DA IMPORTÂNCIA DOS UNICÓRNIOS — The NeverEnding Story (1984)

— DORA LOURENÇO —

A propósito da leitura do texto Análise terminável e interminável (1), surge-me uma imagem-em-movimento de The NeverEnding Story, filme de 1984, baseado num romance de Michael Ende, sendo a minha memória visual precedida pela memória sonora da música-tema principal, criada por Limahl (2). 

O filme conta a história de um jovem rapaz que encontra numa loja obscura — uma livraria, que lhe serve como refúgio a uma perseguição —, um livro mágico que o transporta para um mundo chamado Fantasia. Neste mundo, que se vai criando ao longo da sua leitura, ele viaja ao lado de um jovem guerreiro – no qual se irão depositar todas as esperanças para encontrar a cura para a Imperatriz-criança (que está doente porque os seres humanos deixaram de ter esperança e de sonhar!) – e impedir que o Mundo da Fantasia seja engolido pelo Nada.

A minha associação talvez seja mais alimentada pela metonímia do que pela metáfora, mas de qualquer modo decido-me prosseguir com ela.

A inclinação em relação ao terminável ou interminável, não sei se crítica ou acrítica, estará talvez já bastante clara: inclino-me para uma versão infinita da epopeia psicanalítica no mundo da fantasia, e para uma versão sazonal no mundo real, dependendo das marés… para usar um termo de Freud.

Efectivamente Freud reflecte sobre se existirá ou não “um fim natural para uma análise” e se será “possível conduzir uma análise até ao fim” (1, p. 279), muito embora exista talvez uma ambiguidade nas suas reflexões. Para Freud o “Eu normal é, como a própria normalidade, uma ficção ideal” (1, p. 300) e chama-nos a atenção para a interação e a relação de forças entre o Eu e as pulsões, salientando a importância do aspecto económico, nomeadamente a noção de não só ser impossível como também ser indesejável fazer desaparecer a pulsão.

Define como o propósito do trabalho analítico, a integração harmoniosa da força pulsional no Eu, ou seja, aquilo a que chama um “amansamento do instinto” (1, p. 287). 

Podemos talvez considerar que será a partir da Fantasia que emergimos deste “caldo” instintivo e pulsional e que é através dela que começamos a entretecer as primeiras ligações entre o que se passou a designar como mundo interno e mundo externo. 

Do mesmo modo, neste Never Ending Story, que me parece emprestar tão bem o seu nome ao trabalho analítico, o jovem Bastian, afligido por um evento traumático — a perda da mãe — evento este que desafia o equilíbrio do seu Eu, quer interno, quer externo, ao qual se associa a sua tentativa de fuga de mais ameaças externas (nomeadamente os três bullies que o perseguem), acaba por se ver envolvido numa viagem que depende da sua leitura única deste livro mágico. 

Curiosamente, o jovem apropria-se do livro (eufemismo para rouba temporariamente) depois de ser avisado pelo proprietário da loja que, com cara de poucos amigos, lhe diz que os livros necessitam de algum esforço e que, por isso, não costumam interessar as crianças dos dias de hoje. 

Esta criança, no entanto, interessa-se, transgressivamente, por algo que dá trabalho e que não é “seguro”… Seguramente podemos falar de uma evasão do mundo real, pois ele esconde-se num sótão, movido também pela necessidade simultânea de se escapar a um teste de matemática. No entanto, percebemos que esta evasão poderá significar posteriormente um fortalecimento do Eu, tal como o que se pode supor num trabalho analítico. 

Podemos considerar analogamente, na natureza do trabalho analítico, uma evasão da concretude relacional e social normal, com uma imersão num mundo de fantasia (interno) que, através da aliança com o seu parceiro mais forte, a transferência positiva, e baseada no “amor à verdade” (1, p. 319), procura paradoxalmente reforçar o reconhecimento da realidade. 

A força da etiologia traumática nesta história de Bastian combina-se com a força da pulsão de vida do jovem e com a combinação de defesas que ele vai organizar para dar conta da terrível fraqueza que sente perante os acontecimentos concretos e reais, internos e fantasiados. 

Transgredindo as leis externas, e não se submetendo a uma ordem desvitalizante (nomeadamente a de um pai pouco empático, que o aconselha a “manter os pés no chão”), investe as suas forças para manter a esperança e o sonho de ser capaz e forte o suficiente para manter a criança-imperatriz viva dentro de si, tal como uma análise procura manter o ser humano a salvo da força da pulsão de morte e da destrutividade.

Quando Freud afirma que, mais do que perguntar como se dá a cura analítica, o analista se deve perguntar quais são os “obstáculos” que se interpõem nesse caminho (1, p. 282), conduz-nos para a reflexão acerca quer da transferência negativa, quer do que eventualmente leva ao ressurgimento de impulsos reprimidos não totalmente resolvidos numa análise, ou seja, ao ressurgimento dos sintomas. 

