SOB A CAPA VERMELHA — Superman (2025)

— DIOGO DE BITENCOURT MACHADO —

Havia muita expectativa com o lançamento do filme Superman (2025). Mas para a surpresa da maioria dos fãs e espectadores que não estavam satisfeitos com as versões das duas últimas décadas, este Superman veio diferente.

O filme foi bem desenvolvido pela interpretação carismática de David Corenswet e pela direção criativa de James Gunn. Eles apresentaram o que se espera do Superman: seus poderes, sua inabalável dedicação altruística e batalhas espetaculares contra o mal. Mas trouxeram dois aspectos exclusivos: um Superman humanizado, com dificuldades e dilemas semelhantes aos das pessoas comuns; e questões do nosso tempo, como redes sociais, cancelamento, ideologia sócio-política e guerras internacionais.

Quem é Superman?

Este filme é um reboot. Isso é quando a história é contada novamente, mas em outra versão. Ele abre um novo ciclo das histórias do universo ficcional de super-heróis DC no cinema, onde habitam também Batman, Mulher-Maravilha, Aquaman, Flash e tantos outros velhos ou novos conhecidos.

É a primeira vez que não é mostrada a origem de Superman, partindo-se do princípio de que o personagem já é conhecido. Mas neste texto ele será reapresentado. Ele é um alienígena chamado Kar-El, sobrevivente da destruição do planeta Krypton. Foi enviado em uma nave que aterrizou no interior do Kansas/E.U.A. e foi resgatado por Martha e Jonathan Kent, seus pais adotivos. Foi rebatizado como Clark e mais tarde, assumiu a identidade de Superman na cidade fictícia de Metrópolis.

Ele foi o primeiro super-herói de todos. Em 1938, Jerry Siegel e Joe Shuster criaram um personagem inovador: um homem com poderes sobre-humanos que vestia um uniforme colorido e combatia o mal. Os autores queriam criar algo que explorasse as cores, uma novidade dos quadrinhos (1), por isso a combinação bem chamativa de um colante azul com botas, capa e sunga vermelhos, além de um expressivo “S” no peito. A capa tinha a intenção de passar a ideia de movimento, enquanto a sunga – hoje considerada estranha – fazia parte do uniforme dos artistas de circo que dobravam barras de ferro, moda da época. Seu nome e essência foram retirados diretamente do conceito de Friedrich Nietzsche de “super-homem” (Übermensch). Imediatamente tornou-se personagem do rádio, tv e cinema. Este último foi o grande propulsor da sua popularidade, com os quatro filmes estrelados pelo inesquecível Christopher Reeve, especialmente Superman (1978) e Superman II (1981).

A poderosa simbologia de Superman

Os heróis realizam coisas impossíveis para pessoas comuns – e Superman faz isso em relação aos demais super-heróis. É um ser imbatível que escolheu proteger os humanos. De acordo com o escritor de quadrinhos Grant Morrison (2), seus dons e sua chegada pelo céu o ligam a uma das ideias mais antigas da humanidade: da divindade – como Cristo, Moisés, Apolo ou Karna.

Superman simboliza divindade, combinando a dádiva celestial com a materialidade humana. Mais especificamente, ele representa o aspecto masculino da divindade, como descrito por Freud em um dos seus trabalhos sobre psicologia da religião, “O Futuro de um Ilusão” (3), onde disse que a humanidade antropomorfizou os deuses como forma de atenuar seu desamparo diante da realidade.

Mas sua “divindade” é contrastada por uma forte “humanidade”. Não somente pelas suas virtudes, mas por seu famoso alter ego secreto Clark Kent. Clark é desajeitado, trabalha e às vezes se dá mal em coisas comuns da vida – como acontece com os espectadores – muito mostrado nesta versão.

Superman é um símbolo masculino, com sua força, beleza e poder. Mas não costuma ser relacionado à masculinidade tóxica ou excessiva. A sua masculinidade é complementada por seu vínculo romântico entusiasmante com a repórter Lois Lane.

Acima de tudo, Superman simboliza poder e esperança. Sua invencibilidade e dedicação incondicional em proteger a humanidade o tornam um super-herói único, que traz luz a um mundo sombrio. O contexto da sua criação ajuda a explicar isso: era o período da Grande Depressão, do surgimento de um dos mais importantes vilões da história (Adolf Hitler) e, logo depois, da ameaça da bomba atômica (2). Ele é o primeiro super-herói e um dos mais poderosos, capaz de caminhar pela superfície do Sol ou estar em qualquer lugar do planeta em instantes. Isso tudo ainda é reforçado por seu sistema ético admirável e por sua psicologia altamente equilibrada, como veremos a seguir.

O psiquismo diferenciado

Ele tem uma característica que pode ser chamada de “anti-narcisista”. Mesmo sendo o ser mais poderoso do mundo, não tem vaidade ou sentimento de mais merecimento do que os outros.

Com sua capacidade de captar o que acontece ao seu redor, através dos seus sentidos apurados ou dos seus contatos privilegiados (como a Liga da Justiça e o governo), ele poderia atuar 24 horas por dia. Mas ele se desliga disso, sem ansiedade ou culpa, indicando uma estrutura superegóica suave. Ele não se cobra para trabalhar em tempo integral, ao contrário de por exemplo, Batman e Homem-Aranha – atormentados pela responsabilidade.

