FRATRIAS QUE NOS ACOMPANHAM — Witches (2024)

— ANY TRAJBER WAISBICH —

Poderia abordar vários assuntos apresentados no documentário. O mais evidente seria discutir a depressão e psicose pós-parto que atinge muitas mulheres, seus bebês e quem as acompanha. Não nos esqueçamos das confrarias de bruxas, e das questões sobre o feminino. Temas que ficarão como pano de fundo permeando este comentário.

Escolhi conversar sobre fratrias e laços afetivos que ocorrem entre sujeitos de uma mesma geração. Situação permeada de ambivalência de sentimento, passando do amor ao ódio, dos ciúmes à inveja e da competição à solidariedade. Estes são encenados ao interno das primeiras relações de um bebê com seu rival real ou imaginário na luta por não perder o olhar do cuidador.

A fraternidade é um tema presente na história da humanidade e relatada através da cultura. Na mitologia grega, só para ficar num exemplo, a trama se revela na luta entre Zeus, Poseidon e Hades. Na Bíblia com Caim e Abel e a progenitura. Nos Contos de Grimm, em “Os Seis Cisnes” que recuperam o aspecto humano através da irmã, na “Gata Borralheira” com a inveja e ciúmes das irmãs com o conluio da madrasta/mãe. Em “João e Maria” pela astúcia da irmã ao desafiar a bruxa e sobreviverem. E vemos os mesmos temas na literatura oral.

Temos exemplos em Shakespeare na tragédia “Ricardo III” onde o usurpador mata os sobrinhos e todos os competidores para ser o herdeiro do trono da Inglaterra. Nos “Irmãos Karamazov”, Dostoievski disseca momentos conturbados entre eles. Em “José e seus irmãos”, Tomás Mann analisa a inveja e ciúmes quando da predileção do pai por um dos seus filhos. No filme “A Malvada” com Betty Davis onde a secretária, portanto similar a irmã, destrói a protagonista. Mas nem tudo está perdido, lembremos da união entre Van Gogh e Téo e posteriormente a luta da cunhada para manter o patrimônio do pintor.

Na psicanálise, a relação fraterna é levada em consideração por Freud ao longo de sua obra, embora a primazia seja o estudo do Complexo de Édipo e suas implicações na formulação da teoria e prática daquela ciência que apenas começava. A questão se presentifica na Interpretação dos Sonhos nas associações do sonhador ao aludir ao conteúdo problemático relacionado à morte do irmão Theo um ano mais novo. Em Totem e Tabu, Freud explora-a por meio da união dos irmãos no intuito de matar o pai castrador. No Caso Dora revela as emoções no conflito com o irmão. Em Moisés e o Monoteísmo, Moisés escolhe seguir o irmão e funda uma nova religião. No Pequeno Hans a fobia se instala quando nasce sua irmã. Portanto tema abordado, mas colocado em segundo plano e atingindo valor, na psicanálise, recentemente.

Por que será que, mesmo se repetindo na clínica psicanalítica cotidianamente, seja um assunto tão pouco estudado teoricamente?

Uma paciente me contou que seu filho, na época com um pouco mais de 3 anos, depois da chegada do irmão disse, ‘ele chegou e quando vai embora?’
E outro que contou para a babá que um amiguinho havia jogado a irmã na lata de lixo. E esperou a reação desta.

Autores, como Renè Kaes a sistematizaram como Complexo Fraterno e verificaram suas implicações ao levantarem a hipótese de que seria penoso verificar esta ocorrência nos primórdios da Instituição Psicanalítica, já que implicaria revirar feridas das relações horizontais das primeiras gerações ao interno de suas instituições. Graças aos dispositivos grupais, esta relação é mais evidente quando observamos a interação entre os seus componentes.

Poderíamos pensar que a dificuldade se aloca em expor este vínculo que se inicia conflituosamente, embora seja o responsável por estruturar e determinar a qualidade do convívio social vindouro.

Tendo isto em mente e voltando ao filme, a rede de apoio ressignificou a dor e impotência daquilo por que passava a protagonista. Fato que nos emociona por resgatar e validar sua função protetiva. Assim, adentramos na intimidade de um grupo de mulheres por meio de entrevistas e depoimentos com outras tantas. Compartilhamos seus temores embora os nossos sejam protegidos pela obra e pela tela.

A cineasta nos introduz no mundo fantasmático, segregado e demonizado das confrarias de bruxas desde a idade média atualizando-o, através de recortes de filmes e vivências pessoais. Entendo estes conteúdos como processos referentes a investimento de traços de memória, estímulos corporais que são marcas indeléveis conscientes e inconscientes.

Sankey alterna depoimentos com cenas cinematográficas e nos faz cúmplices de um segredo; aquele de sempre ter se imaginado bruxa. Desejaria ser somente a boa e se percebe sendo também a má, independente das circunstâncias tachadas, ainda hoje, como perversas. Ser acompanhada por bruxas e pertencer a esta comunidade é estar ligada a poderes destrutivos e erotizados. Desta forma, se perpetuam os maus-tratos dos corpos e se infringe dor psíquica às mulheres.

Após várias incursões ao pronto atendimento e não terem identificado uma causa para seu desespero e, ainda por cima, banalizando-o, a autora confidencia, em um grupo de whatsapp, que tem pensamentos suicidas, juntamente com fantasias e temor de assassinar o filho.