Deste modo, conduz-nos à ideia do que poderá ser a ambição máxima de um trabalho analítico: a manutenção de uma estabilidade interna que permita a criação de um Eu mais robusto, mais capaz de criar defesas firmes e adaptadas face às inevitáveis “marés altas do aumento instintual” (1, p. 290).

Ora como o trabalho analítico, de acordo com Freud, reporta sempre à ideia de uma correcção do processo de repressão original (trabalho este sempre incerto em virtude da imaturidade infantil incontornável), através da sua substituição por defesas mais confiáveis e adaptadas ao Eu, podemos imaginar o seguinte: o jovem Bastian estará melhor preparado, depois de iniciar esta viagem, para enfrentar aquilo que o próprio pai evita, a elaboração (ao longo da sua vida) da tristeza pela perda da mãe, objecto real, mas também interno, e cujo desaparecimento poderá ser representado, por exemplo, pela figuração do “Pântano da Tristeza” no mundo imaginário que lhe é oferecido pela Fantasia

O próprio Freud, a determinada altura, utiliza a metáfora do que pode acontecer na escrita/reescrita/leitura de um livro, comparando o mecanismo de defesa da repressão à omissão de palavras num texto, e opondo-a a outros mecanismos de defesa mais complexos, como a deformação, e que podem levar a um grau de maior falsificação da experiência emocional. Do mesmo modo, Bastian tem de fazer uma escolha na sua travessia de leitura/reescrita deste livro que se consubstancia no aparente impossível entrecruzamento entre a fantasia e a realidade. Ao acreditar no seu próprio poder de criar a partir de um grão de areia, último reduto do mundo da fantasia, identifica-se com o jovem guerreiro e pode ele mesmo voar, cavalgando o “seu” dragão da sorte.  

Por fim, parece-me que, para Freud, e apesar deste afirmar que “o caminho para satisfazer as exigências maiores feitas ao tratamento analítico não leva ao encurtamento de sua duração nem passa por ele”, (1, p. 285) a grande questão talvez não seja o maior ou menor acerto das “contas de matemática” acerca do fim da análise ou da sua interminabilidade, mas sim da necessidade da continuidade do trabalho analítico ao longo da vida, através da sua internalização, ou, de outro modo, através do que chamamos hoje da “internalização da função analítica”. 

Este aspecto tem validade quer para o analista, quer para o analisando, embora para o primeiro se revista de maior importância em virtude da sua actividade contínua na investigação da experiência emocional verdadeira — a única que nos permite um verdadeiro reconhecimento da realidade e por conseguinte, uma verdadeira satisfação — quer do Eu, quer dos instintos. 

Afinal, como escreve Freud: “Não se terá por objectivo nivelar todas as particularidades humanas em prol de normalidade esquemática, ou até mesmo exigir que o indivíduo analisado a fundo não sinta paixões nem desenvolva conflitos internos.” (1, p. 321). Tal como o jovem guerreiro, a quem se irá identificar Bastian na sua travessia interminável, se liga ao símbolo de Orion e que no filme surge com uma configuração de serpentes que mordem a sua própria cauda, também a análise se consubstancia através de ciclos e da sua renovação, almejando a eternidade do que é humano.  

AUTORA
Dora Lourenço \ Psicóloga Clínica \ Membro da Sociedade Portuguesa de Psicodrama Psicanalítico de Grupo (SPPPG) \ Membro da Sociedade Portuguesa de Psicanálise (SPP). 
E-mail — doragarcialourenco@gmail.com

REFERÊNCIAS
1.Freud, S. (2018). Análise terminável e interminável. In Obras Completas de Sigmund Freud (vol 19) (pp. 274-326). Tradução de Paulo César de Souza. Companhia das Letras. (Obra original publicada em 1937)
2.Limahl (1984). Never Ending Story (Official Music Video) — https://youtu.be/2WN0T-Ee3q4?si=Ole9s1HDTji6Jw_u

TRAILER

FICHA TÉCNICA
Título original — The NeverEnding Story
Título português — História interminável (PT) / História sem fim (BR)
Ano — 1984
País — Alemanha
Duração — 95 min
Realizador — Wolfgang Petersen
Argumento — Wolfgang Petersen / Herman Weigel / Robert Easton
Produção — Bernd Eichinger
Cinematografia — Jost Vacano
Música — Giorgio Moroder
Edição — Jane Seitz
Elenco — Noah Hathaway – Barret Oliver – Tami Stronach – Alan Oppenheimer – Gerald McRaney – Moses Gunn – Thomas Hill – Bernd Eichinger – Darryl  Cooksey

SINOPSE

O filme conta a história de Bastian, um jovem rapaz que encontra numa loja obscura um livro mágico que o transporta para um mundo chamado Fantasia. Mergulhando na leitura deste livro, Bastian entrelaça-se intimamente com a vida das personagens que encontra. Estas, estranhamente, parecem ouvi-lo e reclamar a sua presença, num movimento sintónico com as suas necessidades internas, oferecendo-lhe a possibilidade de renomear (re-significar) a experiência de luto e de perda recente da sua mãe.