OBSERVANDO INFINITOS PARTICULARES — Perfect Days (2023)

— SAMANTHA NIGRI —

Numa noite, em casa de amigos, na região serrana do Rio de Janeiro, fomos ao jardim observar o céu estrelado. Das oito pessoas que ali estavam, metade eram psicanalistas. Enquanto alguns comentavam sobre a beleza de estarmos longe das luzes da cidade grande, procurando identificar as constelações e brincando de ver estrelas cadentes, eu reparei em minhas colegas: estavam todas olhando para cima, absortas em meio à conversa animada do restante. Eram três silenciosos seres de observação. Seria apenas um acaso aquele trio silente de psicanalistas?

Trago outra associação: uma jovem roteirista me contou que quando está muito angustiada com a enxurrada de mensagens, notícias e imagens distópicas que pululam (cada vez mais caudalosas nesse quarto de século que nos cabe existir) nas redes sociais, procura ler sobre o Cosmo. A moça comprou um pequeno, mas ágil telescópio, e fica em sua janela observando as estrelas. Diz que o silêncio das estrelas a faz sentir-se “do tamanho de que somos na perspectiva do todo que vivemos”. E que, não sabe bem o motivo, mas observar o céu sempre a alivia das pressões de tudo precisar saber e falar. Por fim, pensa que diante da imensidão do universo e de suas desconhecidas fronteiras, um espaço se abre nela mesma para seguir no mistério da criação de seus roteiros: “As estrelas contam histórias, Samantha. É preciso saber ouvi-las.”

Os relatos acima me conectam ao filme “Dias Perfeitos” de Wim Wenders…

No final do ano passado, Wenders recebeu o European Lifetime Achievement Award na ocasião do 37º (EFA – Prêmios de Cinema Europeu) com uma homenagem apresentada pela atriz Juliette Binoche (1). Para aqueles que são fascinados pela filmografia do cineasta nascido em agosto de 1945 em Dusseldorf, Alemanha, ouvir o relato poético da ‘estrela’ francesa é um regozijo.

Binoche ressaltou que o menino nascido nas ruínas da guerra, “observava as árvores” que restavam no fundo da casa da família… Citando as palavras de Damiel, o anjo de “Asas do Desejo” (1987) que mesmo diante da melancolia do mundo destruído no pós-grande guerra, numa Alemanha dividida, decide se tornar um humano para sentir “as dores e as delícias de sermos o que somos”, a atriz apresentou a filmografia e a trajetória de Wenders a partir de sua capacidade de captar e traduzir a complexidade do vivido com seu ‘cinema-poesia’.

Filmes e documentários como Paris-Texas (1984), Tokio-ga (1985), Asas do Desejo (1987), Buena Vista Social Club (1996), Pina (2011) O Sal da terra (2014), entre tantos outros que compõem o mosaico do diretor, têm em comum o genuíno interesse em desvelar histórias lindas sem perder de foco suas incompletudes.

Why am I me? Why am not you? Why am I here? And why I´m not there? (Por que eu sou eu, e por que eu não sou você? Porque eu estou aqui e não aí?) Palavras de Damiel, anjo personagem do filme “Asas do Desejo”, Wim Wenders (1987).

Essa tônica funciona como um antídoto para a cegueira que as imagens ‘chapadas’ que rolamos em nossos celulares e gadgets produzem, colapsando nossas subjetividades. Um antídoto poderoso que ressoa como o encontro analítico.

“Dias Perfeitos” (2023) assim se apresenta, como uma ode, uma verdadeira ‘aula-onírica’ sobre a escuta psicanalítica. A capacidade de observar e contemplar, característica da atenção flutuante freudiana, numa atitude de receber aquilo que vem do outro para que o desconhecido emerja, atravessa as diversas camadas desse filme. O espectador é convocado a ‘escutar’ o tumulto poético que vive o personagem principal em sua ‘aparente vida simples’.

Durante os 125 minutos do filme, convivemos com o cotidiano de um cidadão de meia idade que vive na Tóquio de nosso tempo, sendo o seu próprio viver uma saída criativa e mais livre das amarras que ‘adoecem’ as pessoas e o planeta. Wim Wenders criou essa história após visitar o Tokyo Toilet Project, um projeto de reforma dos banheiros públicos desenhados por arquitetos do mundo todo para as Olimpíadas de 2020. A princípio, os produtores sugeriram um curta-metragem ou uma série de curtas-metragens nas instalações, mas Wenders optou por um longa, com o co-roteirista Takuma Takasaki: nascia Hirayama.