Vemos aí o primeiro sinal desta relação horizontal quando uma delas vai a sua casa e a incentiva a relatar o que está acontecendo ao serviço de saúde. Isto é, o que teme contar por medo de retaliação, por culpa e vergonha. Consequentemente, teria o filho arrancado dela. A solidão é insustentável. Sankey nos remete, metaforicamente, às cenas de bruxaria e de mulheres queimadas vivas impedidas de se expressar.

Sabemos que, na depressão pós-parto, a mãe pode sentir que “morreu” ao dar à luz e isso trará de volta experiências de aniquilamento. Sua experiência de morte psíquica será violenta; ela grita com gana assassina contra seu bebê ao mesmo tempo que o ama.

Daí em diante serão dois meses de internação em um centro de acolhimento de mães no tratamento de depressões e psicoses pós-parto juntamente com seus bebês. Aparelho que vem sendo implementado na Inglaterra depois de um episódio que poderia ter sido evitado.

Maria Rita Kehl em seu livro A fratria órfã (1), mais especificamente no artigo do mesmo nome, escreve: “… o reconhecimento paterno estrutura o sujeito, mas é o reconhecimento dos semelhantes que lhe devolve a confirmação de quem ele é … pelos traços adquiridos a partir da série de empreendimentos em que ele se engaja pela vida a fora.”

Vemos o estabelecimento de um laço de confiança. Participamos daquilo que a levou a se aproximar de duas internas com seus bebês e poder olhar para eles. Conversavam sobre ambivalência de sentimento em relação à maternidade, sobre o medo de assassinar seus filhos, do julgamento de outros, de uma inadequação aos padrões e muito mais.

Mas não foi o suficiente, o próximo passo foi registrar depoimentos de uma comunidade ainda maior de mulheres que enfrentaram dramas similares em um universo ainda silenciado e nocivo.

Este documentário nos compele a observar angústias primitivas pelas quais um sujeito passa para, a seguir, poder lidar melhor com elas. Sankey reflete sobre as novas amigas como um clã, parceiras construindo referências alternativas, inventando espaços e testemunhando de que estão vivas.

Voltemos à amizade, na melhor das hipóteses, e cito Kancyper (2): “ela é desinteresse, não tira e nem guarda nada desta relação, salvo a gratidão afetiva, o conluio, o sentimento de comprometer-se do humano pelo humano. Ser escolhido e não escolher. Ela pertence à lógica do dom, não é um ato de minha vontade, não decido ser amigo de tal ou qual, apenas acontece. Se acontece, acontece comigo. A amizade é deixar-se escolher. Uma relação de irmandade escolhida e não importa os laços consanguíneos e com isso se estabelecem relações de objeto exogâmicos, nelas os laços foram substituídos por laços sublimatórios. É o arquétipo das relações sociais.”

Ao longo do documentário a autora nos expõe a soluções nada fáceis, contraditórias e, se tudo correr bem, eficazes. Nesse universo de caça às bruxas que vivemos até hoje onde se exclui a dor psíquica sobra pouco espaço para a resistência. Estes fenômenos são interpretados como passageiros pela sociedade e pertencentes ao universo feminino das mulheres bruxas que gritam. Afinal, somos uma confraria de bruxas e encontramos conforto nos abraços umas das outras.

Na última cena Elisabeth compartilha imagens amorosas possíveis entre ela, o marido e o filho dos dois o que nos acalenta.

AUTORA
Any Trajber Waisbich
Membro efetivo da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo (SBPSP) \ Coordenadora de seminário temático junto ao Instituto Durval Marcondes \ Professora e supervisora do CEP (Centro de Ensino Psicanalítico)
E-mail — anytw@uol.com.br

REFERÊNCIAS
1.Kehl, M.R. (2008) A Fratria Órfã. Olho d´Água.
2.Kancynper, L. (2019) O Complexo Fraterno, Estudo psicanalítico. Blucher.

TRAILER

FICHA TÉCNICA
Título original — Witches
Ano — 2024
Duração — 90 min
Países — UK
Direcção — Elisabeth Sankey
Argumento — Elisabeth Sankey
Produção — Bobby Allen – Chiara Ventura – Jeremy Warmsley – Manon Ardisson – Efe Cakarel – Thomas Høegh – Jason Ropell
Fotografia — Chloë Thomson
Música — Jeremy Warmsley
Edição — Elisabeth Sankey
Elenco — Catherine Cho – Sophia Di Martino – David Emson – Marion Gibson – Chrissy Jayarajah – Trudi Seneviratne – Shema Tariq

SINOPSE
Bruxas é um documentário revelador que mergulha nas conexões entre a saúde mental pós-parto e a representação das bruxas na história e na cultura popular ocidental. Através de uma análise profunda, o filme explora como as bruxas, figuras de marginalização e poder, têm sido associadas a temas como a depressão pós-parto, criando um paralelo entre a experiência feminina e as narrativas históricas e cinematográficas. Utilizando imagens icônicas do cinema e depoimentos pessoais, Bruxas investiga como as representações de mulheres “fora do controle” nas telas refletem as lutas internas e invisíveis vividas por muitas mulheres após o parto, desafiando estigmas e re-imaginando o poder feminino. [https://www.adorocinema.com/filmes/filme-1000002084/)