A psicóloga Robin S. Rosenberg (4) em seu livro sobre a psicologia dos super-heróis, apresentou aspectos relacionados à maturidade e à incorruptibilidade do Superman, utilizando uma visão cognitivo-comportamental, que facilmente pode ser entendida pelos leitores mais familiarizados com a psicanálise. Isso estaria ligado a quatro fatores: o primeiro é seu temperamento (a parte biológica da personalidade), ligado à sua origem kryptoniana. Assim, sua constituição biológica lhe garantiria um funcionamento mental equilibrado; apresenta um estilo de apego seguro, ou seja, um padrão de relacionamento que permite a intimidade, reciprocidade e confiança, que pode ser explicado pela sua criação por pais amorosos e capazes; o terceiro é sobre a ausência de resposta ao estímulo de poder, graças a um sistema de “ativação comportamental” pouco responsivo, ou seja, o poder não tem efeito no seu aparelho mental; e sua moralidade firme poderia estar relacionada a sua inteligência elevada, como acontece com superdotados da realidade.

Ou seja, além de uma constituição biológica favorável, ele possivelmente desenvolveu suas qualidades psíquicas devido à educação que recebeu de pais excelentes, “suficientemente bons” em termos psicanalíticos.

Um Superman contemporâneo

O filme entrega aquilo que se espera de Superman: trama de ação, bons vilões, novos super-heróis e demonstrações dos seus grandes poderes. Mas há um grande foco em sua “humanidade”, pois ele enfrenta algumas situações comuns. Além disso, o tom de humor (no sentido de estado afetivo), tanto do protagonista quanto do filme, incluem uma leveza, diferente do habitual clima sombrio do universo DC e dos últimos filmes do Superman.

Este Superman é muito terno. É apaixonado por Lois, tenta capturar um monstro gigante sem matá-lo e o mais simpático de tudo: tem um cachorro! Quando Superman teve sua primeira derrota em batalha e precisou recuar para sua base na Antártida, foi resgatado por Krypto, que fez uma festa quando o viu e o arrastou pela capa até à entrada da base. Krypto apareceu em várias cenas – sempre fiel e pronto para ajudar. Para deixar tudo mais interessante, ele veste uma capa vermelha e contraria uma certa expectativa de beleza canina com sua aparência de “vira-lata”.

Superman também enfrenta um fenômeno contemporâneo assustador: o cancelamento. Ele sofre um linchamento nas redes sociais, passando de maior super-herói do mundo a uma ameaça global. Isso ocorre quando seu arqui-inimigo Lex Luthor obtém acesso a uma suposta mensagem holográfica de seus pais kryptonianos, onde seu pai disse que ele deveria dominar a Terra. Não ficou claro se foi uma manipulação de Luthor ou se a mensagem é verdadeira, mas seu conteúdo não condiz com Superman.

Superman vacilou desta vez, contactando com a sua vulnerabilidade – o que reforça a sua “humanidade”. Ele fica inseguro e afetado pela opinião pública. Vaidade? Medo da perda do amor? Provavelmente a segunda hipótese. O fato é que ele se angustia quando sua conduta é questionada, após seu envolvimento no conflito entre a desenvolvida e invasora Borávia contra a pobre e oprimida Jhanpur, defendendo esta última. Como repórter, Lois questiona se ele tem noção das consequências disso para o mundo, deixando Superman reflexivo.

Há muita influência das questões sócio-políticas atuais, como os vários conflitos armados e a polarização política. O filme assume uma postura woke ao apoiar imigrantes, e questionar a riqueza. Ele provoca os movimentos conservadores, trazendo à tona críticas já conhecidas realizadas pelos progressistas, como quando mostra macacos criando fake news sob o comando de Lex Luthor.

Quem assistir ao filme daqui a 20 anos possivelmente vai ficar com muitas informações sobre o que “acontecia em 2025” e como era o espírito “daquele tempo”. Algumas pessoas simpatizam com essa postura, enquanto naturalmente, outros ficaram incomodados. Mas é inquestionável que foram feitas críticas sociais importantes, como nunca foram em filmes de super-heróis. Vejo que o Superman e o universo DC brilharam desta vez, combinando elementos antigos que não poderiam ficar de fora com novidades surpreendentes.

AUTOR
Diogo de Bitencourt Machado
Psiquiatra e psicoterapeuta de orientação analítica \ Psicanalista em formação pela Sociedade Psicanalítica de Pelotas
E-mail — db_machado@yahoo.com

REFERÊNCIAS
1.Robb, B. J. (2017). A Identidade Secreta dos Super-Heróis. Editora Valentina.
2.Morrison, G. (2012). Superdeuses. Editora Seoman.
3.Freud, S. (1927). O Futuro de uma Ilusão. In: Obras Completas volume 17. Companhia das Letras.
4.Rosenberg, R. S. (2008). Superman’s personality: from Krypton, Kansas, or both? In: The Psychology of Superheroes: An Unauthorized Exploration. Smart Pop.

TRAILER

FICHA TÉCNICA
Título original — Superman
Ano — 2025
Duração — 129 min
País — E.U.A.
Direção — James Gunn
Argumento — James Gunn
Produção — James Gunn e Peter Safran
Fotografia — Henry Baham
Música — John Murphy e David Fleming
Edição — William Hoy e Craig Alpert
Figurino — Judianna Makovsky
Elenco — David Corenswet – Rachel Brosnan – Nicholas Hoult – Nathan Fillion – Isabela Merced – Edi Gathegi – Anthony Carrigan – Maria Gabriela de Faria

SINOPSE
Superman é a personificação do poder e da esperança em um mundo com violência e desequilíbrio. Como o super-herói mais poderoso e quase imbatível, ele usa sua herança do planeta Krypton para proteger a humanidade. Além de enfrentar grandes oponentes que que desejam tirá-lo do caminho para o domínio mundial, ele também se depara com dilemas humanos comuns nos tempos atuais.