DO ÍNTIMO AO POLÍTICO — The Best of Youth (2003)

— JOANA ALVES FERREIRA —
Obra-prima contemporânea, “A Melhor Juventude” faz convergir, com rara subtileza e fôlego épico, a intersecção entre a micro-história dos destinos íntimos e a macro-história das convulsões colectivas que atravessaram Itália. O filme narra a trajectória de dois irmãos, Nicola e Matteo, ao longo de quarenta anos, acompanhando as escolhas divergentes que moldam os seus destinos, assim como o de quem lhes é próximo.
Nicola, movido por uma ética de cuidado, torna-se médico e dedica-se a transformar a realidade através do conhecimento e do compromisso ético, inscrevendo a sua prática no espírito basagliano da reforma psiquiátrica italiana, marcada pela crítica aos “manicómios” como espaços de exclusão e violência. A sua abertura ao outro, assim como a maleabilidade com que enfrenta as contingências da vida, dá-nos conta de um sujeito mais integrado, com uma maior capacidade de elaboração. Nicola rompe com a cadeia transgeracional do trauma — não apenas no campo familiar, mas também no plano institucional —, operando como agente de transformação simbólica e subjectiva. O seu percurso evidencia uma posição que privilegia o desejo, a escuta e a reparação, em contraste com o enclausuramento melancólico e mortífero que atravessa o seu irmão.
Com efeito, Matteo, dotado de uma inquieta sensibilidade, vive em permanente conflito com o mundo e consigo próprio, oscilando entre o desejo de pertença e a incapacidade de calibrar o excesso de ideal que o atravessa, mergulhando numa lógica de contenção e de controlo. Condensa, em si mesmo, a melancolia e a dureza superegóica: o seu silêncio lembra-nos que a perda do eu ideal, quando não metabolizada, pode conduzir o sujeito a um desinvestimento do mundo, culminando, no percurso da personagem, em colapso psíquico.
A vertigem entre as duas figuras centrais da narrativa surge condensada num momento inicial do filme, que poderíamos considerar o ponto de inflexão da trama: quando Matteo interrompe as férias com o irmão, regressando de comboio, surge a bifurcação do destino de ambos, materializando, assim, as forças inconscientes que separam, de forma irrevogável, os destinos fraternos. É o primeiro gesto que acentua “a força do destino”, no sentido de Bollas (1992), enquanto resultado não de uma fatalidade externa, mas como uma configuração inconsciente de forças internas que organizam silenciosamente a vida.
No decorrer das décadas, o filme cruza os dramas familiares, com os grandes acontecimentos da história italiana – das cheias de Florença à reforma psiquiátrica, dos movimentos estudantis à radicalização dos movimentos políticos -, compondo um vasto fresco, no qual paixões, perdas e reencontros revelam a inseparabilidade entre vida íntima e convulsões colectivas. A trama revela como os grandes eventos sociais não são apenas pano de fundo para os percursos individuais, mas atuam como agentes que fragmentam, reconstroem e redefinem os vínculos familiares e identitários. Nesse processo, as vidas das personagens tornam-se campo de batalha onde se articulam memórias, traumas e ideais desfeitos, mostrando que a experiência histórica deixa marcas profundas no interior dos sujeitos. O espectador é, assim, convidado, ao longo de todo o filme, a confrontar-se como a história colectiva está inscrita no tecido mais íntimo da existência humana.
Contudo, apesar da densidade da narrativa, o filme não cede ao didatismo, nem tão pouco à grandiloquência: prefere a cadência paciente das vidas, onde o trauma colectivo se manifesta nos vínculos familiares, nas escolhas éticas, nos silêncios e nos lutos. A sua profundidade advém, justamente, do jogo que se tece entre escala e detalhe, entre a vastidão da História e a densidade psíquica das personagens, permitindo-nos encontrar, a cada novo olhar, diferentes camadas. Voltar a este filme é, por isso, reencontrar uma espécie de atlas emocional e político: nele, as perdas e resistências de uma geração são narradas com delicadeza, sem maniqueísmos, tornando-se, talvez por isso, inesgotáveis. É, simultaneamente, um convite aberto a revisitar as nossas próprias histórias, reconhecendo que, na tessitura do tempo, o pessoal e o colectivo estão sempre entrelaçados.
