DESAMPARO E A IMPOSSIBILIDADE DO SENTIR — It Ends with Us (2024)

— MARIANE VIÉGAS —
A arte e a psicanálise entrelaçam-se desde os primeiros tempos, tendo tido com Sigmund Freud destacada relevância.
Em nossa clínica, é habitual, escutarmos relatos sobre livros, filmes e obras de arte que mobilizam os nossos pacientes. Às vezes, um mesmo livro ou filme convoca diferentes perspectivas, levando em consideração a constituição subjetiva de cada um.
No ano passado, foi a vez de “It Ends with Us” ocupar as salas de análise, com relatos trazidos na maioria das vezes por pacientes adolescentes que liam o romance best-seller da escritora norte-americana Colleen Hoover, lançado em 2016, e que em 2024 chegou às salas de cinema.
A mobilização causada nas sessões justifica-se a cada minuto da exibição do longa-metragem. Ele traz à tona, de forma tão crua quanto clara, o potencial destrutivo das situações traumáticas, mostra a força das identificações e a importância do “terceiro” como testemunha da cena.
Escolho, para esta viagem, como boa companhia interna, o psicanalista húngaro Sándor Ferenczi.
Ryle Kincaid (Justin Baldoni), um dos personagens principais, matou o irmão com um tiro acidental numa brincadeira infantil quando tinha apenas 6 anos. Frente à vivência traumática e à possível falta de um ambiente contentor, faz da clivagem narcísica o seu modo de sobrevivência, a sua única possibilidade de seguir em frente. Os afetos tornam-se cindidos do seu eu, protegidos, mas atuados no corpo nos momentos de intenso sofrimento e raiva.
Na vida adulta, torna-se um neurocirurgião pediátrico capaz de grandes feitos, salva a vida de muitas crianças. Então, perguntamo-nos: qual a criança que Ryle quer salvar? Os seus pacientes? O seu irmão? Ou quer salvar a si mesmo, a criança congelada no tempo do trauma? Lembra-nos do conceito de ‘bebé sábio’. Ao mesmo tempo, a sua dedicação ao trabalho e os seus eventuais sucessos e fracassos mostram-nos as tentativas infrutíferas de elaboração da cena traumática e da impossibilidade de repará-la. No amor por Lily, encontra-se novamente com os afetos, mas não consegue tolerar a perda do controle: é arriscado estar em contacto com uma parte tão sensível do seu eu.
Lily Bloom (Blake Lively), uma jovem florista que sonha em ter o seu próprio negócio na grande cidade (Boston), vivenciou em sua infância situações dramáticas e aterrorizantes de violência do seu pai contra a sua mãe: cenas vistas de longe, do alto das escadas da casa, mas que permanecem vivas dentro de si. Lily experiencia sentimentos ambivalentes de amor, medo, raiva e pena em relação às figuras parentais. Em uma das passagens mais emocionantes do filme, Lily pergunta à mãe por que esta “ficou”, referindo-se à (im)possibilidade da mãe se ter afastado das situações violentas e do próprio casamento, ao que ela responde: “era mais fácil ficar do que ir embora”.
Anos mais tarde, Lily vê-se repetindo a história materna em sua vida amorosa adulta, no encontro com o inteligente e sedutor Ryle Kincaid. Uma das primeiras cenas do filme inicia-se com Ryle a chutar uma cadeira no alto de um prédio de luxo, cena observada por Lily, que lá se encontra apenas para apreciar a vista. Ela, que se mostra inicialmente imóvel, talvez paralisada pelas suas lembranças, é logo enlaçada pelos encantos de Ryle, estabelecendo, assim, um jogo de sedução que tem o seu fim naquela mesma noite, na qual cada um segue a sua vida.
O filme desliza com leves e subtis sobressaltos até ao reencontro de Ryle e Lily, e segue-se o namoro e o casamento. O tempo passa e a primeira cena de violência apresenta-se, quase imperceptível, frente a uma situação banal de um jovem casal que cozinha junto. A segunda cena, mais aparente, ocorre quando Lily cai da escada após uma briga com Ryle. Mais uma vez, o espectador fica na dúvida – mérito do diretor e ator do filme, Justin Baldoni. A terceira e derradeira cena, em que a violência se mostra explícita, é quando Ryle, enciumado, morde uma tatuagem que Lily carrega no peito, uma lembrança de um amor passado que ela reencontra casualmente.
Este (re)encontro com Atlas Corrigan (Brandon Sklenar), o seu primeiro amor da adolescência, desperta em Lily as lembranças de um tempo de bons afetos, de amor genuíno e de sonhos futuros. Uma das passagens mostra-os, ainda jovens e tímidos, a comer pipoca no sofá de casa, enquanto o raivoso pai de Lily está no trabalho.