Parafraseando Chico Buarque, poderíamos dizer que todo dia ‘Hirayama faz tudo sempre igual’, acorda com o som da vassoura da vizinha na rua, e segue o seu ritual ordenado de cuidados com sua pequena e singela casa até dirigir para o trabalho, ouvindo uma trilha sonora num toca fitas cassetes que gira entre Lou Reed, Patti Smith e Nina Simone. O som propagado pelas analógicas relíquias do século passado está longe de ser um elemento nostálgico de um luto melancólico do passado e protagoniza cenas belíssimas na comunicação do personagem com os jovens que o buscam e que estão à deriva numa sociedade que está a gritar, destruir e cancelar, no lugar de construir espaços que tolerem a alteridade necessária à vida.

Hirayama é o zelador que cuida e limpa, metodicamente, dos banheiros públicos no distrito de Shibuya. Aos olhos ocidentais mais despercebidos, o trabalho, que o invisibiliza aos olhos dos frequentadores dos parques, praças e arredores, ‘contrasta’ com um olhar presente e profundo que ele possui sobre o mundo que o cerca. O personagem é dotado de um gosto cultural apurado e genuíno e se relaciona, silenciosamente, de forma profunda com as poucas pessoas que atravessam sua vida. Tanto do ponto de vista da cultura sanitária no Japão, que impressionou Wenders, como do ponto de vista psicanalítico, a relação que Hirayama estabelece com a limpeza dos banheiros e o seu olhar para a vida é sintônica.

Em seu texto “Anal e Sexual” Lou Andreas-Salomé (2) inaugurou a importância das primeiras proibições relacionadas ao prazer da atividade e das produções anais e sua relação com o desenvolvimento emocional. Apontou para esse primeiro grande ‘não’ que contribui para o ataque ao erotismo anal, associado a tudo o que é repudiado em nossas vidas, ofuscando assim a ‘alegria criadora’ relacionada ao sentimento de unidade antes do primeiro recalcamento. Freud valorizou esse artigo, tanto que o cita na revisão feita em 1920 aos “Três Ensaios sobre a Teoria da Sexualidade” (1905). O respeito que Hirayama tem tanto com a limpeza dos banheiros, como para sua própria higiene — observada nos “sentos” (casas de banho públicas japonesas originadas no século VI) — inspiram uma relação com a sua intimidade, bem como com a dos outros, mais fluída do ponto de vista do ‘estranho freudiano’. O que é desprezível e doloroso, é cuidado e não destruído. Silenciosamente ele entra e sai desses recônditos sem ser intrusivo. Enquanto espera alguém usar o banheiro para voltar a limpá-lo, Hirayama ‘viaja’ em contemplações do aqui e agora. Observa o que está na sua mirada, percebe a beleza dos detalhes do presente, limpando a mente, soltando o pensar.

O título “Dias Perfeitos” não me parece aludir à simplicidade do solitário personagem que se encanta com os detalhes da vida, dedica-se ao trabalho de limpar banheiros públicos e a alimentar-se da música e fotografia analógicas, da literatura e da contemplação da natureza em comunhão com a espiritualidade na religião xintoísta. Do ponto de vista psicanalítico o adjetivo ‘perfeito’ parece estar mais relacionado ao fato de Hirayama ser ‘inteiro’ em seu caminhar, transformando o ordinário em ‘extra-ordinário’. Algo relativo à capacidade que o personagem possui de estar ‘só consigo mesmo’ (4), deixando-se tocar pelo ambiente e por seus próprios botões, de forma a seguir processando a imperfeição do vivido. Hirayama se contenta sem evadir-se de seus descontentamentos.

Estamos em tempos do auge daquilo que o filósofo coreano Byung-Chul Han desenvolveu em “Sociedade do Cansaço” (3), onde nos tornamos senhores de nós mesmos e ao mesmo tempo escravos do nosso desempenho. Envoltos numa cultura cada vez mais narcísica e melancólica do ponto de vista freudiano, o contentamento de Hirayama com os detalhes da vida e a sua silenciosa observação fina do mundo nos remete ao desenvolvimento da capacidade de escuta que adquirimos ao longo de uma travessia psicanalítica.

