DEVORAR OU SER DEVORADO — Stomach (2007)

— RAQUEL PLUT AZJENBERG & LUCIANA SADDI —
O filme, Estômago, longa-metragem de estreia do diretor curitibano, Marcos Jorge, conta a história da ascensão e queda de Raimundo Nonato, um cozinheiro com dotes muito especiais. Pode ser definido como “uma fábula nada infantil sobre poder, sexo e culinária”.
‘É gorgonzola! Esse queijo tem esse nome por causa da cidade onde ele foi inventado, na Itália, ali bem pertinho dos Estados Unidos…’ Assim começa o filme Estômago, em uma prisão, com o protagonista Raimundo Nonato (João Miguel, de Cinema, Aspirinas e Urubus, 2005) dando explicações culinárias, com sotaque nordestino, aos colegas de cela.
O filme traz uma atmosfera claustrofóbica, com poucas cenas ao ar livre, afirmando que o personagem é prisioneiro de um sistema, tanto quanto as pessoas que são “presas pelo estômago”. Não há diferença entre estar na cadeia e estar fora, pois em ambos os lugares impera a devoração. “O homem é o lobo do homem”. Pensa pelo estômago, ou seja, pensa de forma egoísta e imediatista. O que vale é a lei do estômago. Quando essa lei impera há os que “devoram e os que são devorados”.
Segundo o diretor, o filme “começa na boca do protagonista e acaba em seu traseiro. Assim como o sistema digestivo, que transforma tudo, todas as delícias, em excrementos”. Da mesma forma que o alimento no corpo, Nonato faz o seu percurso pela sociedade. A despeito de sua inicial fragilidade, o cozinheiro acaba agindo como lobo em pele de cordeiro. Afinal, fome pode não ser só de comida. Sexo e prestígio social abrem o apetite também.
Estômago, causa certo mal-estar, com efeito cômico, simpático, escatológico, desagradável e curioso. Como no trabalho dos sonhos o filme transforma em imagem os elementos pulsionais; daí somos tocados pelo desejo e voracidade, pela intensidade das zonas erógenas, pelo aspecto perverso polimorfo da sexualidade e suas formas fantasmáticas. O filme descreve com riqueza de detalhes a força e a violência do erotismo oral. Vemos os traços orais de avidez, voracidade, insaciabilidade (pano de fundo das patologias contemporâneas). A incorporação é um modo oral de se relacionar e ela prevê, como continuidade, a expulsão e/ou a retenção.
Vemos o retirante numa situação frágil, de quase total desamparo, incapaz de se orientar no mundo. Apesar das dificuldades, Nonato tenta se inserir buscando uma adaptação ao código grupal e através da comida encontra um lugar. Assim, o Nonato primitivo, simplório e imediatista vai, aos poucos, incorporando os valores da cidade grande para, depois, ultrapassá-los.
O estado de desamparo é o protótipo de todas as situações traumáticas. É proveniente das necessidades do bebê que depende do adulto para sobreviver e, reeditado, diante da impossibilidade de defesa frente à exploração e violência do mais forte.
Os donos de restaurantes funcionam como figuras que oferecem suporte e contenção diante do imenso espaço que Nonato não domina. São os portadores de autoridade e saber. Nonato procura na relação com eles um lugar de inserção e de pertencimento. Sua insignificância é compensada pela identificação com um “líder”, uma figura de projeção que representa, ao mesmo tempo, uma encarnação dos ideais e um ideal a ser seguido.
Frente ao desamparo primordial e à angústia há a ilusão de um poder maior – o líder ou alguma crença – que dotado do poder de salvar é transformado em objeto idealizado, pleno de poder e força. O desamparado se identifica com o líder e com a crença e abdica da própria vontade para atingir este ideal. Ou seja, reprime a hostilidade e o ódio, submete a paixão e se submete ao pai protetor. Desde que ele acredite que o pai ama a todos igualmente e a todos protege.
Nonato se submete a um pai tirânico, em função de seu desamparo. O processo de identificação com pai, a aprendizagem das consignas sociais valorizadas ameniza o ódio e neutraliza a ambivalência dos afetos. O pai passa a ser amado, pois se tornou fonte de proteção. Quando a proteção se revela uma farsa, quando a traição se consuma há ruptura com o ideal, desmanchando a trama que sustenta a civilização, colocando em xeque os contornos identitários de Nonato.
No filme, os líderes/pais não resistem a se satisfazerem à custa do mais frágil. Observamos a agressividade por meio do prazer em explorar a força de trabalho do outro (sem ressarcimento) e pelo deleite em aterrorizar – é o triunfo do poder. Estamos diante de uma atração indestrutível para humilhar, martirizar, infligir dor – e por que não, matar? “O homem é o lobo do homem”.
