A JORNADA INTERIOR — Wild Strawberries (1957)

— CRISTINA FARIAS FERREIRA —
Em Morangos Silvestres Ingmar Bergman tece a história de Isak Borg, (Victor Sjöström), um médico prestes a ser jubilado na respeitável Universidade de Lund. Aos 78 anos, a viagem deveria ser feita de avião, mas um estranho sonho incita-o a tomar a estrada, transformando o trajecto de Estocolmo a Lund numa peculiar viagem. Acompanhado por sua nora, Marianne (Ingrid Thulin), Borg embarca não apenas numa jornada física, mas numa odisséia pelo intrincado labirinto de sua própria mente. Desde a noite anterior até a chegada a Lund, Borg é assaltado por memórias do passado, sonhos e devaneios que emergem como fantasmas do inconsciente.
O filme foca-se nos estados de alma de Borg, com a narrativa e a intriga relegadas a uma secundarização. A história começa com Borg apresentando-se num monólogo e descrevendo-se como um velho voluntariamente entregue à solidão, apaixonado pela ciência, cercado por fotografias e livros, vivendo com um cão e uma governanta, encontrando consolo apenas no trabalho. Borg menciona ser viúvo de Karin, há vários anos, ter uma mãe idosa, ainda activa, e um filho casado há vários anos, sem filhos. Contudo, os eventos mais marcantes de sua vida só são desvelados à medida que a narrativa avança, pois, as memórias evocadas são moldadas pelo estado de espírito de quem as vive.
O primeiro sonho de Isak condensa a essência de sua jornada interior e permeia toda a história que se desenrola. Ele caminha por uma rua deserta, onde todas as janelas estão hermeticamente fechadas. No caminho, depara-se com um relógio sem ponteiros, sob o qual algo se assemelha a dois olhos. Ao pegar seu próprio relógio, descobre que também está sem ponteiros. Isak, sentindo o suor brotar de sua testa, tira o chapéu e limpa-se. No meio do silêncio opressivo, parece ouvir as batidas de seu próprio coração, ecoando sua aflição.
Isak encontra um homem com um rosto vazio, que cai ao chão, inanimado, deixando uma marca de sangue no solo. Adiante, avista um carro fúnebre que perde uma roda e deixa cair o caixão. Dentro do caixão, ele vê o seu próprio cadáver, que o toma pela mão tentando agarrá-lo. Isak desperta na cama, ainda preso ao pesadelo.
As imagens deste sonho complexo, estão repletas de significados profundos, que desafiam a interpretação imediata. Bergman usa esta técnica magistralmente para construir um universo onírico. O sonho reflecte as memórias, medos e anseios, especialmente em relação à morte e à solidão.
Após o pesadelo inicial, Isak decide fazer a viagem de carro, não de avião. Marianne, decide acompanhá-lo, e as conversas entre eles tornam-se terríveis, cruas, desnudando verdades dolorosas. Marianne, acusa-o de egoísmo inflexível, dizendo que ele não a engana. Quando ela acende um cigarro, ele repreende-a afirmando que fumar é um vício masculino. “Quais serão os vícios de uma mulher?”, pergunta-lhe, ao que Isak responde, friamente: “Chorar, ter filhos e falar mal do próximo.”
A conversa torna-se mais tensa quando discutem sobre Evald, marido de Marianne, e ela diz-lhe que o filho o respeita, mas também o odeia. Recorda depois o que Isak, a dada altura, lhe disse: “Não tentes arrastar-me para as tuas calamidades matrimoniais. Não quero saber. Que as pessoas tratem de si mesmas. Não respeito o sofrimento mental, por isso não me peças compreensão. Se precisas de masturbação mental, eu arranjo-te um psiquiatra ou um padre (…)”.
É o próprio Bergman quem afirmou que Isak era uma representação de seu pai, mas que no fundo era ele mesmo, um homem de 37 anos, privado de relações humanas, introvertido e fracassado (1).
