UM POUCO MAIS SOBRE ADOLESCÊNCIA — And Then I Go (2017)

— FLÁVIO JOSÉ GOSLING —

Faço parte da geração dos vídeos cassetes e fitas de vídeo VHS. Ainda mantenho recordações do cheiro de plástico das caixinhas das fitas. Quem viveu, sabe das dores e delícias da escolha de um filme em uma locadora. Convivíamos fortemente com o risco da frustração por escolher algo que não agradasse. Não havia o acesso da internet e a divulgação dos filmes ocorria por propagandas ou através do boca a boca. Este tipo de risco diminuiu com as facilidades que o mundo digital e os streamings oferecem. Ainda assim, continua delicioso encontrarmos alguma película estimulante. Foi o caso deste filme, uma produção americana independente. Uma colega do meio psicanalítico muito afeita ao universo dos filmes me recomendou. E fez um gentil convite para que eu fizesse um comentário em um debate com uma jornalista especializada (4). Na ocasião, o encontro foi propulsor de associações e reflexões muito interessantes, o que a mim havia justificado a validade da obra. E passei a indicá-lo fortemente após o evento.

Posteriormente, em 2025, ocorre um fenômeno nos streamings. Fazendo uma procura rápida pela internet, descobrimos que foi houve um interesse mundial pela série inglesa chamada “Adolescência”, convocando muita gente a pensar o universo dos adolescentes e dos comportamentos de risco nessa fase da vida. Ali assistimos um retrato de um adolescente: seu isolamento, a impotência de pais e educadores frente a um ato de violência inesperado. Aponta para elementos essenciais: o papel da família, da escola, da abordagem psicológica e tratativa da legalidade nessa faixa de idade. O argumento que a série utilizou foi a investigação de um suposto ato violento criminoso praticado por um jovem.

Este tema do aspecto delinquencial de um jovem já é clássico, tanto no universo das artes quanto na clínica psicanalítica. “O Apanhador no Campo de Centeio” (2), obra da década de J. D. Salinger é um exemplo magistral da década de 50. Na psicanálise, os trabalhos de Winnicott (3) sobre delinquência e privação emocional também são célebres. Representam como o social convoca a psicanálise: os psicanalistas são chamados a versarem sobre o assombro acerca da violência de um adolescente.

No ofício clássico de um analista, estamos acostumados a conversar com pessoas de forma íntima e, atrás dos divãs, tomados pela emoção e embalados pelo sofrimento que pacientes dividem conosco, trabalhamos fazendo associações, ligações teóricas com os repertórios que nos veem à mente somados às vivências do nosso patrimônio pessoal. E privilegiamos trabalhar com o que sentimos na relação com o outro. O trabalho analítico é manufaturado, muito estilístico: lançamos a mão, cada um do seu jeito, daquilo que podemos e conhecemos para ajudar a quem nos procura. Nos arriscamos, no intuito de compreender e decifrar enigmas de quem está ali conosco.

O tema da adolescência nos exige ainda mais: pensar em abordagens criativas e a flexibilidade no manejo do caso passam a ser inevitáveis. Dificilmente não conversaremos com as escolas e pais. Nessa clínica, o pensamento analítico que desconsidere o meio ambiente passa a ser insuficiente e simplifica muito a prática clínica. Quem espera uma prática analítica estéril, com interpretações fechadas e settings rígidos, frustra-se no trabalho com adolescentes.

Meu objetivo aqui é estimular a assistirem este filme que pode ser considerado um percursor e um interlocutor da famosa série Adolescência de 2025. O filme ajuda os psicanalistas a refletirem acerca das possibilidades e limites da psicanálise no diálogo com o universo da educação de adolescentes. Retrata um fenômeno atual: a violência do jovem em um mundo complexo, marcado pelos desencontros, falta de comunicação e um aumento da intensidade de ataques pessoais e da intolerância, por exemplo, através de bullyings. O tema “adolescência” e os sofrimentos dessa fase de vida são intensos e tingidos pelas cores específicas da contemporaneidade.

Este filme foi baseado em um livro, “Project X” e amplia um aspecto que a série não revela: apresenta a vivência psicológica de um jovem no planejamento de algo violento. Na série de sucesso, o adolescente havia cometido um crime e seria investigado: aqui assistimos ao caminho para o ato. As atuações dos meninos protagonistas nas duas obras são impecáveis. Ficamos boquiabertos como crianças e adolescentes são potentes nas suas atuações. O ator que faz o protagonista, Edwin, parece sem muito esforço, revelar que o jovem vive a tristeza através de uma solidão abissal e tenta se encontrar no seu desenvolvimento. E sabemos que há muito sofrimento presente ali: o mundo parece inóspito ao jovem.

E escolho uma cena que me tocou: a mãe propõe ao menino que vem vivenciando bullying e trama uma vingança na escola, a passearem em um barco à vela. O filme mostra uma cena hipotética onde uma vela é hasteada. A cena parece um sonho: a mãe tentando ajudar seu filho a sobreviver ao ambiente escolar e em um mundo muito pouco gentil com ele. Podemos considerar que há tentativas nessa aproximação do jovem: a mãe tenta, uma professora e o diretor na escola também. Mas algo impede que o jovem aceite.