Ao contrário do personagem angustiado do anjo Damiel de “Asas do Desejo”, que com suas indagações representaria aqueles que iniciam uma trajetória analítica, observando do alto de sua torre ‘angelical’ as ruínas de sua própria humanidade, Hirayama remete ao espaço emocional conquistado ao final de uma análise: uma capacidade mais livre de escutar “o som de nossas estrelas, bem como a dos que nos cercam”.

“Asas do Desejo”, inspirado na poética de Rainer Maria Rilke (contemporâneo de Freud, Lou Andreas Salomé e outros pioneiros da psicanálise), entorpece e aperta a alma do espectador ao trazer a transição do personagem em meio ao seu árduo trabalho de cuidar daqueles que sofrem melancolicamente no silêncio dilacerador da mortificada Berlim, território de dimensões traumáticas irrepresentáveis.

Em “Dias Perfeitos”, o silêncio e a solitude do personagem acolhem a nossa angústia neste mundo entre guerras e hostilidades. Em sua interação com os outros, mesmo com sua sobrinha e sua irmã, que tocam profundamente nos lutos de um passado a ser elaborado, ele entrega-se à perturbação que os encontros provocam e segue processando em seus sonhos dotados de restos diurnos condensados em imagens poéticas.

Tal como o exercício da função analítica, Eros parece reinar no girar pulsional de Hirayama. O outro em si mesmo e o outro do mundo, são pontes de contato com o desconhecido, como o jogo da velha que ele vai preenchendo diariamente no papel dobrado deixado por alguém que nunca chega a conhecer em um dos banheiros que cuida. O que importa é seguir liberto no olhar, fazendo contato com aqueles que deixam traços de entrada, celebrando a vulnerabilidade, mas também o valor do existir. Para Wim Wenders, Hirayama é um pacificador. Para nós psicanalistas, a sua capacidade de conter as turbulências e seguir observando infinitos particulares, confirmam a visão de seu criador.

AUTORA
Samantha Nigri
Psicanalista da Sociedade Brasileira de Psicanálise do Rio de Janeiro (SBPRJ) \ Co-coordenadora do Programa de Rádio Perguntar & Pensar parceria da Rádio MEC e SBPRJ
E-mail — sanigri@uol.com.br

REFERÊNCIAS
1.Tributo a Wim Wenders. Discurso Juliette Binoche. 37 o Prêmios de Cinema Europeu (EFA): https://www.youtube.com/watch?v=cXZdyDhwVWc
2.Andreas-Salomé, L. Anal e sexual, 1916. In Sobre o tipo feminino e outros textos. Blucher, 2022.
3.Han, Byung-Chul. Sociedade do Cansaço. Tradução de Enio Paulo Giachini. Vozes, 2024.
4.Winnicott, D. W. O ambiente e os processos de maturação: estudos sobre a teoria do desenvolvimento emocional. Artes Médicas, 1983.

TRAILER

FICHA TÉCNICA
Título original — Perfect Days
Título português — Dias Perfeitos
Ano — 2023
País — Alemanha e Japão
Duração — 125 min
Roteiro — Wim Wenders e Takaiuki Takuma
Direção — Wim Wenders
Produção — Koji Yanai – Wim Wenders – Takuma Takasaki
Produtor Executivo — Koji Yakusho
Coprodução — Reiko Kunieda – Yasushi Okuwa – Keiko Tominaga – Kota Yabana
Fotografia — Franz Lusting
Trilha Sonora — https://open.spotify.com/playlist/1yws5Ogo4sbQ3DLSyH9wqi
Elenco — Koji Yakusho – Min Tanaka – Arisa Nakano – Tokio Emoto – Aoi Yamada – Yumi Asou – Sayuri Ishikawa – Tomokazu Miura – Reina Ueda

SINOPSE
Hirayama leva uma vida feliz, conciliando seu trabalho como zelador dos banheiros públicos de Tóquio com sua paixão por música, literatura e fotografia. Sua rotina estruturada é lentamente interrompida por encontros inesperados que o forçam a se reconectar com seu passado.