O título escolhido por Marco Tullio Giordana — eco da obra de Pasolini — funciona, quase, como uma hipótese clínica: a “melhor juventude”, mais do que aludir a uma idade biográfica, parece representar um campo de forças psíquicas, onde os ideais se formam e se perdem, e na qual o traumatismo histórico solicita incessantemente o trabalho de luto e de reparação. Com efeito, através da extensão romanescamente dilatada do filme, acompanhamos uma geração atravessada por grandes acontecimentos e vemos como esses choques coletivos se inscrevem nos destinos subjetivos das personagens. Desse ponto de vista, a narrativa oferece uma fenomenologia da perda de ideal: aquilo que se edifica como Ideal do Eu nos anos de efervescência também se esboroa. Mas essa perda não é apenas uma dissolução: é também um convite à elaboração contínua, à reconstrução do sentido e à busca por novos modos de vínculo e resistência, o que confere ao filme uma complexidade e actualidade singulares.
A passagem do tempo, funciona, aqui, como uma espécie de operador metapsicológico: é o après-coup que confere sentido à crueza dos eventos, reorganizando o vivido à luz do que vem depois. Reencontros tardios, mudanças de trajectória, deslocamentos afetivos funcionam como tentativas de revisitar, elaborar e simbolizar, permitindo que o trauma histórico seja inscrito numa memória narrável. É precisamente nessa dimensão que a intersecção com Pasolini se torna particularmente interessante: se, na poesia, a “melhor juventude” vem, muitas vezes, descrita como a juventude perdida ou sacrificada, no filme, emerge como um trabalho contínuo de luto e resistência, um esforço para transformar a ferida histórica em memória, ética e esperança.
AUTORA
Joana Alves Ferreira
Psicóloga Clínica \ Membro candidato da Associação Portuguesa de Psicoterapia Psicanalítica de Casal e Família \ Membro da Sociedade Portuguesa de Psicanálise
E-mail — joana.alvesferreira@hotmail.com
REFERÊNCIAS
1.Bollas, C. (1992). Forças do Destino: Psicanálise e idioma humano (R. M. Bergallo, Trad.). Imago.
FICHA TÉCNICA
Título original — La Meglio Gioventú
Título inglês — The Best of Youth
Título português — A Melhor Juventude (PT/BR)
Ano — 2003
País — Itália
Duração — 366 min
Realizador — Marco Tullio Giordana
Direção de Arte — Franco Ceraolo
Argumento — Sandro Petraglia e Stefano Rulli
Produção — Angelo Barbagallo e Donatella Botti
Cinematografia e Fotografia — Roberto Forza
Música — Nicola Piovani
Edição — Roberto Missiroli
Elenco — Luigi Lo Cascio – Alessio Boni – Jasmine Trinca – Maya Sansa – Adriana Asti – Fabrizio Gifuni – Sonia Bergamasco – Riccardo Scamacio – Andrea Tidona – Lidia Vitale – Valentina Carnelutti
SINOPSE
É a história de uma família italiana do fim dos anos 60 até aos nossos dias. No centro da história, dois irmãos: Nicola e Matteo. No início, partilham os mesmos sonhos, as mesmas esperanças, leituras, amizades. Até ao dia em que o encontro com uma jovem rapariga com problemas psíquicos ditará o destino de cada um e separará os seus caminhos: Nicola decide estudar psiquiatria e Matteo abandona os estudos e entra na polícia. Para além dos dois irmãos, a família é ainda composta por duas irmãs, Giovanna e Francesca, o pai e a mãe, os amigos, as companheiras, os filhos… Todos eles vão fazer reviver acontecimentos e lugares que tiveram um papel crucial na história de Itália: das cheias de Florença à luta contra a Máfia, dos grandes jogos de futebol contra a Coreia e a Alemanha às canções que marcaram gerações, da cidade de Turim dos anos 70 à Milão dos anos 80, dos movimentos estudantis ao terrorismo, da crise dos anos 90 à tentativa de inovação e construção de um país moderno. As personagens perseguem os seus sonhos atravessando a História: crescem, magoam-se, criam novas ilusões em que apostam todas as suas energias. “La Meglio Gioventù – A Melhor Juventude” – título de uma recolha de poemas de Pasolini mas também uma velha canção dos caçadores dos alpes italianos – é o fresco de uma geração que, apesar de todas as suas contradições, ingenuidade ou até mesmo violência deslocada, se esforçou por transformar o mundo em algo um pouco melhor.