Cenas posteriores desenvolvem-se de forma dramática. Atlas tem poucos momentos no filme, mas uma importância fundamental para o desenvolvimento da longa-metragem, sendo um personagem secundário ou terceiro, de primeira relevância em termos analíticos. Atlas é a testemunha da violência experimentada pelo seu amor da juventude, tanto do passado (pai) como do presente (marido). Ele reconhece, não desmente e protesta frente a revivência da cena traumática vivenciada por Lily: identifica-se empaticamente com ela, pois também a viveu na sua infância. Ao fugir de um lar disfuncional, encontrou no amor juvenil de Lily um bálsamo para o seu intenso sofrimento e desamparo, embora ainda carregue no corpo as cicatrizes desse tempo. Atlas é o terceiro como testemunha e uma nova possibilidade; no entanto, a descoberta de que Lily está grávida de Ryle põe todos na sala de cinema em suspense. O que fará Lily?
A gravidez segue o ritmo do filme: Lily permanece afastada de Ryle. Na maternidade, numa das cenas de maior importância do filme, a relação passada mãe-filha volta ao primeiro plano. Lily, agora mãe de uma menina, decide dar o mesmo nome (em versão feminina) do tio morto pelo tiro acidental disparado pelo seu pai. Ryle emociona-se e diz o quanto ela está fazendo por ele, ninguém havia feito tanto antes. Abre-se, assim, uma nova possibilidade de representação/elaboração do trauma: a morte que vira vida. Mas, ainda naquele instante, Lily decide que a sua filha terá uma nova história.
Atravessada pela frase de sua mãe, quando esta lhe diz sobre a sua impossibilidade de sair, ela sente que algo, desta vez, precisa ser diferente. Comunica, então, a sua decisão de divórcio ao (agora ex) marido e fala-lhe de forma assertiva e carinhosa, afirmando que a violência jamais deverá ser vista como um acidente. Com a bebé ao colo, decide que aquilo acaba ali: “it ends with us”. Grande momento para o papel social desempenhado pelo livro/filme.
Ao final da história, com anos passados, Lily vai à procura de Atlas, e o reencontro traz esperanças de um recomeço para ambos.
Mas de qual recomeço falamos? A psicanálise convoca-nos a pensar o impacto e certo determinismo da frase “Isto Acaba Aqui”, pois o amor destes jovens é marcado por transmissões transgeracionais, cenas de violência que carregam em si o potencial traumático.
Destaco, assim, a importância do processo analítico como uma nova possibilidade de (re)inscrições, através de um espaço empático que considera a importância do real e traz a cena para dentro do setting — desta vez amparada pela figura do analista, como nos ensinou o sensível psicanalista húngaro Sándor Ferenczi.
AUTORA
Mariane Viégas Feijó
Psicóloga Clínica \ Formação em Teoria Psicanalítica pelo Instituto Contemporâneo de Psicanálise de Porto Alegre (CIPT)
E-mail — feijo.mariane@gmail.com
REFERÊNCIAS
1. Ferenczi, S. (2011). Obras completas: Psicanálise II. Martins Fontes.
2. Ferenczi, S. (2011). Obras completas: Psicanálise III. Martins Fontes.
3.Ferenczi, S. (2011). Obras completas: Psicanálise IV. Martins Fontes.
4.Kupermann, D. (2019). Por que Ferenczi? Zagodoni.
FICHA TÉCNICA
Título original — It Ends with Us
Título português — Isto Acaba Aqui (PT) / É assim que acaba (BR) Ano — 2024
País — E.U.A
Duração — 123 min
Realizador — Justin Baldoni
Argumento — Christy Hall e Colleen Hoover
Produção — Alex Saks – Christy Hall – Jamey Heath
Fotografia — Barry Peterson
Edição — Oona Flaherty e Robb Sullivan
Música — Duncan Blickenstaff e Rob Simonsen
Elenco — Blake Lively – Justin Baldoni – Brandon Sklenar – Jenny Slate – Hasan Minhaj – Amy Morton – Isabel Ferrer – Alex Neustaedter
SINOPSE
“É Assim Que Acaba”, longa-metragem do diretor Justin Baldoni, é uma adaptação cinematográfica do livro It Ends With Us, da autora Colleen Hoover. Lily Bloom (Blake Lively) é uma mulher que, após vivenciar eventos traumáticos na infância, decide recomeçar a sua vida em Boston e tentar abrir o seu próprio negócio. Lily acredita ter encontrado o amor verdadeiro em Ryle (Justin Baldoni), um carismático neurocirurgião. No entanto, à medida que o relacionamento se torna cada vez mais sério, surgem lembranças da relação dos seus pais. Até que, repentinamente, Atlas Corrigan (Brandon Sklenar), o seu primeiro amor e uma ligação ao passado – uma alma gémea, talvez? – retorna à vida de Lily.