No filme surgem muitos exemplos:
– “Ceará, Paraíba, tudo é a mesma coisa” alguém lhe diz. Nonato chama a todos pelo prenome “senhor” ou “senhora”. Um lugar de baixo status social, o deixa vulnerável a humilhações e sua submissão é motivo de chacota.
– O dono do bar das coxinhas, Zulmiro, exerce o seu poder, obrigando Nonato a lavar toda a louça do bar e a limpar toda a cozinha. Nonato submete-se à disposição do mais forte como um servo.
– Já o dono de restaurante, Giovanni adota Nonato como um discípulo, transmitindo-lhe com paixão o seu conhecimento. Tem, no entanto, um discurso de poder dissimulado, arrogante e carinhoso e não perde oportunidade em gozá-lo, humilhá-lo sempre que pode. Assim dá uma de superior ao resgatar o ignorante e reafirma (garante) o lugar de quem manda, quem sabe, quem é o pai, quem é o filho.
Nonato, com esforço, faz tentativas de apoderar-se dos códigos culturais vigentes e fazer parte – imita, repete, sem compreender mas, infelizmente, as imagos internalizadas e as suas tentativas de construção de ligações, estão esgarçadas e não dão conta da força pulsional. Em Nonato a civilização é uma casquinha fina e tênue.
Qual a contribuição dos seus líderes, daqueles com quem ele tentou se identificar para que irrompa essa força desmedida?
Parece que esses líderes funcionam na base ou no tempo mítico da horda primeva, como se estivessem acima da lei, agindo livres para perpetrar exclusão, crueldade e, assim, perpetuar suas paixões e a destrutividade.
Nonato na cadeia está sob o regime do terror, vigora a tirania, ele se submete para sobreviver, então lança mão de seus recursos culinários, que lhe conferem algum poder, para fazer frente ao terror e escalar socialmente.
Na cadeia há um pai tirânico, o pai da horda que manda e desmanda tendo total poder sobre a vida dos súditos. Ele designa conforme um sistema de valor quem pode e quem não pode. Crenças sociais, não apenas individuais, também designam quem é inferior – posso humilhar, ofender o inferior sem me sentir culpado ou injusto, ele apenas merece isso.
Sabemos que essa força pulsional disruptiva fala da natureza primitiva, sexual e agressiva, impossíveis de serem simbolizadas plenamente. Tanto o homem das cavernas quanto o contemporâneo carregam esta natureza irremediável, que constitui o humano. Esta força está presente no filme, no personagem do Nonato, apesar de seus empenhos em se apoderar dos códigos, esse verniz da “cultura” sucumbe, pois os ideais foram tênues e insuficientes para conter a inclinação à destruição.
Surge uma dimensão catastrófica – o fim da cultura e da lei – se pensarmos no modelo freudiano da lei como sendo um representante do pai que ama e protege igualmente seus filhos. Novas formas de mal-estar para novos tempos, que se traduzem, na contemporaneidade, pela passagem ao ato violento, pela toxicomania, anorexia e imposições de ideias ou crenças que se colocam acima da lei.
AUTORAS
Raquel Plut Ajzenberg
Membro efetivo e docente da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo (SBPSP).
E-mail — raquel.a@uol.com.br
Luciana Saddi
Psicanalista, membro efetivo e docente (SBPSP) \ Mestre em Psicologia Clínica (PUCSP) \ Coordenadora do ciclo de cinema e psicanálise (DCC/SBPSP).
E-mail — lusaddi@uol.com.br
REFERÊNCIAS
1.Freud, S. (1913). Totem e Tabu.
2.Freud, S. (1929). Mal-estar na civilização.
FICHA TÉCNICA
Título original — Estômago
Título inglês — Stomach
Ano — 2007
Duração — 112 min
País — Brasil e Itália
Direção — Marcos Jorge
Argumento — Cláudia da Natividade – Fabrizio Donvito – Lusa Silvestre – Marcos Jorge
Cinematografia — Toca Seabra
Produção — Claudia da Natividade – Frabrizio Donvito – Marco Cohen
Edição — Luca Alverdi
Música — Giovanni Venosta
Elenco — João Miguel – Fabiula Nascimento – Babu Santana – Alexander Sill – Carlo Briani – Zeca Cenovicz – Paulo Miklos – Jean Pierre Noher – Andrea Fumagalli
SINOPSE
Raimundo Nonato, um jovem nordestino, busca uma vida melhor na cidade grande. Contratado como faxineiro em um bar, descobre seu talento para a cozinha e transforma o estabelecimento com suas coxinhas. Sua paixão pela culinária italiana o leva a trabalhar com Giovanni, um renomado restaurateur, e a conquistar uma nova vida, incluindo relacionamentos amorosos e status social. No entanto, a ascensão de Nonato revela as forças destrutivas do poder, da voracidade e da sexualidade, refletindo uma fábula sombria sobre a natureza humana, o sistema de dominação e a civilização.