Durante a viagem com Marianne, param na casa à beira dum lago onde Isak viveu seus primeiros 20 anos. Mariane vai tomar banho e Isak, reconhecendo o lugar dos morangos silvestres, fica sentimental e melancólico: “é possível que eu tenha ficado um pouco sentimental, um pouco cansado e melancólico. Talvez tenha pensado numa coisa ou outra associada aos lugares onde brincávamos quando éramos crianças. A claridade do presente esfumou-se em imagens mais nítidas da minha memória que apareceram diante dos meus olhos como se fosse o presente”, diz ele. A sequência seguinte não é um flashback habitual, nem um sonho repleto de significados ou desejos reprimidos. Isak revive um episódio de seu passado que moldou profundamente sua vida, mas que ele jamais presenciou. Aos 78 anos, Isak assiste a acontecimentos como: o flirt de seu irmão Sigfrid com sua namorada Sara, (interpretada por Bibi Andersson), e às confidências que Sara faz a Charlotte na entrada da casa. Sara parecia sentir que Isak, embora gentil, não a saberia amar, preferindo discutir sobre a vida e a morte, abrigando pudores sexuais.
Isak deveria estar a pescar com seu pai, mas agora percorre o caminho dentro da casa como um fantasma, observando os acontecimentos. Apesar destas ocorrências não terem sido vividas por ele, elas revelam algo profundo e inverossímil.
Bergman sugere que o passado é mais complexo do que normalmente se pensa, e mesmo cenas não vividas podem deixar marcas.
Entretanto Isak é surpreendido no seu devaneio pela voz de uma rapariga chamada Sara, que se parece com a Sara do passado (também interpretada por Bibi Andersson), que lhe pede boleia com dois rapazes.
Após momento descontraído durante o almoço, Isak vai visitar sua mãe, com Marianne. A chegada é anunciada por um trovão, prenunciando um encontro tenso. A mãe de Isak é fria, indiferente e egoísta, provocando um abalo interno em ambos, professor e nora.
Novos sonhos assolam Isak, onde num deles retorna ao local dos morangos silvestres e encontra-se com a Sara do passado, que, ao estender-lhe um espelho, diz-lhe, friamente, que ele é um velho ansioso e que em breve estará morto. Anuncia-lhe que vai casar-se com Sigfrid. No segundo sonho, Isak submete-se a um exame para avaliar seu valor profissional, mas é acusado de ser culpado, e o veredicto final declara-o incompetente.
Ao acordar dos sonhos, em nova conversa com Marianne, ele afirma: “Tendo tido sonhos estranhos (…) É como se eu me dissesse algo que não quero ouvir quando estou acordado (…) que estou morto… embora esteja vivo.” Seguidamente Marianne desnuda suas angústias, e Bergman, num suave deslizar da câmara em direção a Isak, revela Evald, seu filho, a dizer: “É absurdo ter filhos num mundo como este. Eu não fui desejado, numa união que era um inferno.” Compreendendo a profundidade do conflito entre Marianne e seu filho, Isak, com um gesto de empatia, permite que ela fume. No início do filme, ele lhe pedira para apagar o cigarro, mas agora, ciente do desejo de Marianne de ter um filho, uma relação de amor e respeito floresce entre eles.
Já próximo ao término do filme, antes das lembranças de Isak sobre sua infância, ele declara a Marianne que a adora, e ela, beijando-o, responde que também o adora.
Ao deitar-se, Isak diz que tem o hábito de recordar cenas de infância para se acalmar. Em novo sonho, Sara do passado pega-lhe na mão e, levando-o junto ao lago, mostra-lhe, do outro lado, um casal dizendo-lhe adeus. Eram seus pais.
A imagem final é um grande plano de Isak, sereno, sorrindo na cama. Esta imagem contrasta fortemente com o pesadelo inicial do filme. Este marco simbólico abalou seu sentimento de identidade e impeliu-o a reavaliar sua vida.
Desde o momento em que mudou seus planos e decidiu conviver com pessoas, uma atitude tão inusitada para ele, Isak propôs-se a mudar. Muitas das fantasias e angústias que emergem com o envelhecimento e a inevitabilidade da morte estão enraizadas no problema da identidade e no profundo medo da mudança. No caso de Isak, pelas possibilidades que se frustraram, no amor não vivido e no arrependimento pelo tempo desperdiçado. A verdadeira questão a ser enfrentada é a elaboração patológica do luto pelo self.