Sabemos que a adolescência é um período de luto. Arminda Aberastury (1), psicanalista argentina, nos alerta que nem tudo é patológico nessa fase: o jovem perde o corpo e os pais que tinha na infância e vive um luto, uma atmosfera de tristeza paira nesta fase. E o jovem ainda está sem um arsenal completo para fazer planos com autonomia de um meio que exige muito dele. Aberastury nos questiona: qual será o limite entre adolescer e adoecer? E quando trabalhamos com os adolescentes, vamos com as duas hipóteses, mas sobretudo tentamos nos aproximar de como podemos fazer algo. E por isso gosto da ideia central do filme, da importância de que convites sejam feitos aos jovens. Esta é a proposta central da psicanálise: de caminharmos juntos em um barco à vela com um adolescente, aguentando junto a eles as trovoadas ou o sol que possa aparecer. E é imperioso que não desistamos de convidá-los.

O filme permite uma conexão direta com a obra clássica psicanalítica de Winnicott, psicanalista inglês. Quem se interessa pela clínica da criança e adolescente dificilmente não entrou em contato com esse autor e seus escritos. Winnicott era pediatra e tinha um interesse muito grande pela clínica institucional no trabalho com crianças em situações de risco. Isso já faz do trabalho dele algo muito especial. Atendia crianças no período de guerra que, em função desse contexto, ficavam afastadas dos seus pais e sofriam grandes falhas ambientais. E observa um aumento de prevalência de atos disruptivos e delinquências nesta ocasião. Desenvolve, a partir disto, um trabalho seminal. Winnicott parte das observações já feitas por Freud e Klein de que o indivíduo carrega consigo traços destrutivos, invejas precoces, maldades intrínsecas e uma sexualidade operante desde a infância. Mas o diferencial do trabalho dele, importante para quem atende e vive com crianças e adolescentes, é que as questões do ambiente influenciam e modulam o desenvolvimento. Cuidar disto permitirá que façamos intervenção. Aqui as intervenções não são somente as incisivas, baseadas exclusivamente em interpretações ou orientações, mas a continência clínica é a base para o trabalho. E Winnicott sublinha que no cerne do trabalho está justamente em uma base: na relação com outro. Somente através de algo vivido com alguém é que propiciamos o desenvolvimento de um espaço para a criatividade, a espontaneidade, a confiança e a compreensão das necessidades. E é o que parece faltar no desenvolvimento da personagem central do filme.

Nesses anos de clínica do adolescente, me alio também aos pais porque vejo em grande número de vezes, uma tentativa genuína dos pais acertarem nas ofertas. Não se trata de uma negligência banal ou deliberada. Mas é que as estratégias de sedução atuais são grandes. Temos um mundo instagramável e idealizador através das imagens, o WhatsApp é frenético e constante, os apelos do consumo e de uma felicidade empacotável e ágil estão aí. Quando proponho a um adolescente que falemos dos seus desejos, de seus sonhos, dos seus talentos, me confidenciam que querem mesmo uma bolsa Prada ou algum produto Balenciaga. Somado a isso, sem muito peso, alguns me dizem que querem morrer ou cortar os pulsos para aliviarem seus sofrimentos. Expressam assim uma imensa restrição da capacidade de pensar a emoção e de sonhar ou imaginar saídas criativas, com sentidos, distantes da concretude. Tento diariamente propor a jovens que ampliem sua capacidade de sentir, de imaginar e de construir suas histórias. Quando falho, e é mais frequente do que desejaria, o contato ali comigo fica como uma possibilidade. Mas quando conseguimos e o jovem engata na proposta analítica, é incrível.

Penso que nós psicanalistas precisamos aprender ainda mais a mobilizar os pais e professores. Winnicott já nos alertava que necessitamos desenvolver mais trabalhos coletivos e discriminarmos os tipos de reação ambiental e delinquência. Talvez esse seja um desafio que o filme propõe aos psicanalistas: navegarmos mais juntos dos pais e educadores. E que sigamos nas tentativas de entendimentos sem perder a esperança.

AUTOR
Flávio José Gosling
Médico Psiquiatra e Psicanalista \ Membro associado da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo (SBPSP)
E-mail — flaviogos@uol.com.br

REFERÊNCIAS
1.Aberastury A., Knobel M. (1981). Adolescência Normal – um enfoque psicanalítico. 1ª ed., Artmed.
2.Salinger, J. D. (2019). O Apanhador no campo de centeio. 1ª ed. Todavia.
3.Winnicott D. W. (1995). Privação e delinquência. 2a ed. Martins Fontes.
4.Ciclo de Cinema e Psicanálise. MIS-SBPSP, São Paulo, 31/10/2023.

TRAILER

FICHA TÉCNICA
Título original — And Then I Go
Título português — É como se ninguém me entendesse
Ano — 2017
País — E.U.A.
Duração — 99 min
Direção — Vincent Grashaw
Roteiro — Brett Haley e Jim Shepard – baseado no romance Project X (2004) de Jim Sheppard
Produção — Laura D. Smith e Rebecca Green
Fotografia — Patrick Scola
Música — Heather McIntosh
Edição — Alana Canant
Elenco — Arman Darbo – Justin Long – Melanie Lynskey – Sawyer Barth – Kannon Hicks – Melonie Diaz – Tony Hale – Carrie Preston

SINOPSE
Filme baseado no aclamado romance Project X, de Jim Shepard. No difícil e complexo mundo da adolescência, Edwin e seu amigo Flake sofrem bullying na escola e se sentem incompreendidos por suas famílias e pelo seu meio, até que eles planejam uma vingança funesta que poderá finalmente libertá-los.