuportável. Será a projecção de edifícios sólidos a tentativa de compactar com solidez uma vida fragmentada, uma família destruída, as perdas que foram traumáticas?

É impactante toda a composição deste filme. É admirável como o protagonista se rompe, se perde, se reconstrói, recupera a família, cria arte, se torna figura premiada pelo seu trabalho. As cenas cinematográficas são de tal força que o espectador é incapaz de ficar indiferente à disrupção, ao confronto de forças pulsionais e distorção do que humaniza e também incorre no risco de desumanizar o sujeito psíquico, sendo que o aparente desumanizar não deixa de ser próprio também do que é ser humano? (ora a insanidade também se entrelaça em parcelas da natureza humana).

A vivência do trauma é em si uma experiência limite. É muito ténue a linha que separa aqueles que o ultrapassam e os que se deixam ficar paralisados dentro do buraco escuro do trauma. A fragilidade humana comporta esse risco de não conseguir superar e adoecer. 

László em alguns momentos parece que vai enlouquecer ou até, não é exagerado dizer, que vive intervalos de loucura mas a sua capacidade criativa e de desenvolvimento de um espaço potencial, que contém, mesmo que inconscientemente, um sentido simbólico na dimensão que traça a linha da sua arquitectura, salva-o de provavelmente não ficar mergulhado na melancolia patológica. E é assim que a experiência bruta é simbolizada. É assim que o afectos primitivos e as angústias recalcadas são metabolizáveis e possíveis de se criarem condições para serem elaborados/ pensados. 

Grinberg (1) no seu livro Culpa e Depressão, cita uma frase de Hanna Segal: 

Quando o nosso mundo interno se encontra destruído, morto e sem amor, quando os nossos seres amados não são mais do que fragmentos e o nosso desespero parece irremediável, é então que devemos recriar novamente o nosso mundo interno, reunir as peças, incutir vida aos fragmentos mortos, reconstruir a vida.”

Não é isto, que de uma forma crua, brutal e visceral, László faz?  Reinventa-se na sua dimensão humana e inventa um estilo que marcará um período da história da arquitectura.

AUTORA
Ana Eduardo Ribeiro
Psicanalista da Sociedade Portuguesa de Psicanálise \ Tem publicado artigos na área da Psicanálise e Arte \ Escreve com regularidade crónicas para o jornal online Observador.
E-mail — aeribeiro7@gmail.com

REFERÊNCIAS
1.Grinberg, L. (2005). Culpa e Reparação: uma perspectiva psicanalítica. Climepsi.

TRAILER

FICHA TÉCNICA
Título original — The Brutalist
Título português — O Brutalista
Ano — 2024
Países — E.U.A. – Reino Unido – Hungria
Duração — 215 min
Realizador — Brady Corbet
Argumento — Brady Corbet e Mona Fastvold
Cinematografia — Lol Crawley
Edição — Dávid Jancsó
Direcção de arte — Csenge Jóvári – Alexander Linde – Csaba Lodi – Virág Tyekvicska – Sári Weichinger
Figurinos — Kate Forbes
Música — Daniel Blumberg
Elenco — Adrien Brody – Felicity Jones – Guy Pearce – Joe Alwyn – Raffey Cassidy – Stacy Martin – Isaach De Bankolé – Alessandro Nivola – Ariane Labed

SINOPSE
Um arquitecto de origem judia, sobrevivente do Holocausto, emigra para os E.U.A. para escapar à pobreza. Para trás, ficam a sua mulher e a sobrinha órfã. Um projecto inovador e ambicioso muda radicalmente a sua vida. (Baseado no Cine Cartaz do Jornal Público)