A solução saudável reside em elaborar a vivência depressiva sem empregar defesas extremas, confiando no amor próprio para aliviar a raiva e reparar o que está danificado. Isso contrabalança o medo da morte com o desejo de viver. Quando a admiração e a gratidão renascem, surge a esperança de que as angústias do luto, a culpa e a perseguição podem ser toleradas e superadas através de uma reparação autêntica. Assim, a transformação do medo da morte numa experiência construtiva torna-se possível(2). O ar sereno de Isak, deitado e sorrindo, parece testemunhar essa transformação.
Para Isak, essa mudança parece ter sido possível através da viagem com Marianne, das trocas afetivas que surgiram, dos sonhos e pesadelos que o levaram a confrontar aspectos até então desconhecidos. Ele ressignifica os acontecimentos, estabelecendo novas ligações com os eventos passados e com as pessoas ao seu redor.
Bergman terá compreendido mais tarde que, com Morangos Silvestres, queria que os seus pais o compreendessem e perdoassem (1). A sua obra é um processo contínuo e este filme destaca-se com um esplendor especial superando os outros filmes.
Os morangos silvestres, com sua carga simbólica e emocional representam um “bom objeto” (Metz), evocando nostalgia e experiências universais de crescimento, perda e reflexão. Mesmo com elementos de perda, são parte de um processo mais amplo que resulta em sensações positivas e reconfortantes, essenciais para o desenvolvimento emocional.
Não é algo semelhante ao que acontece numa psicanálise? A jornada de Isak reflete a essência do processo psicanalítico, onde os encontros e as revelações propiciam a cura, a aceitação e a renovação do sentido da vida, transformando o peso do passado numa fonte de sabedoria e tranquilidade.
AUTORA
Cristina Farias Ferreira
Psicóloga Clínica e Psicanalista \ Mestre e pós-graduada em Psicopatologia Clínica e Psicologia Clínica \ Membro Associado da Sociedade Portuguesa de Psicanálise (SPP) e da International Psychoanalytical Association (IPA) \ Formadora e supervisora oficial da Sociedade Portuguesa de Psicologia Clínica (SPPC).
E-mail — c.fariasferreira@gmail.com
REFERÊNCIAS
1.Castaneda, A., Lucas, G., Zacharias, J. C. (org). (2012). Ingmar Bergman. 1ª ed. Jurubeba.
2.Grinberg, L. & Grinberg, R. (1976). Identidade e Mudança. Climepsi.
FICHA TÉCNICA
Título original — Smulltronstället
Título inglês — Wild Strawberries
Título português — Morangos Silvestres
Ano — 1957
Duração — 91 min
País — Suécia
Direção — Ingmar Bergman
Argumento — Ingmar Bergman
Produção — Allan Ekelund
Fotografia — Gunnar Fisher
Composição Musical — Eric Nordgren
Edição — Oscar Rosander
Figurinista — Millie Strom
Maquiagem — Nils Nittel
Elenco — Victor Sjostrom – Bibi Anderson – Ingrid Thulin- Gunnar Bjornstrand – Jullan Kindahl – Folke Sundquist – Bjorn Bjelvenstm-Naima Wifstrand
Sinopse
Morangos silvestres, uma obra-prima cinematográfica de Ingmar Bergman, oferece uma profunda reflexão sobre a alma humana e o processo de envelhecimento. O filme narra a história de Isak Borg, um médico respeitado, que, ao completar 50 anos de carreira e prestes a ser homenageado pela Universidade de Lund, tem um sonho perturbador. Decidido a viajar de carro, é acompanhado por sua nora Marianne. Durante a viagem, através de diálogos francos, surgem sonhos, lembranças e devaneios, mostrando a importância das trocas afetivas propiciadas pelos relacionamentos humanos e da capacidade de transformação e crescimento emocional.
